Papel de parede

Paisagens são bons fundos para mensagens diárias. Foto: TecMundo.

Nunca fiz as contas do tempo perdido diariamente ao trocar mensagens por aplicativos. Como bom cidadão contemporâneo, gasto horas deslizando a tela e vendo bobagens.

O aparelho apita e leio desde repetidos “bom dia” até notícias urgentes sobre a intervenção alienígena para acabar com a corrupção. Meu tio acredita nessas coisas. Se antes eu o perguntava da ausência de tanques nas ruas, agora evito constrangimentos com a família.

No barzinho, mostrei uma das correntes bizarras de familiares, mas o que chamou atenção foi meu papel de parede. É uma tirinha, cômica e niilista, relativizando nossos problemas em um universo tão gigantesco quanto despreocupado com o ônibus perdido pela manhã. Sou fã de quadrinhos.

Percebi um silêncio estranho. Notei boa parte dos presentes com a própria foto no papel de parede do aplicativo e na tela de bloqueio do celular. Estranhei.

- Por que vocês querem ver a própria foto quando estão trocando mensagens? É como olhar no espelho o dia todo, isso faz bem?

Outro silêncio.

Chamaram o garçom, pediram a conta. Já era tarde, meio de semana. E o questionamento deu uma bagunçada nas mentes. Tive até medo de perguntar se não haveria a tradicional selfie no boteco.

Em casa, vi que muita gente próxima tem a própria imagem na foto de perfil e capa de Facebook, além do papel de parede. Um looping. Sorrisos no rosto, viagens memoráveis, caras redondas em paisagens bonitas, filhos no colo com fraldas limpas, estádios de futebol lotados.

Devo ser da minoria que prioriza uma mensagem, longe de motivacional, mas que me provoca alguma reflexão por segundos. Pode ser que o mundo virtual não esteja muito interessado nisso. Ou, então, meu narcisismo é tão grande que me faça ver narcisismo alheio em meras fotos.

Não descarto nada. Só acharia estranho me ver o tempo todo, enquanto converso pelo celular. Depois do bar, desviava o olhar diante do espelho, mas não adiantou. Do outro lado, o sósia repetia meus movimentos.

Vergonha de me ver como sou? Li em algum lugar, não lembro onde, que jamais teremos a chance de nos enxergarmos como de fato somos. Sempre haverá a intermediação de um vidro, uma lente. Nunca nos veremos apenas pelos nossos olhos. A distorção é constante. Por isso evito fotos e vídeos. Motivo de eu fugir dos papeis de parede.

Meus amigos e familiares me chamam de paranoico. Talvez eles tenham razão.

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