Para onde vão nossos sonhos quando crescemos?

Já adianto que não é para lata do lixeiro mais próximo

Luana Santos
Feb 9 · 3 min read
Foto retirada do Instagram “O Poeastro”

“Mas o que você quer ser quando crescer?” Perguntam os adultos insistentes que os cercam.

Ela queria ser bailarina. Ele, astronauta. Eu queria ser escritora.

Eles tinham esses sonhos durante a infância. Se alguém perguntasse atualmente, essas três respostas seriam totalmente diferentes, mas falaremos disso mais adiante.

Durante a infância ninguém pensa em ser advogado, engenheiro ou psiquiatra. As crianças são livres e incentivadas a serem o que quiserem, sem restrições. Talvez a pureza no coração delas fortaleça essa fantasia de que tudo é possível, de que seus pais são heróis, de que o mundo tem jeito ainda, é só se empenhar pelo bem. Talvez sejamos realmente aquela metáfora da tabula rasa que John Locke sempre falava: nascemos despidos de qualquer tipo de intolerância e adquirimos rasuras feitas com estilete durante as adversidades da vida que nos fazem agir de formas quase desumanas. Ou quem sabe Rousseau tenha razão: a sociedade nos corrompe pouco a pouco, e quando percebemos já estamos assim: no automático, completamente infelizes e presos à realidades que não gostamos.

O que você queria ser quando crescesse?

Durante a adolescência a luz da realidade começa a invadir o quarto pela fresta da cortina que esconde a janela. Há uma ruptura: aquela pessoa que anos antes sonhava em mudar o mundo agora é bombardeada pelas decisões que se apresentam à frente. Sabe que agora precisa se matar prestando vestibular, escolher uma profissão e claro, aguentar a enorme pressão social em seus ombros que se baseia no princípio de “você precisa ser alguém”.

E todo aquele papo de “felizes para sempre” que os filmes da sessão da tarde mostravam? E o incentivo que eu poderia ser o que bem entendesse?

Ela ainda quer ser bailarina, secretamente. Ele quer fugir de casa. Eu desisti das palavras.

A vida adulta entra sem bater. Quando você se dá conta já está lá, imerso num mar de responsabilidades. Estuda, trabalha, se dedica. De vez em quando se sente uma fraude, uma catástrofe por não saber ao certo o que está fazendo com a própria vida. Começa a considerar um manifesto mundial para que todos os pais assistam ao filme Capitão Fantástico, assim quem sabe eles aprendam a sempre dizer a verdade para os seus filhos: que a vida é cruel e a sociedade não perdoa.

Você não consegue se olhar nos olhos por sentir um breve vazio toda vez que pensa pensa naquele sonho antigo que deixou guardado no fundo da gaveta. Agora suas ambições são outras, afinal você cresceu, mas aquele sentimento continua lá. Aquele sentimento confidencial de que tudo pode dar certo e de que os seus sonhos ainda tem chance. Você se nega a dizer em voz alta então digita no celular: esperança. Ela está fazendo morada, mesmo contra a sua vontade. Você ainda quer mudar o mundo, não quer?

Durante as fases da vida nossos sonhos mudam afinal a gente se encontra e se perde infinitas vezes. Ontem eu era outra pessoa e você também, mas aquela criança ainda existe.

Então para onde vão os nossos sonhos quando crescemos? Eles continuam flutuando dentro de nós através da esperança.

Sempre serão tempos difíceis para os sonhadores e esse texto não está tentando romantizar que todo sonho vai se realizar magicamente se a gente correr atrás. Quem sabe num universo paralelo a banda toque desse jeito, não é?

Mas crescer não significa abdicar de tudo e aceitar o que “destino” nos traz. Crescer pode parecer o fim, mas é só o começo. Já que os “felizes para sempre” não existem o jeito é a gente ir se reinventando com as oportunidades que nos acolhem.

Ela agora é professora de balé em meio período. Ele trabalha como administrador na empresa dos avós e diz que é temporário quando os amigos mais próximos perguntam. Eu voltei à escrever.

Dos três, ele secretamente fica relembrando no quarto vazio aquela do Jota Quest, que diz:

“Sinceramente ainda acredito em um destino forte e implacável. E tudo que nós temos pra viver, é muito mais do que sonhamos.”


Informações adicionais:

“Não posso voltar para ontem.Ontem eu era outra pessoa.” — Alice no país das Maravilhas (Lewis Carroll);

“São tempos difíceis para os sonhadores.” — O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (filme).

do Jota Quest.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para…

Luana Santos

Written by

escrevo conselhos que não recebi | insta: @luaasc_

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

More From Medium

More on Sociedade from NEW ORDER

More on Sociedade from NEW ORDER

Eu sou poeta

Apr 2 · 2 min read

428

More on Sociedade from NEW ORDER

More on Sociedade from NEW ORDER

Ninguém merece um amor meio bosta

Apr 1 · 4 min read

939

More on Sociedade from NEW ORDER

More on Sociedade from NEW ORDER

Minha dor importa?

240

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade