Isso é contra você e a favor de um modelo de sociedade sem memória!

_erinhoos
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Nov 7, 2017 · 6 min read
Frames da versão legendada de Anti Social — A Modern Dating Horror Story.

Hoje recebi no meu WhatsApp aquele vídeo chamado Anti Social — A Modern Dating Horror Story, que é uma esquete de humor que satiriza a mediação das relações entre pessoas por dispositivos móveis e remotos. Pra mim, essa piada na verdade abre espaço para a problematização de um tema que eu considero sério, endêmico, crônico e urgente: a relação entre a espetacularização da vida cotidiana e a banalização e aprimoramento de dispositivos de controle sobre as nossas vidas, e os efeitos que essa relação produz sobre a nossa capacidade de exercitar nossa autonomia e produzir memória.

Estamos cada vez mais familiarizados com os rituais repetitivos de tradução eletrônica dos nossos gestos mais banais. Essa tradução, contudo, está longe de ser produto natural do avanço tecnológico, e não pode ser encarada de maneira ingênua. Antes, ela representa a sobredeterminação de uma temporalidade anti-histórica sobre os modos tradicionais de produzir testemunhos relevantes das nossas biografias. Não precisamos ir longe para entender isso, basta olharmos para nós mesmos.

Comecemos por algo que pode ser considerado por muitos como insuspeito. As stories (uma invenção do Snapchat, adaptada recentemente para os dispositivos mais difundidos) são a morte da história. Ironicamente, não se tratam de histórias (ou estórias), mas sim fragmentos da vida soltos pela nuvem, que se desintegram (não ocupam espaço, mas cumprem a função do controle), e que explicitam a cada vez mais generalizada preocupação em produzir relatos voluntários da vida. Esta, a vida, passa a ser lida como uma sucessão de momentos que, não sendo guardados, atestam a obsolescência compulsória do que lançamos na rede. Importa cada vez menos o conteúdo, e cada vez mais o ritual social de compartilhar. No entanto, não é compartilhar como compartilhamos um pedaço de bolo ou momentos felizes, mas sim fazer prolongar o alcance de uma informação em um fluxo de dados.

Ademais, tomamos por hábito estilizar nossa vida cotidiana dentro dos parâmetros comuns indicados por dispositivos eletrônicos online, numa grande disrupção com os corpos que não admitimos, os fracassos que não queremos, os sentimentos que rejeitamos, as imperfeições que elidimos. As nossas políticas de auto-representação transitam entre os filtros combativos das fotos principais (Amar sem Temer, Homens contra o aborto, São Paulo Futebol Clube) e a eterna prestação de contas da vida pessoal (às vezes extremamente íntima) para todo mundo — ninguém precisa nos obrigar a falar nada, nós falamos sobre absolutamente tudo que nos concerne, entregamos cada passo nos check in, sem que nenhuma corporação nos pague, sem que nenhum órgão governamental nos coaja. E o mais louco é que nós achamos tudo isso incrível! Como nos diz Jonathan Crary em 24/7 — Capitalismo tardio e os fins do sono,

Mesmo na ausência de qualquer obrigação, escolhemos fazer o que nos mandam fazer; permitimos que nossos corpos sejam administrados, que nossas ideias, nosso entretenimento e todas as nossas necessidades imaginárias sejam impostos de fora. Compramos produtos que nos foram recomendados pelo monitoramento de nossas vidas eletrônicas, e voluntariamente oferecemos feedbacks a respeito do que compramos. Somos o sujeito obediente que se submete a todas as formas de invasão biométrica e de vigilância. E que ingere comida e água tóxicas. E vive, sem reclamar, na vizinhança de reatores nucleares. Um bom indicador dessa abdicação completa de responsabilidade pela própria vida são os títulos dos best-sellers que nos dizem, com uma fatalidade sombria, quais os mil filmes que devemos ver antes de morrer, os cem destinos turísticos que devemos visitar antes de morrer, os quinhentos livros que devemos ler antes de morrer.

Bom — e eu já li isso bastante por aqui — , tirando aqueles amigos que todos acham um porre porque lotam a timeline de dramas pequeno-burgueses fúteis, o retrato que construímos de nós mesmos é um recorte artificial, regulado e manipulado de momentos muito particulares das nossas vidas. Aqueles que acompanham minhas fotos em redes sociais têm a plena certeza de que a minha vida sempre se resume a momentos divertidos em que estou cercado de amigos, muito bem vestido, consumindo etílicos e having the time of my life.

Meu mosaico de momentos incríveis — feito de um mix de fotos postadas com fotos em que fui marcado. Claramente, na vitrine, estou sempre me divertindo. Sou muito facilmente identificado como gay de classe média, branco e morador de um centro urbano, consumidor ávido de álcool, em um namoro, habitué de festas, bares, karaokês e baladas, detentor de um estilo particular e membro de uma rede ampla de pessoas. Estou (supostamente) sempre feliz: as imagens não me deixam mentir.

Vivemos um paradoxo! Quanto mais lotamos a big data, sob a alegação de que precisamos registrar e guardar os grandes momentos das nossas vidas (em pixels e bytes), menos cultivamos a habilidade de efetivamente nos dedicarmos à experiência. São muitos momentos. São todos grandiosos. Mas uma boa curadoria não é um retrato total de um tema, mas sim aquela que sabe perfeitamente distinguir o que não serve.

Acumular quantidade gigantesca de dados estilizados não é pela memória, é contra ela! E o pior, nesse processo acabamos construindo um simulacro da memória estilizado, padronizado e espetacularizado — como podemos ver na colagem do Instagram acima. Mas o que mais interessa (para mim) na experiência é justamente seu caráter polivalente: os sentimentos evocados pelas memórias involuntárias, que são frequentemente múltiplos; a complexidade de afetos envolvidos na produção da catarse; a nossa capacidade de reavaliar o significado afetivo a partir do nosso quadro sentimental atual. As memórias, como as fotos impressas em papel, amarelam, decompõe-se, gastam, perdem-se, são rasgadas, são esquecidas, e isso é belo, muito mais belo e patrimonialmente útil do que os museus assépticos, obsessivos e imortais do Instagram (quando são públicos) ou do Google Fotos (a “reserva técnica” daquilo que nos recusamos a mostrar — e sim, fazemos gigantescos arquivos dos nossos sentimentos escondidos, em pastas criptografadas).

Agora vemos, como sugere a esquete que citei no início do texto, que a nossa existência social está cada vez mais condicionada à nossa existência virtual, que essa existência é uma colagem fraturada, seletiva e boa-para-o-consumo, e assim segue sendo e será até a morte. Até a morte mesmo! Se o Facebook é o atestado de veracidade da existência de alguém, nada mais natural do que a existência dos Memoriais, isto é, os murais onde as pessoas podem lembrar dos entes que faleceram deixando um rastro de curtidas e coraçõezinhos. “Quando uma pessoa falecer, transformaremos a conta dela em memorial se um familiar ou amigo nos enviar uma solicitação”. Vejo aí uma vantagem: a desmaterialização do corpo como fonte de luto. A contrapartida surrealista óbvia é a de que fomos vivos porque jazemos na rede. Rest In Web!

Mas o pior é a morbidez-em-vida dos atos mecânicos e irrefletidos.

Minha sugestão: tire menos fotos e sinta mais as coisas e os momentos. Encare de frente por que as coisas e os momentos te mobilizam. Filme menos os artistas que você ama e se entregue ao show. Quando abandonamos o sentido catártico da experiência artística para virarmos máquinas de captura de imagens? Ninguém está nos pagando para isso! Nós é que pagamos alto, alienando tempo e vida pulsante em prol desses dispositivos de controle, que raptam e uniformizam nossa experiência (ironicamente através do marketing personalizado) e a transformam em cifras. O espólio mais importante daquilo que vivemos não está no Instagram, está nos nossos corações e mentes.

Frame do vídeo da apresentação da cantora Anitta no Prêmio Multishow 2017. Como se trata de um ícone pop em um evento de largo alcance (isto é, uma mercadoria em alta na indústria cultural), o show foi filmado em alta definição e distribuído em seguida por plataformas de compartilhamento na web. Os espectadores, absolutamente cientes disso, no entanto, parecem não se importar. Capturam em uníssono, como se vê na imagem, aquilo que está a poucos metros do distância. O consumo do consumo do consumo...

Ainda em tempo: o termo sociedade de controle, largamente desenvolvido por sociólogos como Zygmunt Bauman, parece ser sido cunhado pelo filósofo Gilles Deleuze entre a década de 1980 e 1990 a partir do conceito de sociedade disciplinar, apresentado e desenvolvido pelo historiador das ideias Michel Foucault no início da década de 1970. O termo sociedade do espetáculo foi cunhado e desenvolvido largamente pelo filósofo situacionista Guy Debord na sua obra-prima, publicada em 1967.

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_antropólogo, barista informal, errante incorrigível, cantor de karaokê, sérião nas horas vagas

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