Para quem é a música no metrô de SP?

E os problemas da curadoria, do ruído, da pluralidade e da idoneidade.

Foto por Hans Vivek. Fonte.

Mês passado foi implementado o sistema de ambientação sonora do metrô de São Paulo, na maior parte das linhas e também dentro de algumas estações. Tal sistema de ambientação sonora é composto de faixas dos seguintes estilos: chorinho, bossa-nova, jazz, samba “clássico” e música “clássica”.

Gostaria de argumentar, neste breve artigo, que a implementação do sistema de música no metrô é a encarnação de um mecanismo social de exclusão que, além de não servir ao bem público, sabota, inclusive, o princípio da pluralidade como dimensão fundamental da vida e do espaço públicos.

Creio que a implementação de uma tal política e a forma como foi implementada colocam em questão um conjunto de problemas, de ordem político-cultural, técnica, ética e moral. Vamos a eles!

A curadoria

A primeira questão que se coloca é: que música é essa? Quem ela representa e o que ela identifica? A pessoa a quem essa curadoria foi atribuída representa a identidade e o gosto das pessoas que vivem a cidade?

Falamos de estilos musicais que têm história, e que compõe determinado patrimônio, no caso consagrado por uma certa crítica musical. Tal vocabulário, além de possuir estatuto de patrimônio, expressa um repertório que encontra leito seguro dentro de uma certa arrogância de classe, essa crítica cultural da Cultura com C maiúsculo. A montagem dessa lista ocorre como se existisse um indicador atemporal e neutro da identidade cultural das pessoas (pô, a população mais cosmopolita do país!), como que definindo excelência e pertinência a partir de uma certa visão branca-e-de-classe-alta de consagração.

O ruído

A música no metrô funciona?

Eu diria que a música do metrô é o canto dos túneis, que se parecem com possantes côros polifônicos de harpias engolidas pela velocidade com que o trem vence o ar. Há também a melodia que é o ganha-pão dos ambulantes, e a romaria dos indigentes, salpicada dos staccatos que são os meninos prateados depositando filipetas nos joelhos dos usuários. Por fim, claro, há a ausência sonora dos silentes equipados com fones de ouvido.

Me admira até o caráter virtuosístico da maior parte dos músicos que surfam os trens, de, no meio de tudo isso, pleitear o protagonismo cansado das orelhas e, ó, são verdadeiros empreendedores auditivos. Não são valorizados, contudo, como patrimônio autóctone que são.

O que sobra é uma incômoda mistura de Bach com o bramido do trem que chega na plataforma, algo tão aborrecido que me leva a duvidar se o curador dessa lista alguma vez já pisou os pés em qualquer estação do Metropolitano.

E aquilo que justamente era pra desestressar ironicamente molesta os nervos do cosmopolita.

A pluralidade

Há uma tendência global na construção de certas modalidades de espaço de/para consumo, marcada por uma dupla vetorização; por um lado, hiperespecialização (mercado de nicho), por outro, a compreensão de que o consumo no lugar é também um consumo do lugar e da experiência de comprar/consumir. Você experimenta o sistema de ambientação sonora no Starbucks, no Pão de Açúcar, no shopping, no aeroporto, e em todos esses lugares a setlist é parecida com a do metrô. Há também os lugares onde as músicas que tocam são as que estão no topo dos êxitos da grande indústria cultural pop — certamente as academias.

Não só uma identidade quase metafísica define o som da cidade, como essa definição implica em um processo de homogeneização da experiência nos espaços do consumo. Como se existisse, volto a repetir, um indicador atemporal e neutro da experiência de uma vida metropolitana.

Uma curadoria arrogante define o que deve ser o som do paulistano; a proposta de música no metrô define, de maneira igualmente presunçosa, qual é o som da cidade. Ao fazer isso, tal política homogeneiza a experiência do espaço que deveria ser o espaço da pluralidade e sabota a presença de artistas locais, notadamente os músicos e musicistas que seguem/seguiam resistindo dentro dos vagões com sua arte num país em que o MUZAK é mais importante do que a dignidade profissional de um músico.

A implementação da música-“erudita” no metrô vota total desprezo, a uma só vez, à pluralidade como dimensão da convivência humana (já que homogeneiza), à dignidade profissional dos músicos (já que os alija de um campo laboral possível) e à produção artística local (já que nega o seu valor patrimonial).

A real música da cidade, defendo, é, em verdade, o ruído do metrô e todos os seus contribuintes.

A idoneidade

Como se não bastassem as questões supracitadas, há de se abrir um parêntese também sobre a forma como dita política foi implementada.

Embora a sociedade civil nunca tenha pedido essas músicas dentro do trem, elas estão aí. E custam muito caro; 39 mil reais por mês, praticamente meio milhão por ano, e isso porque 30% das canções têm direitos autorais que devem ser ob$ervados. A Organização Não Governamental que gerencia a lista do programa Metrô+Música (uau! um primor de originalidade esse nome), o ICULT (Instituto de Cultura e Cidadania), não tinha sede quando passou a ser questionada sobre os valores por jornalistas. Não soa como gratuito também o fato do superintendente de referida organização justamente ter sido nomeado conselheiro da Comissão de Avaliação da Execução dos Contratos de Gestão das Organizações Sociais da Área da Cultura do estado de São Paulo em 2017. (Reproduzo dados colhidos daqui, daqui, daqui e daqui.)

Uma política que afeta a experiência diária dos usuários da maior malha metroviária do país foi posta em marcha por uma panelinha. Falta de diálogo com milhares cidadãos; falta de transparência na forma como a política foi e segue sendo implementada e desenvolvida. Nada mais brasileiro que a música no metrô, portanto.


Foto por Florian Schneider. Fonte.

Temo muito, muito mesmo, que a contínua naturalização de certa apatia sobre assuntos supostamente laterais da nossa vida cotidiana só reflita e faça perpetuar mecanismos de controle. Uma elite tecnocrática trabalha pela comodificação e padronização da experiência de massas dantescas de pessoas, por um lado. No outro lado, o lado de cá, há tantos memes para compartilhar, tantas fake news para absorver, tantas facadas para cicatrizar, tanto suor por verter, que mal prestamos atenção como lentamente a dimensão da experiência se distancia paulatinamente da autonomia, essa virtude, essa invenção moderna que aplaudimos tanto, e que cada vez menos experimentamos.

Já escrevi por aqui como a música pode ser agenciada como um instrumento poderoso de exclusão e diferenciação entre as pessoas. Nada mais natural, no país em que queimam os museus, que justo aquela que tantos chamam a linguagem universal, capaz de unir as pessoas, seja operacionalizada contra o próprio povo.

O paradoxo de ter como patrimônio o completo desapego a um patrimônio qualquer que seja.