Já há professores que dizem “levante da sua cadeira e transforme”

Mudando na realidade por meio da escrita

Em nossa última conversa, convidei você a pensar comigo sobre uma das pontas do enorme iceberg que a escola de hoje é (ou no qual ela esbarrou trágica e previsivelmente): um modelo ultrapassado de ensino. Hoje, o caminho pelo qual passa uma prática pedagógica mais progressista, ou seja, mais consciente do protagonismo juvenil/estudantil, nos levará para fora da noção geral de escola como instituição ou entidade. Hoje, esse caminho nos levará a Floriano, 240km distante de Teresina, capital do Piauí.

Vem que eu explico no caminho!

Alunos do Colégio Técnico de Floriano (CTF) e o Prof. Dr. José Ribamar, em primeiro plano da selfie. Reprodução: Facebook

Ano passado, enquanto parte do Brasil se empenhava em fazer andar um projeto de escola supostamente sem partido, tive a chance de entrar em contato com um formato progressista de ensino de língua portuguesa, em todos os aspectos que “ensino de língua portuguesa” abriga.

A convite do Prof. Dr. José Ribamar Lopes Batista Júnior, coordenador do Laboratório Experimental de Ensino e Pesquisa em Leitura e Produção Textual do Colégio Técnico de Floriano (LPT/CTF), ministrei duas oficinas do gênero textual “resenha” em duas turmas do 1º ano do Ensino Médio.

Porta de entrada para as regiões sul e sudeste do Piauí, Floriano tem, entre seus destaques, a fama de polo educacional, atraindo jovens de vários municípios vizinhos. O Colégio Técnico de Floriano (CTF) é um dos pontos desse polo. Vinculado à Universidade Federal do Piauí (UFPI), o CTF conta com professores mestres e doutores em seu quadro docente e é uma instituição em que estudantes podem fazer cursos técnicos ou cursos técnicos integrados ao ensino médio. É aqui que entramos: no ensino médio do CTF.

O caminho entre a universidade e a sociedade, no campo das ciências humanas em geral, tende a ser maior (embora não devesse). Assim, discussões feitas em cursos de licenciatura sobre novos modelos de ensino e sobre como repensar a educação a partir do novo contexto sócio-histórico não sobrevivem muito tempo fora do espaço acadêmico. Esmagado pela pressão mercadológica das escolas particulares ou pela precariedade dos sistemas públicos de ensino, o professor entra na velha lógica “o que fazer para conseguir dar aula hoje”. No CTF, no entanto, esse caminho é mais curto.

Uma vez “vinculado” a uma universidade federal e tendo professores mestres e doutores em seu quadro docente, o CTF acaba sendo uma espécie de “laboratório” para novas ideias em educação. Os professores — que dão aulas na própria universidade e que revivem, a cada aula num curso de licenciatura ou pós-graduação, as mesmas discussões sobre escola — têm a chance de testarem novas propostas. Pesam menos, sobre o CTF, uma pressão mercadológica (ao menos em primeira instância) ou a precariedade (que existe, mas não se compara a de outras instituições).

Assim, minha passagem por Floriano me fez perceber a importância de ter pesquisadores pensando e agindo, também, no ensino básico, construindo pontes entre essa parte da educação e o ensino superior, indo até onde o Lattes nem sempre vai. Para além de comentários do tipo “que desperdício ter um doutor num colégio de ensino médio”, Ribas, como o Prof. Dr. José Ribamar é chamado por quase todos que o conhecem, promove um verdadeiro trabalho de multiletramento, dando a seus alunos contato real com gêneros textuais e práticas sociais. Essa prática pedagógica não só responde à pergunta “em que vou usar isso na minha vida?”, como mal deixa espaço para tal questionamento, uma vez que o processo de aprendizagem já se faz na própria “vida” da estudantada.

Em síntese, o aprimoramento acadêmico (especialização, mestrado, doutorado etc.) deve instrumentalizar o pesquisador para a prática horizontalizada e não servir de degraus para um isolamento verticalmente hierárquico.

Comecei a acompanhar o trabalho do Prof. Ribamar à frente do Laboratório de Produção Textual (LPT) pelas redes sociais — especialmente Facebook e Instagram — , quando o convidei a participar de um projeto de produção coletiva de conteúdo sobre Linguística. Se os projetos desenvolvidos dentro do LPT já encantavam a distância, vê-los de perto foi como sentir vontade de voltar para o ensino médio.

Reprodução: Facebook

Essa “vontade de voltar para o ensino médio”, inspirada pelo trabalho desenvolvido pelo Prof. Ribas, impregnou minha passagem por Floriano desde a primeira vez em que entrei na sala do LPT e me deparei com um espaço digno de uma Escola da Ponte.

Computadores e impressora conquistados em participações em editais públicos, como os do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), estantes com dezenas de livros, que vão de Jout Jout e Gregório Duvivier à Coleção Vagalume e a obra completa de Drummond; cartazes e mais cartazes afixados nas paredes, representando, cada um, ação ou projeto promovido pelo laboratório; o cantinho da “Radiotec”, a rádio on-line, que estava disponível no Soundcloud e já chegou ao Youtube (aliás, o primeiro vídeo é uma entrevista comigo); e muito mais detalhes que me exigiriam ainda mais espaço para mencionar. É como se o espaço físico refletisse toda a energia e toda a vanguarda do laboratório, sendo um espaço inter(trans)disciplinar de aprendizado que, certamente, é um dos destaques do CTF.

Nem sempre foi assim, no entanto. Entre o início do Laboratório de Produção Textual e a conquista de um espaço próprio para o projeto, o Prof. Ribamar relata que foi necessária ampla resistência, para convencer colegas e gestão da importância de um espaço como o LPT. Resistência, inclusive, que persiste. Durante um passeio pelas dependências do colégio, na sala dos professores (em que alunos não entram), notei que, num dos cartazes que anunciavam uma ação do laboratório, com fotos de palestrantes, a imagem de Ribas tivera sido rasgada. É sintomático.

Enquanto a força de vontade que impulsiona o projeto progressista incomoda uns, contagia outros, especialmente os estudantes com os quais tive contato e que participam diretamente do Laboratório de Produção Textual. Estudantes que têm, no laboratório, chances de engajamento em projetos não só acadêmicos, mas sociais, amparados, muitas vezes, com bolsas de iniciação científica para ensino médio. E, embora não esteja essencialmente conectado à nossa discussão sobre modelos de ensino, aqui entra outro aspecto relevante do LPT e projetos afins: a assistência estudantil.

Além da modalidade “bolsa de iniciação científica júnior”, própria para o Ensino Médio, a instituição ainda oferece “bolsa de extensão”, para estimular estudantes a se engajarem em atividades que vão além das acadêmicas/escolares, e “bolsas de auxílio”, destinadas a estudantes com comprovada situação de vulnerabilidade socioeconômica. Outra ponta desse cenário de assistência é o alojamento que o CTF oferece a alunos que não possuem residência em Floriano. Numa cidade distante da capital e de perfil essencialmente rural ou interiorano, sem pleno funcionamento de transporte coletivo e afins, essa é uma das medidas que mais evita a evasão.

No último dia 15 de maio, voltei a Floriano, para uma nova oficina de gêneros textuais. Tive a chance de aprofundar reflexões e esclarecimentos e vi, de perto, o impacto do corte de orçamento pelo qual estão passando universidades federais, especialmente em unidades distantes das capitais. É com esse gancho que me coloco à espera de vocês no campo de comentários e que sugiro que fiquemos um pouquinho mais no Piauí, até nosso próximo texto dessa série, em que pretendo apresentar um pouco mais dos projetos desenvolvidos no âmbito do LPT.

Gratidão e até!