Pare, olhe, escute

É mais fácil a gente evoluir quando se reconhece

Durante muitos e muitos anos eu menosprezei os meus talentos, principalmente os com a escrita. Acho que isso começou lá na colégio, quando aqueles que sabiam Física e Matemática eram muito mais valorizados que aqueles que "só sabiam escrever", como essa que vos fala. Os outros tinham facilidade para as Exatas, mas eu, pobre de mim, sofria pra dividir com vírgula. E como tudo na vida escolar se resumia a saber um pouco de tudo, sobre tudo e a sobreviver com desenvoltura a esse samba que é a educação regular: ou você é, ou não é. E eu estava muito longe de ser dessas meninas prodígio que a genética abençoa com a tal da genialidade…


No íntimo, eu sempre soube que era boa com as palavras. Achava que elas eram a forma mais eficiente de expressar qualquer coisa que eu quisesse, fosse isso um desabafo ou uma cartinha para o crush. Quando eu achava que ia me atrapalhar nas ideias eu ia lá e escrevia, em catarse. Tudo ficava mais claro, mais fácil e, nesse ritmo, a escrita me ensinou um bocado. Depois de adulta as coisas seguiram mais ou menos pelo mesmo rumo e fiz disso um hábito: toda vez que a vida parecia uma merda — e já adianto, não foi pouco — eu organizava meus pensamentos e aliviava minhas agonias colocando tudo no papel, fosse bom, ruim, absurdo, fizesse sentido, ou não.

Mas mesmo depois de mais velha, de tornar minha aptidão com a escrita em profissão, apesar de fazer rir, pensar e comover e de ter sido oradora de todas as turmas do colégio (e também da minha segunda graduação), ainda achava que escrever era algo normal, natural e inerente aos seres humanos. Algo que qualquer um conseguiria fazer e, se quisesse, o faria com sucesso. E isso continuava diminuindo e diluindo essa minha habilidade, colocando a minha paixão em um lugar comum.

Um montão de vezes, duvidei das minhas capacidades. Acreditei que me ver como boa em algo, na verdade, era ruim. Acho que a sociedade reforça um pouco isso na gente, porque pessoas fortes e seguras de si mudam o mundo e tem um montão de gente por aí que está extremamente confortável com o modo que ele (o mundo, no caso) é. Pessoas seguras de si são capazes de insistir e, mesmo que falhem muitas e muitas vezes, encontram seu caminho, fazem diferença. E o diferente, já sabem, às vezes incomoda um bocado.

Ter consciência do que você é bom ou, talvez, ser médio em muitas coisas, já é um talento em si. Loucura mesmo é a arrogância de nunca admitir seus erros, de não querer aprender sempre mais e não o fato de reconhecer suas forças. Tem muita gente boa por aí, é verdade, mas quase ninguém sabe disso. Quase ninguém percebe também que as qualidades do outro não diminuem as suas, elas se agregam. Dizem que escrever, por exemplo, não é um dom ou um talento que se aperfeiçoa, que é primordial, essencial e pré requisito para qualquer cargo. Eu, francamente, até concordo com isso, mas acho que assim como existem especialistas em determinadas áreas da tecnologia, da engenharia, da química ou seja lá o que você considerar complexo, há também especialistas na escrita, que trata talvez de uma das coisas mais complexas de compreender que qualquer outra ciência: escrever é traduzir o outro. Para escrever, antes de mais nada, é preciso saber ouvir e confiar nos seus instintos, apesar das inseguranças, que, talvez, nunca deixem de existir. Precisamos confiar nessa vozinha que vive na mente da gente, que nos diz que aquilo que fazemos está certo. Para escrever, e também para a vida, é preciso ler e compreender acerca das coisas, ter sensibilidade para traduzir o impalpável. Muitas vezes é também entender a si próprio, encontrar um estilo, um caminho, se encontrar nesse processo.


Essa minha coisa, de desvalorizar aquilo que eu mais gostava de fazer, me levou por muitas direções diferentes — e isso foi maravilhoso. Mas há centenas de crianças, adolescentes e adultos por aí totalmente perdidos ainda, desacreditados de quem são. E eu acho que a felicidade é meio que isso: essa busca incessante por quem somos, sabendo que de hoje, para amanhã e depois, já não seremos mais.

Esse tal encontro com o nosso eu não se dá em algum momento específico, não é fruto do acaso. Ele é uma construção da nossa auto-estima e confiança, ele é o contrário da dúvida que mora na nossa cabeça e que faz com que a gente, num dia ruim, onde tudo deu muito errado, se pergunte: será que eu sou mesmo bom nisso? Será que eu fiz as escolhas certas, andei pelo melhor caminho, será que eu sou capaz de passar por mais essa?

E a resposta é sim. Você é.

Porque, como eu disse aqui no começo do texto, essa coisa de duvidar me fez tecer alternativas, esbarrar em outras áreas, conhecer pessoas, ir adiante. Eu canso de falar nos meus textos que a gente não tem a opção de voltar quase nenhuma decisão nessa vida, mas a gente pode tentar ser melhor, todos os dias. E na sucessão de causa e efeito das nossas escolhas, podemos construir novas possibilidades, mudar de rumo, a única coisa que a gente não pode é menosprezar o que de bom a gente tem. Se você ignora o seu talento ou ainda não descobriu a si mesmo, talvez esse talento seja ter um olhar de amor pela vida do outro e de crítica muito forte pela sua. É bastante comum.

Acho que, no meu caso, eu queria tanto explicar, entender e justificar minha “ausência de talento” vendo a grama verde que só crescia no vizinho. Que bom que contrariando as minhas previsões como jardineira, eu comecei a ver crescer as mudinhas que eu plantei na minha grama também. E se você passar a olhar as suas com cuidado, vai se achar o máximo e começar a cultivar de acordo com o solo fértil que sempre esteve aí, mas você ignorava, ocupada, tentando entender os métodos de cultivo do outro. Você esquecia que pra qualquer coisa crescer, a gente precisa regar.

A água é o alimento da vida. E a confiança, dos seres humanos em constante evolução. Tenha coragem. Jardins são muito bonitos, mas dão bastante trabalho. E levam tempo.