Partidos se preparam para 2018 sem as mudanças esperadas pela população

Cileide Alves
Jul 26, 2017 · 5 min read
Ciro Gomes (no fundo da foto) brinca com estudantes de economia em evento realizado em Goiânia | Reprodução
Haddad fala a estudantes de economia, no mesmo evento em Goiânia | Reprodução

Os protestos de massa de 2013, a crise de representatividade das autoridades, a desconfiança nos partidos políticos (segundo o Datafolha, 69% da população não confiam nas legendas), o impeachment da presidente Dilma Rousseff, as revelações e prisões da Lava Jato e as denúncias do empresário Joesley Batista contra o presidente Michel Temer não atualizaram o GPS de grande parte dos políticos brasileiros.

Com o mapa no modo 2014, não aparece no visor desse radar uma parada obrigatória para articular um amplo debate nacional em busca de saídas do atual atoleiro e de um projeto mínimo para o país. O único destino visível são as próximas eleições. Os partidos e seus líderes já apertaram o botão “iniciar” para chegar em 2018 e sem reforma política. Aliás, com uma reforma, mas feita sob medida para garantir a reeleição dos responsáveis pela crise política atual.

Há propostas interessantes na Comissão Especial de Reforma Política, na Câmara dos Deputados, como o fim das coligações proporcionais, para evitar eleição de deputados sem votos e de carona com políticos populares e bem votados; cláusula de barreira para reduzir a absurda pulverização partidária (há 28 partidos políticos com representação na Câmara dos Deputados, o que dificulta a governabilidade de qualquer presidente da República e, claro, de governadores e prefeitos); entre outras. Entretanto, o que interessa aos parlamentares são o distritão na disputa para deputado e novas regras para financiamento de campanhas.

A proposta do distritão é da época do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e defendida também pelo então vice-presidente Temer. Pelas regras de hoje, a eleição de deputados federais e estaduais é proporcional. Para se eleger, o candidato depende não apenas dos votos que recebe, mas também dos recebidos pelo partido ou coligação. Os assentos parlamentares são distribuídos conforme essa votação partidária.

Pelo distritão, seriam eleitos os candidatos mais votados para deputado no Estado, da mesma forma como se elegem governadores e senadores na eleição majoritária. O sistema é usado em poucos países, como Afeganistão e Jordânia e não é adotado em democracias consolidadas.

Já a proposta sobre a criação do Fundo Especial de Financiamento da Democracia (FED) será analisada em 3 de agosto pela comissão da reforma. Se aprovada, financiará com verba pública as campanhas eleitorais dos partidos já a partir do próximo ano. O fundo deverá ser da ordem de R$ 3,5 bilhões em 2018. Os deputados não discutem medidas para baratear o custo da campanha, como a proibição de contratação de cabos eleitorais.

Enquanto a Câmara cuida de aprovar regras amigáveis, os partidos preparam seus candidatos. O PSDB ainda não anunciou divórcio litigioso do governo do presidente Temer nem assumiu de vez esse casamento, porque ainda não se convenceu sobre qual alternativa será mais vantajosa para seu projeto de 2018.

Perdido entre partir ou ficar, o GPS do PSDB corre o risco de travar. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e seu pupilo, o prefeito João Dória, arriscam jogadas de marketing para se colocarem na disputa presidencial, mas nada ainda que indique uma rota segura. Os tucanos não se refizeram do baque das denúncias que atingiram seus membros na Lava Jato, em especial seu presidente, o senador Aécio Neves, e bate cabeça internamente.

Até o PT, partido mais envolvido na Lava Jato e, consequentemente, que mais prejuízos sofreu em sua imagem e na de seus líderes, tem um roteiro de viagem. Ameaçado de ficar inelegível nas próximas eleições, o ex-presidente Lula da Silva foi claro ao indicar o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como alternativa petista. “O Haddad pode ser uma personalidade importante se ele se dispuser a percorrer o Brasil. Já falei para o Haddad: ‘você tem que botar o pé na estrada, falar da educação, falar do que você fez na educação’”, disse em entrevista ao canal Ultrajano, no YouTube, quinta-feira (20).

Haddad segue à risca a orientação de seu líder. Ele está “discutindo o país”, em viagens a várias cidades brasileiras para fazer palestras, em especial nas universidades, como fez na terça-feira (18) no Encontro Nacional dos Estudantes de Economia (Eneco 2017), na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia.

Também reservou espaço em sua agenda para conceder entrevistas a veículos da imprensa goiana. O ex-prefeito de São Paulo se apresenta como um político não profissional, perfil que desponta em pesquisas com mais chances de sucesso na eleição de 2018, e discute a conjuntura política brasileira como um pré-candidato.

Rotina semelhante mantém o ex-ministro Ciro Gomes (PDT). Esteve em Goiânia duas vezes em uma semana. Na terça-feira (11) participou do congresso estadual da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), a quinta maior central sindical do País e comandada pelo ex-peemedebista Antônio Neto, de quem recebeu muitos elogios. Na segunda-feira (17) também fez palestras no Eneco 2017, na UFG.

Em Goiânia, Ciro afirmou que a candidatura de Lula será um “desserviço” ao Brasil. “O grupo dele acha que há um golpe e que ele é perseguido pela Justiça. O outro lado acha que a pena imposta foi pequena. Com isso, você não terá um debate sobre as condições de saúde, educação e violência que inferniza a sociedade brasileira. Será amor e ódio ao Lula”. Ciro defende uma aliança mais ampla, de centro-esquerda para enfrentar os adversários de centro-direita.

Marina Silva (Rede), muito criticada por se não se envolver nos debates do atual momento político, também dá seus passos. Ela mantém conversações políticas com figuras como os ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito e Joaquim Barbosa e com o PSB, partido pelo qual disputou a eleição de 2014. Espera atrair o chamado PSB independente, que não apoia o governo Temer.

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ), 62 anos, está em andanças pelo país há mais tempo que seus prováveis adversários e mantém forte exército de voluntários nas redes sociais. “Não faço isso [ser candidato] por obsessão. Entendo que o que acontece comigo é uma missão de Deus e ponto final”, disse em entrevista à imprensa recentemente. Na pesquisa Datafolha de junho, Bolsonaro tinha 16% das intenções de voto e Lula liderava com 30%.

Apesar de o cenário de 2018 ainda ser completamente desconhecido, partidos e candidatos apostam ser possível construírem seus projetos eleitorais, independentemente do desfecho da Lava Jato, do futuro do presidente Temer e, mais importante que tudo, da situação econômica do País. Faça sol ou faça chuva, a eleição tende a ocorrer como a de 2014, com a mesma fragmentação partidária, alianças negociadas a portas fechadas e com as mesmas figurinhas carimbadas da política brasileira.

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Cileide Alves

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Jornalista, especializada em política, e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás. Apresentadora na Rádio Sagres 730. cileide.alves@gmail.com

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