Política de não humilhação na produção de conteúdo

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O estouro do “shade” na internet brasileira

Uma das coisas mais comuns na internet é o chamado “shade”, que nada mais é do que o ato de humilhar alguém. Sim, o termo correto é humilhar e não “tirar sarro”.

Grandes produtores de conteúdo como os sites “Não Salvo” e “Kibe Loco” se especializaram nesse tipo de conteúdo, em especial no começo dos anos 2010. No campo dos “blogs de moda”, a “Blogueira Shame” foi um nome expressivo na crítica das mulheres que optavam pelo tema e “Te Dou um Dado” e “Morri de Sunga Branca” realizavam o mesmo com celebridades e sub-celebridades.

Hoje alguns desses canais nem existem mais, outros optaram por mudar sua linha editorial e alguns insistem em explorar a figura do outro em busca da audiência.

Rimos por anos desse tipo de conteúdo até entendermos que ele nada mais é do que a reprodução de várias coisas ruins como machismo, classismo, LGBTfobia e por aí vai.

Não há hoje necessidade em revisitar o passado e jogar pedras em quem produziu e consumiu esse tipo de material, e citar esses sites é apenas uma forma da gente entender como chegamos até aqui, porém é preciso observar quem segue produzindo e divulgando esse tipo de material ofensivo.


Porque é humilhação e não “tiração de sarro”

Nos últimos tempos temos entendido que uma piada é mais do que uma piada e que algo dito em um site, blog ou até mesmo na sua rede social ganha uma amplitude gigantesca e é algo proporcional ao desconforto de quem está sendo zoado. Ou seja, quanto maior sua audiência, maior vai ser o problema que ele causa na vida de uma outra pessoa. E será que precisamos mesmo disso?

Quando você faz uma brincadeira com uma pessoa, é preciso que essa pessoa esteja de acordo. Se alguém não se sente bem com o seu peso você provavelmente não vai fazer piadas sobre ser gordo. Porém ao fazer uma piada na internet você esta falando com muito mais do que uma pessoa, e algumas delas podem se sentir ofendidas, então guarde essa piada para quem você sabe que vai entender.

Existem muitas formas de fazer humor com o cotidiano sem ser ofensivo e mais adiante vou listar algumas. Pode ter certeza que sua base de leitores vai entender seu novo posicionamento, caso você realmente tenha interesse.


O “humor negro” e o “humor politicamente incorreto”

Para começar temos que esclarecer uma coisa: não existe “humor negro”. Diversas expressões como “ovelha negra” ou “magia negra” associam a negritude a algo ruim, e no caso do “humor negro” o termo é usado para se referir a um humor que utiliza situações consideradas de mal gosto, preconceituosas ou mórbidas. Mas se é de mal gosto, preconceituoso e mórbido, porque fazer?

Para entender melhor a questão do “humor negro” recomendo a leitura do texto “Humor negro é o que combate o racismo”, das blogueiras negras.

A resposta é simples: porque tem quem gosta. A grande questão é que existem muitas coisas que as pessoas gostam e é ruim, e não é por isso que a gente deve incentivar e continuar produzindo.

Outra questão importante é pensar no tão falado “humor politicamente incorreto”. O que é político? O que é incorreto? Segundo o dicionário Houaiss, fora “quem faz política”, político pode ser também “que(m), revela polidez, diplomacia”, e incorreto é “inexato, errôneo, imperfeito e indelicado”. Seria então o “humor politicamente incorreto” aquele que não é polido, que não é diplomático. Em nenhum momento fala-se em ser ofensivo ou criminoso, como é o caso de alguns comediantes.

O “humor politicamente incorreto” é o humor crítico, é o humor ácido, que olha para situações completamente inadmissíveis como violência, corrupção, comportamentos negativos e a partir disso cria situações bem humoradas, que podem ou não gerar reflexão.


Como é possível fazer um humor ácido e crítico sem ser desrespeitoso?

Para começar pense: “se fosse comigo eu gostaria?”. Se a resposta for sim manda bala, porém é preciso entender que cada um tem um grau de tolerância, então busque sempre a opinião de outras pessoas, em especial as que pensam diferente de você.

Ao usar prints de internet ou imagens, tente ao máximo preservar a identidade dos autores. O ideal é não usar desses materiais sem a autorização. É aquela velha história do “o bom é rir com e não rir de”. Para ilustrar vamos usar um exemplo praticamente inofensivo: uma senhorinha manda uma mensagem completamente desconexa e engraçada para seu neto. Ao ver a mensagem o neto se diverte e posta no seu Twitter e a imagem viraliza. Essa é uma situação recorrente, e em geral as senhoras adoram a atenção. A grande questão é: e se ela ficasse chateada? E se ela se sentisse incapaz ou menor por estar todo mundo rindo dela?

Nesse sentido o ideal é que TODO conteúdo que envolva humor e uma pessoa que não seja você deve ser autorizado. É simples, é rápido e super possível.


Evitando o “shade” na produção de texto

Aqui a questão é mais simples ainda. Caso você queria fazer um conteúdo crítico e de conflito você pode optar por focar seu texto para questões menos pessoais. Por exemplo: caso eu queria falar sobre um colunista que desgosto, posso criticar seu pensamento, a forma rebuscada e classista como ele escreve, posso falar sobre o quão seu texto é raso, sobre seu pedantismo. Em nenhum momento eu preciso falar sobre sua aparência física, sua sexualidade ou seus hábitos.

Escrever sobre pessoas e situações envolve uma reflexão e um trabalho de entender seus próprios preconceitos. Se pergunte sempre “o que me incomoda nessa pessoa ou nessa coisa” se a resposta for algo estético, você não deve dividir com o mundo, porque provavelmente só estará sendo preconceituoso.


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Iran Giusti é formado em Relações Públicas pela FAAP, atuou como gestor de redes sociais e gerente de projetos em agências de RP e Social Mídia e como jornalista foi repórter do canal de conteúdo LGBT do Portal iG e do BuzzFeed Brasil. Atualmente se dedica a projetos de militância LGBT e produção de conteúdos em que acredita.