Por que é tão difícil apontar racismo

Ilustração por Beatriz Leite

(Essa semana começou com muitas discussões sobre a polêmica da foto da família com a babá na manifestação de domingo. Muita gente não entendeu o problema da foto e falou muita besteira por aí. Não quero discutir especificamente essa situação, mas, partindo do que observei em debates sobre ela, gostaria de falar aqui sobre a dificuldade que é discutir racismo quando quem está sendo acusado disso simplesmente se recusa a ouvir e como isso só serve para reforçar o problema.)

Uma das coisas mais desgastantes das redes sociais é discutir com pessoas que não sabem do que estão falando. É claro que todo mundo tem direito de ter opinião, mas nossas opiniões são sempre efeitos das e constituídas por nossas vivências. Portanto, por mais que você tenha sim direito de ter uma opinião, sua opinião é, muitas vezes, mal informada, simplesmente porque você não tem conhecimento nem vivência do assunto sobre o qual está opinando. É preciso ter humildade, é preciso se questionar, é preciso aceitar críticas, é preciso se calar de vez em quando e reconhecer que nem sempre sua opinião acrescenta. É preciso dar voz a quem entende do assunto.

(A pessoa negra faz uma postagem no Facebook contando um caso e comentando o racismo que percebeu ali. Chove gente branca para dizer que não acha que foi racismo, não. Dá pra perceber o quão desrespeitoso isso é? Dá pra parar um momento e refletir sobre a possibilidade de você, pessoa branca, só não achar que foi racismo porque você não tem como saber muito bem o que é racismo, já que nunca passou por isso? Dá pra ler a tal da postagem e aproveitar para aprender um pouco?)

O Dr. Robin Diangelo, homem branco estadunidense que trabalha com conscientização de pessoas brancas sobre racismo, escreveu o meu artigo preferido de todos os tempos sobre por que é tão difícil apontar racismo a pessoas brancas e o quanto isso só serve pra reforçar o racismo que já existe. Para ele, o grande desafio é fazer as pessoas passarem de um entendimento do racismo como algo individual (isto é, só algumas pessoas são racistas e elas são pessoas ruins) para o entendimento do racismo como algo estrutural. Entender o racismo como estrutural é vê-lo como um sistema institucionalizado que privilegia, em todas as instâncias, pessoas brancas.

Segundo Diangelo, há duas crenças básicas que impedem as pessoas de entenderem o racismo como algo estrutural:

  1. a de que racistas são pessoas ruins e
  2. a de que o racismo é um desprezo consciente.

Quando se presume que racistas são ruins e que o racismo é sempre consciente, é fácil ficar ofendido com qualquer apontamento de racismo, pois esse apontamento significaria que a pessoa que disse ou fez algo racista é uma pessoa ruim que odeia negros. Pessoas que se veem como bem-intencionadas e livres de preconceito tendem a acreditar que jamais poderiam ser racistas.

“ Por isso é tão comum que pessoas brancas citem amigos e parentes como prova de que não são racistas. Entretanto, quando você entende racismo como um sistema de relações estruturadas dentro das quais somos socializados, você entende que intenções são irrelevantes.”

O padrão social é reforçar a superioridade branca e, desse modo, nós somos expostos diariamente a mensagens negativas sobre pessoas negras. Sendo assim, o racismo é muito mais comumente praticado de maneira inconsciente.

Enquanto propagar racismo de maneira inconsciente é apenas inevitável, pois todos fazemos parte do mesmo sistema que privilegia brancos, não ouvir críticas a esse racismo inconsciente, simplesmente porque não foi sua intenção, é uma escolha. E é uma escolha perigosíssima, pois te isenta de responsabilidade, logo te permitindo continuar propagando esse racismo — que agora pode até ser inconsciente, mas é culpado. Apatia e arrogância é o que impede muita gente de aprender algo que poderia ser muito simples e ajudar muita gente.

Ao longo de seus mais de 20 anos de trabalho como professor, mentor e líder de oficinas que ajudam pessoas brancas a reconhecerem seu próprio racismo e combatê-lo, o Dr. Diangelo observou o quanto as pessoas se sentem ofendidas quando alguém aponta que elas disseram ou fizeram algo racista. A primeira reação, conforme ele conta, é de ultraje (“Como você pode insinuar que eu diria/faria algo racista?!”). A sensação que ele tem — e é a mesma que eu tenho no Facebook e que acredito que toda pessoa negra que tenta apontar racismo tem também — é que simplesmente não existe uma maneira correta de apontar racismo. Isso porque há uma série de regras implícitas que vão invalidar nosso comentário e acaba nos forçando a ficar caladas, tamanho o desgaste que é tentar.

Segundo o Dr. Diangelo (e confirmado pelas nossas experiências), quando apontamos racismo, nosso comentário é invalidado diante de qualquer uma das situações a seguir:

  1. Tom inadequado. Se apontarmos racismo de maneira emotiva, exaltada ou qualquer coisa diferente de extrema calma, a conversa passa a ser sobre a sua exaltação (especialmente quando é uma mulher, levando ao estereótipo da negra barraqueira)e sobre como não tem necessidade de falarmos assim. Ou seja, a pessoa está sendo racista (conscientemente ou não), mas é nosso dever principal, acima de tudo, manter a calma. Do contrário, tudo que dissermos será invalidado.
  2. Falta de confiança. Nós precisamos, antes de qualquer coisa e mesmo que nem conheçamos a pessoa, confiar que ela não é racista antes de podermos apontar algo racista que ela disse ou fez. Se ouvimos ou testemunhamos algo racista e apontamos isso, a pessoa fica ofendida porque presumimos a partir daquilo que ela é racista. Como ela está ofendida, nosso comentário não é considerado.
  3. Relação com problemas. Se nossa relação com a pessoa que disse ou fez algo racista tiver quaisquer problemas ou tensões, nós não podemos apontar racismo, porque, é claro, só estamos dizendo isso porque nossa relação não é muito boa e nós não conseguimos reconhecer o quão gente boa essa pessoa de fato é e como ela jamais poderia ser racista.
  4. Comentar depois. Se não apontamos o racismo de imediato, nosso comentário é desconsiderado, porque nós deveríamos ter falado antes.
  5. Falar na frente dos outros. Se apontarmos o racismo da pessoa na frente de outras, estamos sendo extremamente indelicados e, por isso, nosso comentário será invalidado. Não faz diferença se os outros estavam presentes na situação em que o racismo ocorreu, o apontamento deve ser sempre feito em particular.
  6. Ser muito direto. Quando apontamos racismo de maneira muito direta, somos considerados insensíveis e, de repente, nós é que temos que pedir desculpas por não termos fraseado corretamente que existe uma hipótese de que você talvez estivesse sem perceber assim na nossa percepção mas sei lá posso estar errada que que você acha desculpa falar isso assim sendo racista.
  7. Causar desconforto. Apontar racismo faz com que as pessoas se sintam desconfortáveis e a única maneira de ela se sentir confortável conosco novamente é nunca mais apontarmos o racismo delas.
  8. Outras opressões. Quando apontamos o privilégio racial de uma pessoa, é muito comum que ela puxe o assunto para outras formas de opressão que ela sofre que não são a racial (de classe, gênero, sexualidade etc.). Nesses casos, o assunto frequentemente muda o foco, que deixa de ser o racismo da (a opressão cometida pela) pessoa e passa a ser de que formas ela também é oprimida, talvez muito mais oprimida do que nós.
  9. Desconsiderar as boas intenções. As pessoas costumam achar que, se elas têm boas intenções, devemos ignorar por completo o impacto do que elas dizem e fazem. Não temos espaço para argumentar que, a despeito das boas intenções, o que se fala e o que se faz tem efeitos materiais que reforçam e propagam racismo. Se a pessoa acredita que estava bem-intencionada, ela não nos permite o direito de apontar o racismo dela, logo, nosso apontamento é invalidado.
  10. Não deixar a pessoa se explicar. Se explicamos para alguém que ela disse ou fez algo com impacto racista, isso significa, na verdade, que entendemos mal o que ela quis dizer ou fez. Aí, temos, então, que deixá-la se explicar até nós reconhecermos que tudo não passou de um mal-entendido da nossa parte, afinal, ela jamais poderia dizer/fazer algo racista.

É claro que há muitas pessoas brancas que sabem ouvir e que não reagem das maneiras citadas acima, mas, segundo a experiência do Dr. Diangelo — e acredito que qualquer feminista negra irá concordar — , essas reações são a norma, não a exceção. Não tem como vencer — e, quando digo “vencer”, não digo vencer a discussão, mas simplesmente atingir o objetivo de COMUNICAR O FATO.

Temos também que frequentemente lutar contra o estereótipo de que apontar racismo é vitimismo, coitadismo, mimimi e procurar cabelo em ovo. É a ideia de que pessoas negras ficam o tempo inteiro alertas tentando reparar em qualquer incidente para ter a chance de gritar na cara de alguém que ela é racista. Mas, acreditem, não precisa. Quem é negro, é negro todo dia e, ao contrário dos brancos, vivencia o racismo todo dia. Para alguém que vive isso todo dia, é muito fácil perceber situações de racismo, não precisa procurar. Elas são extremamente comuns. Só que brancos não percebem. (E volto aqui ao início desse texto.)

As dez situações elencadas pelo Dr. Diangelo e citadas acima são diretamente responsáveis pela manutenção do privilégio branco, que é tanto, que as pessoas não podem nem ser criticadas. As reações a qualquer apontamento de racismo são tão aprisionadoras que acabam nos forçando a abandonar uma discussão ou simplesmente nem começá-la. O silenciamento é padrão.

Dr. Diangelo afirma que “[r]acismo é a norma, não uma aberração” e que “apontar racismo é essencial para a nossa habilidade de conhecer e corrigir nosso inevitável e frequentemente inconsciente apoio”.

Em reconhecimento disso, ele defende que pessoas brancas devem seguir essa cartilha ao terem seu racismo apontado:

“1. Como, onde e quando você aponta o meu racismo é irrelevante — é o comentário que eu quero e preciso. Compreendendo que é algo difícil de se fazer, eu vou aceitar seu comentário da maneira que ele vier. Daqui da minha posição de privilégio e poder branco social, cultural e institucional, eu estou perfeitamente seguro e posso dar conta. Se eu não conseguir dar conta, é problema meu.

2. Obrigado.”

Esse posicionamento se trata apenas de humildade em reconhecer que, como pessoa branca, que vive sua vida todos os dias sendo branca, você necessariamente tem pontos cegos no que diz respeito a racismo e que, de maneira inconsciente, acaba sendo racista de vez em quando também. Ainda seguindo as linhas do artigo do Dr. Diangelo, isso se trata também de reconhecer que, mesmo que você não tenha criado esse sistema em que vivemos, ele é um sistema que te beneficia em detrimento de outros. Pessoas brancas devem se esforçar para chegar a esse entendimento por conta própria (afinal, está comprovado que é extremamente difícil e desgastante ser didática sobre racismo), mas também devem ter consciência de que nem sempre vão conseguir sozinhas e, se querem mesmo mudar e melhorar, têm que ouvir o apontamento do coleguinha, que não tem obrigação nenhuma de passar pelo desgaste que isso é e por isso merece sua gratidão por se dar o trabalho.

Ao fim do artigo, o Dr. Diangelo conta que costuma, em suas oficinas, perguntar às pessoas negras da plateia quantas vezes elas apontaram racismo e tiveram receptividade. O consenso geral é dizer que quase nunca. Ele pergunta, então, como seria se, quando eles apontassem racismo a pessoas brancas, elas fossem receptivas, aceitassem a crítica e usassem aquilo para refletir sobre o que lhes foi dito. Um senhor respondeu que seria REVOLUCIONÁRIO. Algo tão simples e ao alcance de qualquer um tem potencial revolucionário. Pensemos nisso.

Para finalizar, vamos retomar os pontos principais e fazer um resumão:

  1. Racismo não se manifesta apenas como atos individuais de crueldade; é um sistema.
  2. Sendo um sistema, é extremamente comum que o racismo se manifeste de maneira inconsciente.
  3. Só se consegue combater racismo quando se pode identificar e discutir casos de racismo.
  4. Se todo mundo ficar sempre na defensiva, não tem como apontar racismo para então combatê-lo.
  5. Quando não tem como apontar, não tem como combater.
  6. O seu racismo pode ser inconsciente, mas escolher não ouvir críticas a ele é ser conivente com a prática e mantê-la. Pare de ficar ofendido e responsabilize-se.
  7. O ego de alguns precisa deixar de ser mais importante do que a vida de muitos outros.
  8. Aprenda a ouvir, mesmo quando não concordar. Não cabe a você concordar ou não.
  9. Reflitamos.


Alguns comentários adicionais:

  • Originalmente, eu pretendia traduzir na íntegra o artigo que usei como base para este texto, e divulgá-lo em português. Enquanto traduzia, percebi que havia uma série de comentários que eu gostaria de adicionar e, por isso, decidi escrever meu próprio texto, fazendo referência, citando e parafraseando o artigo original, que recomendo muitíssimo para quem lê em inglês. Embora ele se refira aos Estados Unidos, considero-o totalmente pertinente à realidade brasileira também.
  • O artigo que usei como base para este texto foi escrito por um homem branco. Cabe aqui ressaltar que é muito comum que discursos como o do artigo sejam ouvidos apenas quando são apresentados por pessoas como ele e, se a exata mesma coisa for dita por uma pessoa negra, ela é descreditada — o que também é racismo e costuma passar despercebido.
  • Há várias camadas de privilégio branco e racismo. Pessoas negras de pele clara, como eu, sofrem muito menos preconceito do que pessoas negras de pele mais escura. Sobre essa questão, escrevi o artigo A cor dos outros na Capitolina. O artigo também está disponível no nosso livro, publicado em agosto de 2015 pela Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras.
  • Eu também não estou isenta de ser racista. Agradeço a todas as pessoas que já tiveram a paciência de discutir essas questões comigo e que seguem firmes na militância.

Ilustrações por Beatriz Leite. Contato: beatriz.hmleite@gmail.com.


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