Por que nós, pessoas brancas, devemos ouvir Bia Ferreira

Foto: Amanda Cardoso

Toda dia é dia de uma nova decepção quando o assunto é: acontecimentos da política brasileira em 2019. Nessa semana não foi diferente, podemos dizer, inclusive, que superou as expectativas de notícias ruins. Além do absurdo e catastrófico corte de verbas da educação pública, tivemos mais uma declaração lamentável, irresponsável e desonesta do atual presidente do país, Jair Bolsonaro.

Em entrevista à apresentadora Luciana Gimenez, Bolsonaro afirmou que “O racismo é uma coisa rara no Brasil”. Seria cômico se não fosse trágico. Um país que se construiu sobre a exploração de índios e negros, sendo um dos últimos a abolir a escravatura e tendo em sua atualidade todo o tipo de desigualdade e violência baseadas em racismo, presenciou seu chefe de estado — homem branco — reduzir em sua fala — direcionada a uma mulher branca — um problema social e institucional que não os atinge.

Situações como essa causam revolta e indignação, mas também nos trazem para a reflexão sobre o papel que nós, brancos, temos diante do problema. Falar de uma opressão que não vivemos como se tivéssemos conhecimento de causa é desonestidade e oportunismo. Mas há quem use o “este não é meu lugar de fala” para fazer vista grossa e se isentar de uma responsabilidade que é coletiva, sobre uma violência criada e perpetuada por pessoas brancas. Outra forma de oportunismo.

Não, não cabe a nós tomarmos protagonismo de opressões que não enfrentamos, mas cabe nos posicionarmos contra elas, cabe refletirmos nossos privilégios e as possibilidades de usarmos deles na luta antirracismo. Podemos começar escutando. Uma escuta atenta, empática e interessada, visando encarar nossas próprias manifestações racistas, introjetadas por uma cultura de negação. É fácil afirmarmos que racismo é coisa rara quando somos brancos e quando pessoas negras — que têm muito o que nos dizer e reivindicar — são silenciadas ou ignoradas.

Precisamos ouvir Bia Ferreira. Assim como precisamos ouvir e ler outras pessoas negras. E usarmos de cada meio, espaço e privilégio que nossa condição de branquitude nos dá para que as vozes delas ecoem. Por que nós, pessoas brancas, devemos ouvir Bia Ferreira? A resposta tá no play!