Pare. Sente-se. Respire

Observe-se. Por dez, quinze minutos. Todos os dias. De preferência no mesmo horário

(Foto: Reprodução/Breath of Life)

Hoje acredito que boa parte dos nossos transtornos, nossa ansiedade desmedida, angústias, fobias, são problemas de má respiração. Quer dizer, as origens dos nossos males psicológicos são diversas, complexas; mas a persistência neles, a dificuldade em poder vencê-los também é uma questão de não saber respirar. Respirar profunda e calmamente. Em silêncio. Como um hábito religioso.

Meditar está na moda e muitas pessoas já praticaram pelo menos uma das centenas de técnicas que se tem conhecimento. Alguns poucos, diria que a esmagadora minoria, porém, não seguem uma rotina constante. E eis o que deve ser dito antes de qualquer coisa: meditar é perseverar na prática. Independentemente de qual a técnica e que seja somente por alguns minutos por dia — portanto que seja todos os dias. Diria, na minha humilde opinião de quem pratica vipassana há um ano e nove meses, que a prática constante é a regra de ouro. A disciplina, o comprometimento, a regularidade é que trazem o êxito.

E curioso, mais que tudo, é pensar no pungente e gritante paradoxo que a meditação, intrinsecamente, impõe: nada mais fácil e acessível de se praticar; e, ao mesmo tempo, nada mais difícil.

Ninguém duvida que se sentar confortavelmente numa cadeira, por alguns minutos apenas, e tentar focar a mente em algum objeto real ou imaginário, é algo muito fácil de se fazer. Entretanto você se senta, fecha os olhos (ou não), começa a respirar e, ao final, quando percebe — se é que percebe — não foi capaz de controlar o fluxo de pensamentos nem por um minuto seguido sequer.

Afinal é essa a grande primeira lição que a prática meditativa lhe ensina: de que você, nem nas circunstâncias mais propositadas possíveis, é capaz de controlar sua mente. E de que você, consequentemente — e possivelmente — , não é, a princípio, esse fluxo de pensamentos do qual damos o nome de mente. (Esse tema, porém, é denso, complexo, e deve ser tratado em outra hora.)

A ciência, finalmente, deu o braço a torcer e agora não apenas considera, como também divulga largamente os incontáveis benefícios à saúde e incentiva a prática da meditação. Poderia compartilhar aqui muitos dados, matérias, artigos, entrevistas, indicação de livros etc. Vou apenas me contentar em reforçar um discurso já muito difundido nesse meio: de que há uma gama de estudos conclusivos que provam que a meditação é um excelente método de tratamento contra a depressão e outros transtornos mentais.


(Foto: Reprodução/Facebook)

Vivemos a era dos adoecimentos psíquicos. Quantos não nos agravam? Quem aqui não tem algum conhecido que sofre de algum transtorno mental? Não é preciso citar o nome de nenhuma doença. Sabemos quais são e sabemos de quais sofremos. Aliás, quem não é vítima de nenhuma delas, ou seja, quem tem plena saúde mental, nos dias de hoje, é um outsider, um esquisito, quase que um incompreensível. Gente sem perturbações é coisa antiga, dos tempos dos nossos avós.

Venho da cidade de São Paulo, sou um millennial e estou cercado de amigos depressivos. O mal do século pipoca aqui e ali entre a minha bolha de convívio.

E, diante dessa realidade angustiante, aparentemente sem horizonte, da qual todos nós, direta ou indiretamente, estamos afundados, o meu conselho, o meu humilde conselho é muito simples — porém difícil de ser seguido com regularidade. Pare. Sente-se. Feche os olhos. Comece a respirar calma e profundamente. Apenas observe (não aja, não lute contra, mas apenas observe) a maré de pensamentos. Observe também suas sensações. Por dez, quinze minutos. Todos os dias. De preferência no mesmo horário.

Os primeiros dias, talvez ainda as primeiras semanas, serão um martírio. Haverá irritação, falta de paciência; e pior: terá a sensação de que não está surtindo resultado algum. Mantenha a calma e insista. O segredo e o tesouro da brincadeira, repito, é a perseverança. Pois já que nada, nestes nossos tempos, foi feito para se aprofundar e durar; já que tudo, nestes nossos tempos, tem o efeito programado da absoluta superficialidade e, principalmente, da dispersão, seja você, ao menos, um foco de contraponto: seja resiliente, tenaz e, fundamentalmente, contemplativo.

Atualmente, sem vergonha de parecer um crente que venceu o mundo do vício ou um entusiasta da autoajuda que, no último capítulo, lança o discurso otimista e sedutor de que “tudo é possível”, posso dizer: a meditação, acompanhada de atividades físicas e outros longos exercícios de silêncio e contemplação (que também podem ser entendidos como práticas de meditação ativa), transformaram, consideravelmente, a maneira de me portar, de enxergar as coisas, de me relacionar com o mundo. Me abriu um espaço de silêncio e paz interior tão grandes que os sentimentos de tédio, aflição e angustia excessivas de outrora foram simplesmente soterrados.

(O tédio, aliás, não existe como imaginamos. Damos o nome de tédio aquilo que é pura e simplesmente dispersão. Quando concentrado em algo, por mais pífia que seja essa atividade— como a respiração, por exemplo — o sentimento de tédio se prova uma fabricação ilusória da própria mente frenética, insaciável.)

Também meus pensamentos se tornaram mais claros. Me ajudou na criatividade. E segue uma imensa lista de benefícios dos quais nem eu mesmo posso identificar um por um.

Para a meditação moderada e diária não existe contraindicação. Contra os males da alma, é preciso aprender a respirar em silêncio. Diariamente.


E por que não um teste? Comece, a partir do dia de amanhã (ou hoje mesmo), reservando cinco minutos do seu dia à meditação. Pratique por sete dias seguidos e depois escreva, ou ao menos reflita, sobre a experiência.