Por que o capitalismo não contrata apenas as mulheres?

A resposta está (provavelmente) dentro da sua casa e não nos números do mercado.

Apesar de haver um consenso sobre as desvantagens que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho, com diversas explicações para o fenômeno, alguns acreditam que isso só pode ser justo. Segundo eles, o capitalismo é uma máquina de eficiência. Logo, se as mulheres trabalhassem o mesmo tanto que os homens mas recebendo salários menores, os “capitalistas”, sempre ávidos pelo lucro, contratariam apenas as mulheres.

Surpreendentemente, apesar de parecer um argumento machista, esse raciocínio está certo em uma coisa: as mulheres são mesmo a força de trabalho favorita do capitalismo. Se não, vejamos.

O que dizem os números?

1. As mulheres ganham menos que os homens? Sim. As mulheres ganham 22,5% a menos que os homens, em média.

2. Mas isso não tem a ver com o nível de instrução das mulheres? Não. No Brasil, desde a década de 80 o nível de escolaridade das mulheres é mais elevado que o dos homens e, mesmo assim, elas continuam ganhando, em média, menos do que os homens. A média da remuneração das mulheres é menor que a dos homens em todos os níveis de instrução (Gráfico 1).

Gráfico 1: Rendimento médio segundo sexo e escolaridade. Brasil, 3T2016. Fonte: IBGE. PNAD Contínua

3. Mas, e se considerarmos não a remuneração média, mas a remuneração por hora? Realmente, se considerarmos o salário/hora as diferenças podem cair. Segundo estudo do Dieese, em 2016, na Região Metropolitana de São Paulo, o rendimento médio por hora trabalhada das mulheres era 11,9% menor do que o rendimento-hora médio dos homens. Mas isso é resultado das características dos postos de trabalho ocupados pelas mulheres. Tem muito mais mulheres do que homens em trabalhos com jornadas curtas e, por isso, os seus respectivos rendimentos são também menores.

Enquanto cerca de 980 mil homens têm jornadas inferiores a 15 horas semanais, as mulheres nessa situação são quase 2 milhões. Nem sempre elas estão nessa situação por opção própria. Quase metade delas (42%) declararam que gostariam de trabalhar mais horas.

Em geral, enquanto a maioria dos empregos com carteira exigem jornadas entre 30 e 44 horas semanais, as ocupações com jornada reduzida são as informais e desprotegidas — por exemplo, as diaristas. E, uma em cada dez mulheres ocupadas são trabalhadoras domésticas sem carteira.

Esse é apenas um aspecto de outro fato importante: as trabalhadoras estão mais concentradas nas ocupações que oferecem as remunerações mais baixas. Além disso, não importa a posição na ocupação, as mulheres desfrutam, em média, de menores remunerações (Gráfico 2).

Gráfico 2: Rendimento médio segundo sexo e posição na ocupação. Brasil, 3T2016. Fonte: IBGE. PNAD Contínua

Não por acaso, as ocupações tipicamente femininas desfrutam também de menor prestígio. Uma exceção surpreendente é a proporção de mulheres nas carreiras de pesquisa científica no Brasil, muito próxima de 50% — proporção superior à da Europa, EUA e Japão. Porém, a exceção confirma a regra, já que no Brasil grande parte do trabalho em pesquisa científica é pago por meio de bolsas de estudo temporárias e, na maioria das vezes, abaixo do valor dos salários praticados no mercado de trabalho formal para pessoas com a mesma qualificação dos pesquisadores.

4. Mas, se as mulheres realmente ganham menos, porque os “capitalistas” não contratam apenas mulheres? Na verdade, embora o capitalismo não contrate apenas mulheres, ele conseguiu criar um sistema que contrata, virtualmente, todas as mulheres pelo mais baixo salário possível: elas trabalham de graça.

Deve-se admitir que o desemprego entre as mulheres é maior do que entre os homens. Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, a taxa de desemprego medida pelo Dieese era de 16% para os homens e 18% para as mulheres, em janeiro de 2017. Mas isso só ocorre porque as estatísticas de desemprego não levam em conta o trabalho doméstico não remunerado.

Conhecido na literatura acadêmica como “trabalho reprodutivo”, os afazeres domésticos e cuidados com crianças e idosos recai pesadamente sobre os ombros das mulheres. Entre a população economicamente ativa, 9 em cada 10 mulheres realizam afazeres domésticos, enquanto apenas metade dos homens ajudam nessas tarefas. Entre as mulheres desocupadas, apenas 5% declararam não realizar afazeres domésticos. Entre os desocupados homens essa taxa é de quase 40% (Gráfico 3).

Gráfico 3: Proporção de pessoas que realizam afazeres domésticos por sexo e condição de atividade. Brasil, 3T2016. Fonte: IBGE. PNAD Contínua

O trabalho reprodutivo é importante tanto para o bom funcionamento dos domicílios como para a própria existência do mercado de trabalho. O trabalho das mulheres em casa permite que os outros membros da família trabalhem em ocupações remuneradas.

Não é coincidência que a entrada das mulheres no mercado de trabalho veio acompanhado de um aumento da quantidade de empregadas domésticas. Alguém tinha que manter a casa em ordem. Se antes essa tarefa cabia a uma dona de casa não remunerada, agora cabe às mulheres na posição ocupacional com a pior média de remuneração: as empregadas domésticas.

Infelizmente, a maior inserção das mulheres no mundo do trabalho não foi acompanhada por um aumento proporcional no oferecimento de serviços públicos de cuidados a crianças (creches) e assistência aos idosos, nem na equalização dos períodos de licença maternidade e paternidade. Na prática, a maioria das mulheres realiza uma jornada dupla, trabalhando fora e também dentro de casa - nas tarefas domésticas e nos cuidados com os filhos e com os idosos da família.

Embora o capitalismo não contrate apenas mulheres, não é isso o que realmente importa. O fato é que criou-se um sistema que logrou reduzir os custos com mão de obra ao mínimo possível ao empregar TODAS as mulheres disponíveis — seja no mercado de trabalho, pagando menos do que para os homens, seja no trabalho doméstico, não pagando absolutamente nada.


O maior erro do argumento de que o capitalismo deveria contratar apenas mulheres, talvez seja achar que os “capitalistas” buscam apenas o lucro, incondicionalmente. Achar que o capitalismo é uma máquina cega de lucros seria subestimar os próprios capitalistas. E Donald Trump está aí para mostrar o que acontece quando os capitalistas são subestimados.

Além disso, a desigualdade e a exploração não são novidades introduzidas pelo capitalismo. A economia sempre se apoiou em um conjunto muito maior de valores do que a busca cega pela riqueza em si - valores que vão desde a busca pelo poder político (como no caso de Trump) até a manutenção do status quo. Hoje, as estratégias das empresas não são focadas exclusivamente no lucro. Se assim fosse, como explicar as “doações sem contrapartida” das empresas à prefeitura de São Paulo, em plena crise?

Talvez, a naturalização do trabalho não remunerado feminino (ou sua invisibilidade) em um mundo livre seja a grande sacada do capitalismo para a história das mulheres.

Em resumo:

(1) As mulheres estão mais concentradas em ocupações que oferecem as menores remunerações
(2) Mesmo quando ocupam as melhores posições na ocupação e tem maior escolaridade, elas ganham, em média, menos do que os homens
(3) Embora o capitalismo não empregue apenas mulheres ele emprega virtualmente todas as mulheres — seja no mercado de trabalho, seja nos afazeres domésticos não remunerados, o que está em linha com o argumento de que o capitalismo emprega preferencialmente as mulheres.


E, por último, cabe lembrar que as reclamações sobre o suposto excesso de direitos das mulheres é tão antigo quanto os próprios direitos, conforme atestam os versos abaixo escritos na década de 1930 (!) pelo ilustre sambista Noel Rosa. E, vale lembrar, na música as mulheres também estão em desvantagem.

Todo cargo masculino
Desde o grande ao pequenino
Hoje em dia é pra mulher
E por causa dos palhaços
Ela esquece que tem braços
Nem cozinhar ela quer
(…)
Os direitos são iguais 
Mas até nos tribunais 
A mulher faz o que quer 
Cada qual que cave o seu 
Pois o homem já nasceu 
Dando a costela à mulher
(Você vai se quiser, Noel Rosa, 1936)

Obs.: salvo indicação, todos os dados foram extraídos da Pnad Contínua, do IBGE, referente ao 3º trimestre de 2016.