Ponte dos Espiões; ou ponte de virtudes.

[SPOILERS]

“O que é a coragem?” pergunta Sócrates ao leitor em qualquer esquina, enquanto coça a barba à altura do queixo com a ponta dos dedos. Assustado com aquele homem intrometido, o leitor, que já assistiu Ponte dos Espiões (Bridge of Spies em inglês), responde: olha Seu Sócrates, eu acabei de ver um homem muito corajoso na tela do cinema, o nome dele é James B. Donovan.

Sócrates, não satisfeito com a resposta, pois procurava saber a fundo o que era a Coragem, comprou um ingresso e foi conhecer o tal Donovan…

Ouvimos sempre uma ladainha mundana que nos diz mais ou menos o seguinte: você deve ser feliz fazendo o que gosta. A tradução do refrão é mais ou menos a seguinte: você deve apaixonar-se por si mesmo num gozo infinito e tudo em volta deve obedecer-lhe os desejos e, se assim não for e você se sentir infeliz por dois minutos, bata o pé, negue tudo e fuja para Paris. Ou para casa dos seus pais, o que for mais viável. O importante é sentir-se feliz.

Sócrates conhece bem essas sapateadas modernas, por isso acompanhou o Sr. Donovan com entusiasmo.

Os olhos do nosso filósofo brilharam quando apareceu na tela grande alguém que pautasse a vida por princípios claros e nobres. Tudo isso se reflete claramente na tensão dada no momento da aceitação, por parte de um contrariado Donovan, da missão de defender o espião russo: Coronel Rudolf Abel.

Sentados numa sala de reunião, em clima grave e urgente, seus sócios — que recebem alguém do governo — pedem, porém em tom de imposição, que ele defenda um espião russo, um “traidor” na linguagem da mídia e da sua própria mulher. Donovan, um simples advogado do ramo de seguros, sócio do escritório de advocacia, defenderá nos Estados Unidos da América, em plena Guerra Fria, um espião russo.

O filósofo remexeu-se na poltrona ao ver a cena em que Donovan diz a mulher e aos filhos que defenderá Abel por que “todo mundo merece uma defesa”. Que homem seria aquele que vivia de acordo com o que pensava?

Em outra cena, Sócrates, já fervoroso, comemora ao ver o advogado de seguros negar qualquer tipo passagem de informações, por debaixo dos panos, dadas por seu cliente russo em sigilo profissional, a um agente da CIA.

Rudolf Abel vivia há alguns anos nos Estados Unidos e estaria submetido, como qualquer outro cidadão, ao “book of rules” — na linguagem de Donovan. “É o que nos une”, diz o advogado descendente de irlandeses para o agente da CIA descendente de alemães, ambos cidadãos americanos. O que faz com que haja uma sociedade moral e livre é o respeito pelo “book of rules”.

Mas dizer que se respeita o livro de regras é diferente de respeitar realmente, com fundamento, isto é, respeitar algo por que é em si mesmo um bem. Aqui estão os primeiros aspectos deste personagem imenso. Um homem justo, temente a Deus, de família, de tradições, retratado com a simplicidade tosca mas benevolente de Tom Hanks.

Porém, o clamor e o clima de guerra são insuportáveis; o juiz do caso é inflexível: Donovan perde e Rudolf Abel é condenado à morte. O desfile então de virtudes poderia ser encerrado. Mas o bonzinho dá lugar ao persistente e ao corajoso. Em outra cena interessante, Abel diz que conheceu um homem com o mesmo olhar de Donovan, este homem apanhava mas sempre se levantava, tornando a apanhar novamente, como uma espécie de Rock Balboa que cai e levanta, num círculo vicioso tão insuportável que, cansando o oponente, este desiste de levá-lo ao chão novamente.

Há uma expressão de força contida no rosto de Tom Hanks, uma sensação de algo que precisa ser feito, atendido. E, ao mesmo tempo, uma decepção que levará Abel à morte. Poderíamos dizer que Donovan não é a favor da pena capital neste caso. Há cumplicidade nas feições do espião e do advogado; entretanto, é como uma participação na culpa, no esgotamento da guerra. Um sentimento que poderia ser o de uma trégua. Mas uma trégua em que se reconhecem as culpas e não o agitar simples da bandeirinha branca dos tolos.

Sócrates está suado, mesmo numa gelada sala de cinema. Chegamos ao clímax. Um bom advogado de seguros sabe que o improvável também acontece, como na propaganda, vai que…

Donovan, antes da proclamação da sentença de morte, explica ao juiz: num clima desses de Guerra Fria seria bom se tivéssemos, sabe como é, um trunfo nas mãos. Se eles pegarem um dos nossos, podemos negociar, pois temos um deles. E o juiz atende o último apelo, vendo certa lógica no pedido. Abel não irá morrer, Donovan jogou com suas cartas de seguros. Mas seguros existem por que há riscos.

É nesse contexto que entra o espião americano Gary Powers, designado para sobrevoar território inimigo tirando fotos a partir de um avião “invisível”. Tão invisível que, alvejado pelo inimigo, cai em território da União Soviética e, claro, tendo o piloto sobrevivido, este é preso e condenado. Eis então a oportunidade, a ocasião da troca de Abel por Powers.

O “muro da vergonha” está terminando de ser construído. As primeiras pessoas que tentam atravessar da Alemanha Oriental para a Ocidental estão sendo assassinadas. Há torres de vigia ao longo do muro, arames farpados, postos de checagem de documentos, é o totalitarismo na sua vertente mais sangrenta, o cume das doutrinas que querem tornar os homens todos iguais custe o que custar.

Quem melhor para negociar a troca dos prisioneiros do que Donovan? Governos e exércitos querem segredos de guerra, segredos importantes. Segredos que podem decidir a vida de milhões. Mas um homem precisa agir com dignidade. Precisa ser digno de sua raça. Trocar Abel por Powers preocupa, que fim levarão ambos? Um lado se apressa para obter os segredos do outro. Donovan se apressa para que todos fiquem vivos e ele possa chegar em casa para jantar.

Não há nenhum tipo de pregação pacifista barata. Há homens concretos como o leitor e Sócrates com seus dramas pessoais. E para tornar esse equilíbrio entre indivíduos e governos e exércitos mais sutil, surge a figura de Pryor, um estudante americano que é pego tentando atravessar o Muro de Berlim.

Para negociar os presos, Donovan mente para a mulher, diz que vai fazer uma viagem a trabalho mas está, ajudado pela CIA, indo para a Alemanhã Oriental. Ele sabe que pode não voltar, mas a sua preocupação é o medo que todos sentimos de muitas coisas, já o seu chamado é aquilo que o prende verdadeiramente, é aquilo ao qual ele não pode fugir. Persistência. O homem apanha e se levanta, até que se vê sozinho em pleno território alemão. Gelado.

Donovan tem três pessoas nas mãos. Negocia Pryor com a autoridade Alemã Oriental de forma contrária ao pedido da CIA, negocia o piloto Powers com a URSS e ainda quer que Rudolf Abel, trocado pelos dois americanos, não morra ao ser devolvido ao seu país. É o paradoxo de um homem grande, de alguém que se levantou sem esperar que seus problemas fossem resolvidos por outro.

Acostumado com as negociações de seguro, numa troca irônica com a primeira cena do filme, Donovan está do outro lado. Exige dois por um, pretendendo que se salvem os três. É com essa persistência e coragem, a fortaleza para aguentar firme o chamado, que o desfecho dá o prêmio. Tendo sido roubado, gripado e com o coração dividido em três, na gelada Alemanha Oriental, longe de casa, com todos os obstáculos possíveis mas uma meta inabalável, uma vocação que a qualquer outro faria molhar as calças, é que o simples advogado se despede de Abel, tendo Powers e Pryor já a salvo… ao ver o russo ser colocado na parte de trás do carro, o drama do homem se completa com o fato, com a verdade… Abel está condenado apesar de todos os esforços. O dever, porém, está cumprido.

O sono dos justos é a última e melhor cena do filme, a dose de humildade, a família vê na televisão que Donovan foi o responsável pelo retorno dos dois americanos. E o que o advogado faz? Dorme. É o descanso na vocação; a viagem, afinal, não foi a trabalho, mas foi para fazer o único Trabalho possível e necessário.

Ainda há homens sobre a Terra, poderíamos dizer. A todo este cabedal de virtudes e tradições respeitadas, Sócrates admira, levanta-se e vai tomar seu veneno pensando que estes homens, como Donovan, o tomariam sem hesitar.

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