Arte de André Arantes.

Por que a era Temer será diferente da era Itamar

“A Nação pode estar certa de que não haverá corruptos neste governo. O momento ético foi traçado pela CPI, mas ele não serve a nós, outros, porque a nossa vida e a vida daqueles que estarão comigo é uma vida limpa, discursou Itamar Franco em sua discreta posse no cargo de presidente da República em 2 de outubro de 1992, em solenidade pequena realizada no gabinete da Presidência da República, no Palácio do Planalto. (Folha, 3/10/92)

Itamar substituía o presidente Fernando Collor de Mello, afastado pela Câmara dos Deputados em 29 de setembro, ao aprovar o processo de impeachment por 441 votos a favor, 38 contra, uma abstenção e 23 ausências.

Ao tomar posse, possivelmente depois do dia 10 de maio, com o Senado confirmando o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, aprovado na Câmara dos Deputados, em 17 de abril, por 367 votos favoráveis, 137 contrários, uma abstenção e apenas duas ausências, Temer não poderá fazer o mesmo discurso de Itamar.

A maioria de seus aliados é alvo de algum tipo de investigação de corrupção. Ele próprio já foi citado em delações premiadas da Operação Lava Jato. Os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos na linha de sucessão de Temer na presidência, são alvo de 18 pedidos de investigação.

Apesar de o discurso de posse de Itamar estabelecer uma diferença clara entre 1992 e 2016, há outros fatos relevantes nesses períodos que impedem comparação entre o papel dos dois vice-presidentes.

O vice-presidente topetudo

Egresso do MDB, PMDB e PL, Itamar Augusto Cautiero Franco filiou-se em 1988 ao PRN, criado por Fernando Collor de Mello. Com ele tomou posse em 15 de março de 1990, aos 60 anos de idade, depois da primeira eleição direta para presidente da República, ocorrida em 1989. Seus atritos com seu colega de chapa começaram bem antes infortúnio do presidente e de seu ex-tesoureiro de campanha Paulo César Farias, o PC Farias.

Itamar divergiu de Color em importantes aspectos da política econômico-financeira adotada pelo novo governo. Criticou publicamente o processo de privatizações e a aplicação dos fundos resultantes da venda das companhias estatais, que para ele, deveriam ser usados na área social. Em 9 abril de 1992 o presidente comandou uma reforma ministerial e isolou Itamar. Contrariado com a mudança e a ascensão de ex-ministros da era militar, como Célio Borja, Pratini de Moraes e Ângelo Calmon de Sá, Itamar desfilou-se do PRN em 5 de maio de 1992.

A primeira denúncia contra Collor de Mello ocorreu 22 dias depois da desfiliação de Itamar. Em 27 de maio de 1992, o irmão Pedro Collor de Mello concedeu a rumorosa entrevista à revista Veja que detonou a investigação e a abertura do processo de impeachment contra o presidente. Na época, o Brasil via uma gravíssima crise econômica, infinitamente superior à atual. A inflação chegou a 1.100% em 1992, e alcançou 2.708,55% no ano seguinte (a maior da história do Brasil). Neste contexto de profunda crise econômica e com um escândalo que chocou o país, Itamar não precisou articular o impeachment do presidente.

Capa da histórica da entrevista de Pedro Collor, em 27/5/92

O clima no país depois de sua posse foi de “união nacional” por parte de todos os segmentos políticos, partidários, empresarial e até mesmo da sociedade civil. O PT foi o único que não participou do governo, mas se reuniu com o novo presidente para lhe entregar suas propostas. (Um parêntese: Itamar prometeu ao então deputado José Dirceu que faria três importantes reformas: previdenciária, tributária e política. A promessa não foi cumprida.) Como o país recém-saído dos governos militares, os políticos eram os atores naturais para recuperar o Brasil e tinha credibilidade para isso.

Itamar tomou posse com um ministério com três nomes do PSDB: Fernando Henrique Cardoso, no Ministério das Relações Exteriores, os deputados Jutahy Magalhães Júnior, na Ação Social, e Paulinho Cícero, nas Minas e Energia. O Ministério da Fazenda foi uma surpresa à época, o deputado Gustavo Krause (PFL-PE). (Folha, 2/10/92 e 3/10/92)

No mais, a equipe era composta por vários mineiros, o que levou a mídia a denominar o governo de República do Pão de Queijo. Aliás, um preconceito, pois a mídia nunca qualificou governos de maioria paulista, como costuma ser bem comum. Itamar trocou de ministros da economia várias vezes, até que Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda e criou o Plano Real.

O vice-presidente das sombras

Diferentemente de Itamar Franco, o rompimento do vice-presidente, Michel Temer, com Dilma Rousseff não ocorreu em meio a fatos políticos concretos. Mestre na ação de bastidor, Temer construiu a separação lentamente. A relação deles parecia amistosa e ambos trocaram afagos um ano antes das discórdias.

“Temer sempre me acompanhou, com solidariedade, força, carinho e lealdade”, disse Dilma numa convenção do PT em Brasília, em 21 de junho de 2014. O vice respondeu, no mesmo dia: “Todos falam que a nossa coligação dará um largo tempo de televisão à campanha, mas todo tempo será pouco para dizer tudo que a presidenta Dilma fez por esse país”. O clima entre eles piorou depois que também pioraram as condições políticas de Dilma Rousseff.

Em 2 de dezembro, Cunha acatou o pedido de impeachment contra a presidente. Apenas cinco dias depois, “vazou”, segundo a assessoria de Temer, o teor da carta que ele enviou à presidente. Temer fez várias reclamações contra Dilma, entre elas de que foi apenas um “vice decorativo” e que ela sempre teve desconfiança em relação a ele e ao PMDB.

O passo seguinte ocorreu em 12 de março, quando o PMDB decidiu proibir filiados de participar do governo de Dilma. O rompimento formal entre o PMDB e o governo foi em 29 de março, por aclamação e sem a presença de Temer. A grande final do lento rompimento foi em 11 de abril, quando novamente “sem querer” Temer divulgou áudio em que fala à Nação e aos deputados como se impeachment já tivesse sido aprovado.

Os acordos no meio do caminho

A participação de Temer no processo de impeachment da titular de sua chapa foi, portanto, bem ativo. Para o sucesso da votação, Temer teve apoio de várias forças políticas. Começou pelo PSDB, que esteve por trás da elaboração da peça apresentada pelos juristas Janaína Paschoal, Miguel Realle, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, e Hélio Bicudo, ex-fundador do PT.

Em seu depoimento no Senado, em 28 de abril, Janaína confirmou ter recebido R$ 45 mil do PSDB, em maio do ano passado, pelo parecer a favor do impeachment, que acabou sendo apresentado na Câmara dos Deputados pelos três em setembro.

Eduardo Cunha foi outra peça chave. Ele não apenas acatou o pedido, como acelerou o processo de votação na Câmara. Por fim, Temer negociou os votos do chamado “novo centrão”, o PP, PR, PSD e PRB, partidos que eram da base da Dilma, para votaram a favor do impeachment.

“Ao contrário de Itamar Franco, Temer arrancou o impeachment de um Congresso que lhe ofereceu resistências. Por isso, terá menos liberdade de formar governo que o outro precedente histórico. Ao PSDB não restará alternativa senão referendar, na agenda peemedebista, pautas negadas ao governo Dilma. A coabitação fará desta uma tarefa mais difícil”, avaliou a jornalista Maria Cristina Fernandes em sua coluna no jornal Valor Econômico.

Temer depende cada vez mais de Eduardo Cunha. E isso não é de hoje. Em vídeo, sem data, o vice-presidente faz um discurso na igreja evangélica do presidente da Câmara e revela o nível de cumplicidade entre eles: “Eu tenho do Eduardo Cunha um auxílio extraordinário na Câmara Federal. Se você quiser dar uma tarefa das mais complicadas para o deputado Eduardo Cunha, ele simplifica porque trabalha muito”, declara Temer. “A fé mobiliza as pessoas. As tarefas difíceis eu entrego à fé do deputado Eduardo Cunha”, acrescentou.

Cunha cuidou das “tarefas difíceis” e agora o PMDB trabalha para salvá-lo da cassação no Conselho de Ética, com as bênçãos do vice. As pressões por cargos também fizeram Michel Temer desistir de reduzir os ministérios de 36 para 20 ou 22, como queria anteriormente. Sua conta já está em 26 e ainda não fechou. Além disso, as bases com as quais constrói sua governabilidade são exatamente as mesmas dos governos anteriores, inclusive de sua colega de chapa.

Temer também se aproxima dos evangélicos e chegou a gravar um vídeo para o polêmico Marcos Feliciano (PSC-SP). “Nós todos, eu e o pastor Marcos Feliciano, queremos fazer uma religação dos brasileiros. E, para tanto, é preciso muita oração. É preciso que estejamos empenhados nessa tarefa”, diz Temer. Por fim, os partidos de esquerda vão fazer campanha acirrada contra o governo, impedindo que Temer tenha tempos de calmaria política, como ocorreu com Itamar Franco.

Dilma cai, o vice assume, mas o sistema político corrupto e degradado que gerou as crises que derrubaram Collor, há 24 anos, e Dilma agora sobrevive. Em artigo no Valor Econômico na sexta-feira (29/4), o cientista político Fernando Abrúcio afirmou: “A forma como tem ocorrido a batalha pelo mandato presidencial e as diversas dúvidas acerca do dia seguinte revelam claramente uma coisa: que se não forem realizadas mudanças institucionais e socioculturais, o país será ingovernável não apenas para Dilma, Temer ou alguém eleito por uma nova eleição, mas também para os governantes a partir de 2018.”

Os incautos acreditam que a mera posse de Temer mudará o Brasil. Claro que alguma mudança ocorrerá. O fim da disputa política que paralisa o país há mais de um ano vai destravar a economia. Já os experts neste jogo político vão aproveitar a fé dos incautos para impedir reformas profundas, pois só assim o poder continuará nas mãos dos atuais líderes políticos que só sobrevivem sugando o Brasil.

Resta dúvida de que Temer não repetirá o governo de conciliação de Itamar Franco?

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