Pessoas que (não) se questionam

As pessoas se dividem em dois grupos muito simples: aquelas que se questionam e aquelas que não se questionam. Na semana passada, aquele deputado cujo nome não mencionamos postou um vídeo cheio de informações erradas para alarmar seus eleitores. Comentei por aí que é evidente que ele não é mal-informado, mas sim mal-intencionado e desonesto, pois tem consciência de que seu eleitorado é alienado e não vai procurar conferir as informações que, quando refutadas com fontes pela Nova Escola, ainda assim foram defendidas a unhas e dentes por essas pessoas. São pessoas que não se questionam. Têm certeza de que sabem do que estão falando. Quando provadas erradas, se enraivecem: esperneiam, xingam, insistem em argumentos já sem sentido nem fundamento.

“Quando alguém te diz que você o magoou, você não tem como decidir que não magoou.”

O exemplo é político, mas isso também se dá na esfera pessoal. Sabe quando você fica magoado com algo que alguém te disse e a pessoa resolve bater boca com você, dizendo que é besteira se magoar por aquilo? Não se trata só de falta de empatia. São pessoas que não se questionam. Você diz que o comentário ou a atitude te magoou, a pessoa está certa de que aquilo não é digno de causar mágoa e problema seu, se vira aí com a sua dor. Pessoas que não se questionam não param pra fazer aquela autorreflexão: “Putz, será que eu vacilei? Será que eu poderia ter dito isso de outra forma? Será que eu sou uma pessoa horrível? Será que vou destruir minha amizade com esse ser humano por que eu não sei falar as coisas direito?” Sem a pausa pra essa reflexão, não há qualquer margem para aprendizado e mudança. Pessoas que não se questionam têm o privilégio de estarem sempre certas — e saberem disso — mesmo que não estejam. E azar de quem esbarra com elas pelo caminho.

Esse tipo de intransigência (porque isso é, em todos os níveis, simplesmente intransigência) dificulta qualquer tipo de interação. Afirmo com toda a certeza que a qualidade que mais valorizo em uma pessoa é abertura a diálogo e crítica. Pessoas que se questionam. É a diferença entre 1) saber que você está certo e 2) torcer para que você esteja certo, mas, se não estiver, tudo bem, o aprendizado é bem-vindo. Não falta só empatia, falta também humildade. Voltando para o exemplo do deputado, me espanta que, mesmo tendo todo o seu discurso refutado, as pessoas ainda o defendam cegamente. Se meu candidato mentisse descaradamente para garantir meu voto, eu ficaria extremamente decepcionada e procuraria outro para dedicar minhas inclinações políticas. Sabendo do mau caráter desse, eu iria atrás de outro que ao menos não tivesse mau caráter comprovado. Mas pessoas que não se questionam não dão o braço a torcer. Elas sabem que estão certas.

Falta empatia, mas sobra orgulho. Estar certo é mais importante do que qualquer coisa. É mais importante do que aprender, do que manter uma boa relação com familiares, do que agir em sociedade. Minha opinião é essa, ninguém sai, ninguém mexe.

É por causa desse orgulho e intransigência que é tão difícil discutir com as pessoas. São pessoas que não se questionam. Pessoas que se questionam param pra ouvir o que o outro tem a dizer, pensam sobre isso e, se não chegam a concordar com o outro, apreciam o ponto de vista diferenciado e mantém seu posicionamento com algum tipo de embasamento e justificativa. Discussões entre pessoas que se questionam têm resoluções e podem até ser agradáveis: debate de ideias, DRs que não são brigas. Discussões com pessoas que não se questionam são murro em ponto de faca.

As pessoas se dividem em dois grupos muito simples: aquelas que se questionam e aquelas que não se questionam. E é apenas com o primeiro grupo que vale a pena bater papo, trocar confidências, namorar, conviver, morar junto, ter como companhia pra almoçar, discutir política no Facebook e tudo mais nessa vida que exija um mínimo interação e dedicação do nosso tempo.


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