Por que os economistas mentem?
Quando um debate de sala de aula ajuda a refletir o trabalho dos economistas
Não faz muito tempo que uma estudante de um curso de ciências sociais me fez esta pergunta: “por que os economistas mentem?”. A pergunta foi realizada dentro de um contexto especifico, antes do impeachment de Dilma Rousseff. Na época, debatia-se às necessidades de corte nos programas estudantis como Prouni e FIES. Me lembro muito bem que a estudante argumentava, de maneira assertiva, que os gastos com os juros da dívida pública eram estratosféricos (o maior gasto do governo), mas mesmo assim os economistas preferiam pautar reformas em cortes de benefícios sociais.
O argumento dos economistas era simples, para não dizer ingênuo: com o governo gastando menos com programas “desnecessários”, no curto prazo, o mesmo poderia focar-se em uma reestruturação das suas contas para o país sair da recessão econômica. Quero deixar claro aqui que o meu objetivo, neste texto, não é entrar no mérito se tal estratégia para que o país consiga sair da recessão é certa ou errada. Mas, fazer uma breve análise do discurso.
Ora, primeiramente é preciso dizer que muitos economistas acreditam que o mercado é formado por expectativas. Estas expectativas, em teoria, é o que faz (ou não) a economia girar. Quando os agentes econômicos possuem expectativas positivas com relação ao futuro, estes realizam maiores investimentos e, consequentemente, trazendo benefícios para a economia como um todo. Entretanto, quando os agentes possuem expectativas negativas o investimento não é realizado, resultando em uma queda na atividade econômica. É utilizando este pressuposto como base que os economistas que se encontram em posições de relevância e que compõem uma equipe econômica — seja no Ministério da Fazenda ou no Banco Central — realizam às políticas econômicas de um país.
Como estes economistas consideram fortemente a teoria das expectativas, os mesmos se encontram em uma posição extremamente delicada. Pense comigo: se você fosse um Ministro da Fazenda, você iria querer que os investimentos fossem realizados, correto? Entretanto, você sabe que o cenário econômico não é o melhor possível, mas mesmo sabendo disso, se você revelar esta informação, ao assumir que o cenário não é o melhor, as expectativas tendem a ficar negativas. E, com isso, os investimentos não serão realizados. Dessa forma, estes economistas passam a se tornar um guardião do otimismo.
Um bom exemplo é a expectativa de crescimento para o ano futuro. Frequentemente o economista que é o Ministro da Fazenda divulga uma expectativa de crescimento acima do que realmente deve ocorrer. Ao longo do ano esta expectativa vai diminuindo e adaptando-se ao cenário vigente
Outro exemplo, muito atual, é sobre as reformas. Enquanto o governo afirma para a população que as reformas não afetarão as suas vidas (tentando amenizar qualquer efeito de expectativa negativa) o mesmo governo sinaliza para os empresários que as reformas serão feitas e que isso lhes proporcionará melhores custos. Aqui, claramente o governo tenta passar uma mensagem positiva para ambos os lados.
Obviamente que é preciso considerar que os economistas que se encontram fora do governo também omitem muitas coisas. Entretanto, a meu ver, estes o fazem por pura falta de coragem.
Trabalhar com economia, apesar do que muitos devem compreender, é complicado. A economia envolve tudo aquilo que nos rodeia. Mais afundo, no sistema econômico capitalista, a sua posição, suas posses, definem quem é você perante toda uma sociedade. Portanto, é de se esperar que os economistas fiquem pisando em ovos quando vão à público, jamais mostrando os pontos negativos de alguma política econômica. Omite-se que para reduzir a inflação de maneira bruta é necessário aumentar nível de desemprego, que para melhorar a produtividade do trabalho basta reduzir os custos dos empregadores (piorando as condições de trabalho) e, principalmente, afirmam que o crescimento econômico deve ser perseguido a qualquer custo, sendo este o que beneficiará toda população no longo prazo.
Assim como eu afirmei que os economistas presentes no governo são guardiões do otimismo, os economistas no mundo dos negócios (o famoso mercado) tornam-se advogados dos grandes empresários, defendendo com todas as armas que possuem os interesses daqueles que os empregam. Pressionam os governos a adotarem melhores políticas econômicas voltadas para o mercado. Tal pressão ocorre tanto por meio de singelos relatórios quanto em expressivas aparições realizadas na mídia.
Toda essa discussão ocorre já que a economia não é uma ciência exata. Sendo assim, muitos economistas utilizam-se dessa lacuna para defender os seus próprios interesses, nem que para isso seja preciso dissuadir a população como um todo.
A essa altura você deve me perguntar: qual é a solução? Bem, talvez a solução seja capacitar melhor a população. Retirar o véu da ignorância. Educação é sempre o melhor, correto? Entretanto, será que essa capacitação vai realmente abranger tudo o que é necessário? Qual será o lado da moeda que será apresentado para as pessoas? Somente o lado dos empresários ou somente o lado do trabalhador? Qual será o discurso? Quem serão os economistas que dirão o que é a coisa certa?
Fica à reflexão.


