Cliff Walk At Pourville — Claude Monet

Planos para uma mãe que já se foi

alice
alice
Aug 22, 2018 · 3 min read

Ainda não tive filhos. Quero ter dois, parir mesmo. Na verdade, vou parir o primeiro e, dependendo do resultado, decidirei se vou querer o segundo; quem sabe uma adoção? Enquanto ainda não pari, sigo vivendo bem minha vida. Ainda não comecei minha preparação para ter filhos: não tenho homem, não tenho ginecologista e nem ao menos sei se sou fértil.

Sei que no caso da falta de homem, posso simplesmente começar uma produção independente, mas nesse caso ainda não tenho o dinheiro para comprar esperma de homens. Ou poderia apenas engravidar de algum e nunca lhe contar, uma das facilidades do homem é que eles nunca sabem que vão ter filhos até serem avisados, no caso das mulheres ignorar um filho é um pouco mais complicado.

Antes de ter meu primeiro filho, pretendo mudar meu nome, não acho ele apropriado para uma mãe. Quando a mãe era viva, me passou uma lista de nomes apropriados para o cargo de mãe e, seu pedido para mim, foi que não repetisse seu erro de deixar o pai escolher o nome de sua filha mulher, de acordo com ela meu pai havia escolhido um nome inapropriado, diferente de sua vontade. Homens são burros e inúteis, ela dizia. Atualmente, concordo.

Há um ano atrás comprei uma cadela para reconfortar o fato de eu ainda não ser mãe, daria-lhe o nome de Maria — um dos nomes da lista — se pudesse, mas meu cachorro veio com nome. Yoko Ono, peguei o chihuahua mais feio do canil para ganhar um melhor preço e esse era seu nome. Até hoje não sei o motivo de ter escolhido essa raça, sempre achei feia e antipática. Na verdade, não gosto muito de cachorros em geral, muito menos de um cachorro-rato.

Castrei a Yoko assim que pude, pois desde o início sabia que com este nome não poderia dar à luz. Acredito que seja mil vezes mais recompensante para uma cadela ter filhotes do que para um humano, seu instinto é voltado para a procriação, diferentemente dos humanos, que não procriam por extinto e sim para serem recompensados. Para uma cadela a recompensa é completar seus desejos extintivos e, um humano raramente completa seus desejos com filhos, pois os filhos normalmente não recompensam seus pais. Eu mesma me considero uma filha ingrata.

Minha mãe nunca foi uma boa mãe, nem para mim e nem para meus irmãos. Sempre que penso em parir, torço para que a má parentalidade não seja genética. Também não ligo mais a televisão para assistir o jornal, não quero desistir de ter filhos, e assistir a desgraça mundial me faz perder esse desejo. Enquanto evito as notícias, procuro um bom ginecologista, penso em meu novo nome de mãe e em meu possível doador de esperma. Talvez, com esse trabalho todo, eu até desista de ter filhos, minha Yoko pode ser responsabilidade suficiente e minha mãe já não está mais aqui para criticar minha decisão.

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qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (ou não)

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