Pós-Graduação em Netflix

Por que estamos consumindo compulsivamente séries e atribuindo a esse comportamento demasiada importância para as diversas esferas de nossa vida?

A Netflix, com todo o seu cardápio audiovisual, se fixou em nossa rotina tornando-se tão natural quanto beber água ou andar com os olhos grudados nas telas luminosas. A era digital não mudou somente a forma como consumimos conteúdo. As constantes e rápidas atualizações, aumento da produção e facilidades de acesso, impactou diretamente em nossas relações (comportamento em sociedade).

Assistir filmes, principalmente séries, e falar com propriedade a respeito em cada mesa que estacionamos virou sinônimo de respostas para os segredos da vida; sabedoria atualizada, bagagem cultural, matéria indispensável na escola da vida.

Outrora, consumir livros nos colocava em posições privilegiadas. Hoje, ao que tudo indica, as séries são os livros de ontem; ou seja, demonstrar conhecimento em conversas no trabalho ou com os amigos em bares sobre o assunto — e quanto mais, melhor! — nos dá a sensação de um lugar ao sol. E se os nossos espectadores também estão bronzeados, aí começa a disputa de quem consumiu a obra completa, ou em “qual episódio você está?”. Quem estiver na frente, leva vantagem. Se torna o “eleito”. Tem gabarito para conduzir as demais conversas. Adiciona peso em seu currículo e na maneira como as pessoas o percebem.

E quem não acompanha séries e, de repente, se vê nesses instantes recorrentes? Sente-se como se fosse um aluno do ensino fundamental discutindo filosofia com filósofos. Não tem para onde correr. Ou você começa a assistir, ou está morto.

E nos relacionamentos amorosos?

O serviço de vídeo via streaming está determinando, em partes, nossas escolhas amorosas. A Netflix resolveu investigar e, segundo uma pesquisa Ipsos, chegaram a resultados surpreendentes que vale a pena destacar:

– “58% assumiu que usa suas séries e filmes como guia de compatibilidade, tanto que 13% afirmou tomar a decisão de chamar alguém para sair baseado nesse critério”.

– “Compartilhar a senha da plataforma, por exemplo, é um grande passo no relacionamento para 51% das pessoas entrevistadas. A divisão da conta da Netflix é algo tão sério que, para 17% delas, isso só deve acontecer depois do noivado”.

Nada de novo até aqui. Desde os tempos mais remotos, a compatibilidade de interesses sempre foi algo muito bem avaliada antes de dizer sim a pessoa amada e ingressar de uma vez por todas num relacionamento sério. Porém, se olharmos com mais cuidados os dados acima e o comportamento das pessoas, por exemplo, nos campos da política, da religião e entre outros, poderemos sugerir a seguinte questão: Será que não estamos mais conseguindo tolerar nem as ideias e opiniões das pessoas que amamos?

Tudo o que assisto é mais importante!

Antes de mais nada, um spoiler: tem sempre um amigo armado, com forte munição de convencimento, de que realmente vale muito a pena assistir o que ele está assistindo.

Em relação a nossa convivência com as outras pessoas, as redes sociais têm gerado uma percepção de “centrismo universal”. Isto é, tudo o que assisto, vejo, leio, compartilho é e sempre será a coisa mais importante no mundo naquele instante. E então nasce uma inevitável necessidade — quase que uma obrigação — de comunicar a experiência vivenciada.

O escritor americano David Foster Wallace, em seu belíssimo discurso como paraninfo — A liberdade de ver os outros — , entendia que o centrismo humano não estava atrelado somente aos aspectos exteriores, mas, sim, em nossos circuitos internos. “Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos”, alerta Wallace.

Leia também: Mudei a minha vida e gostaria de compartilhar com você.

É claro que quando muda o que compramos, nós também mudamos. Mas, as redes sociais e os sites de economia compartilhada não são exclusivamente responsáveis por essa nossa profunda percepção de centro absoluto do universo. Quando as coisas ficam realmente difíceis, mais egoístas nos tornamos — é a lei da sobrevivência nesse mundo material. Quando não encontramos, de maneira alguma, as respostas para a vida, um significado para levantar todos os dias da cama, caímos no conhecido e confortável viés: “Somos o que fazemos. E quanto mais fazemos, mais somos”, relembra Lucy Kellaway em seu artigo: ‘Ficar tempo demais no escritório está saindo de moda’. Só que nem fazendo estamos mais. Somos o reflexo de uma geração que preza pela lei do menor esforço. Sucesso é trabalhar menos, inventar qualquer coisa, e qualquer coisa mesmo, de preferência no Youtube, ganhar seguidores e viver numa boa.

Afinal, por que estamos consumindo compulsivamente séries e atribuindo a esse comportamento demasiada importância para as diversas esferas de nossa vida? Assistir séries é um reflexo de tudo o que vimos aqui: com as constantes e rápidas mudanças no mundo, e com cada vez menos tempo para fazer as coisas, definir um assunto em no máximo 50 minutos é muito mais vantajoso que iniciar um livro — além de ser muito mais prazeroso e confortável; assistir séries abre um leque de conhecimento que é muito mais valioso que começar uma pós-graduação; assistir séries revela que você está acompanhando o frenesi do mundo globalizado — e isso é muito bom também pra sua vida profissional; assistir séries lhe dá sabedoria constantemente atualizada, bagagem cultural e peso no currículo da vida; assistir séries defini o seu próximo amor; assistir séries lhe garante, frente ao excesso e infinitos estímulos que atropelam a rotina, convicção absoluta que o que você escolheu para assistir é a melhor e mais importante escolha — tanto para você, quanto para todas as outras pessoas que você conhece.

Dane-se o nosso consumo compulsivo. Assistir séries é muito bom!

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Saiu hoje, e está fresquinho! Já viu o trailer da segunda temporada de “Demolidor”?!

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Fontes:

AdNews: Infográfico mostra influência da Netflix nos relacionamentos.

Revista Piauí: A liberdade de ver os outros.

Valor Econômico: Ficar tempo demais no escritório está saindo de moda.