Por que os Millenials não viram “adultos”?

A maioridade chega e passa, mas os jovens da Geração do Milênio encontram cada vez mais dificuldades na hora de conquistar seu lugar ao sol

Photo by Kris in Pexels

Começo deixando claro que análises geracionais são sempre enviesadas. Aqueles que escrevem sobre comportamento sempre buscam identificar fatos e padrões na vida social para oferecer uma explicação para aquilo observado.

A primeira parte é mais fácil, pois temos à nossa disposição uma grande gama de informações e levantamentos sobre diversos aspectos da sociedade. Explicar os dados obtidos, contudo, é algo que fazemos a partir de nossas experiências e conhecimentos. Essa subjetividade permeia os estudos sociais e comportamentais. Nesse sentido, o grau de empatia de quem está fazendo a análise com os diferentes públicos abordados é primordial para mitigar os efeitos dessa parcialidade.

Quem acompanha meus textos sabe que sou da chamada Geração do Milênio, mas aqueles que me conhecem mais a fundo são categóricos em dizer que estou bem fora da normalidade quando comparado com os demais millenials. Dizem isso, pois me casei com 22 anos (a Patty tinha 21). Na época, já estávamos juntos desde meus 15 anos. Nos três anos seguintes, tivemos nossos dois filhos. Em 2014, mudamos de estado e aqui estamos até hoje, longe de nossas famílias, ambos com menos de 30 anos. Reconheço que foi uma proeza para a realidade atual e que poucos millenials têm histórias parecidas.

Apesar disso, já sofri (e ainda sofro) com os males que afligem nossa geração Y, além de acompanhar a caminhada de amigos e amigas. Eu já sofri com exigências irreais para conseguir vagas de estágio/trainee. Por duas vezes, já fui rejeitado na fase final desses processos por questões pessoais. Na primeira, quando comentei que eu estava noivo. Na segunda, quando comentei que minha filha nasceria em alguns meses. As respostas foram pela linha de “estamos procurando alguém que possa assumir mais responsabilidades na empresa e achamos que, diante do que você colocou, esse não é o seu caso”. E quem disse que adiantou argumentar que minha família me motivaria a dar uma dedicação ainda maior no cargo?

Feita essa longa introdução (de teor um tanto quanto pessoal, diga-se de passagem), gostaria de levantar alguns pontos para explicar o por que os millenials não viram ‘adultos’ ”?

Logo de cara, já digo que eles viram sim, mas não da forma na qual as gerações anteriores esperam deles. A pergunta correta seria “por que os millenials estão demorando tanto para sair da casa de seus pais, para comprarem seus apartamentos, para terem filhos e serem independentes?”.

Aqui, já li algumas análises que dizem que os millenials são uma geração menos apegada a bens materiais, que valorizam viagens e experiências muito mais do que comprar um carro ou uma casa. Eu discordo.

É um fato de que as taxas de fecundidade (número de filhos por mulher) e de natalidade (número de nascimentos por mil habitantes por ano) estão despencando desde 1950 (Fonte: IBGE). O mesmo relatório aponta uma diminuição nas taxas de mortalidade e de mortalidade infantil, além de um aumento na expectativa de vida.

Ou seja, mais crianças que estão nascendo estão vivendo. De forma geral, as pessoas estão morrendo mais tarde.

Só seria possível manter as taxas de fecundidade e natalidade altas se a sociedade continuasse crescendo como um todo. Porém, não é isso que observamos. Automação, digitalização, terceirização de produção para outros países, entre outros fatores, contribuem para diminuir ou estagnar o crescimento dos níveis de produção de um país.

Agora, quando o nível de produção não cresce na mesma proporção que a sociedade, pois quando os indivíduos vivem mais, eles também trabalham mais, reduzindo a oferta de emprego, a primeira consequência é um desemprego, ainda que disfarçado.

Os prazos para um indivíduo sair da zona não produtiva e entrar na zona de produção vão se alongando para acomodar essa nova realidade.

Nossos avós começaram a trabalhar aos 14/15 anos. Nossos pais, aos 17/18, em alguns casos, ou aos 20/23 para aqueles que fizeram faculdades. Diante da realidade observada acima, seria natural que grande parte da massa de millenials entrasse no mercado de trabalho aos 23/26 anos.

Seria natural, e estamos observando isso em certa escala, mas ninguém está sabendo como lidar com isso. Alguns jovens acabam fazendo duas faculdades, MBAs, especializações, intercâmbios, uma infinidade de pós-graduações, e vão postergando até finalmente conseguirem uma vaga, pois depois de todo esse preparo, eles estão mais capacitados do que aqueles que acabaram de sair da faculdade.

Outros, no entanto, não possuem condições de prorrogar seu ingresso no mercado de trabalho, e se submetem a salários ínfimos na esperança de galgar postos dentro da empresa (tolinhos… mas afinal, não é isso que as empresas vendem por aí?). Na realidade, esses millenials ficam na empresa tempo o bastante para conseguirem emplacar uma vaga um pouco melhor em outra empresa, pois agora eles já tem um pouco de “experiência”, então são preferidos pelos recrutadores no lugar daqueles cuja tinta do diploma ainda está secando. Eles fazem isso algumas vezes (porém dificilmente chegam a um salário condizente com suas atribuições/competências), e, por isso, são vistos por aí como “infiéis”, pois “no meu tempo, começávamos a trabalhar em uma empresa separando correspondências e íamos subindo a partir daí, sempre vestindo a camisa da empresa”.

Nos dois casos, o millenial demora até os 30 anos para começar a ter condições de pensar em assumir compromissos financeiros como manter uma casa, ter filhos ou casar.

Vamos parar por um momento e lembrar de como os millenials cresceram.

Eles fazem parte da geração que sempre ouviu “siga os seus sonhos, o céu é o limite, só depende de você!”. A geração que aprendeu inglês e espanhol na escola, pois é a geração que vai viver em “um mundo sem barreiras”. Uma geração que não está acostumada a esperar pois a informação está disponível sempre (alguns chamam isso de imediatistas ou impacientes, eu não).

Diziam que o futuro era da Geração do Milênio, e os millenials estão fazendo aquilo que nunca fizeram e aquilo para o qual ninguém nunca os prepararam: continuam esperando.

Então, a pergunta é, dos 20 aos 30 anos, o que faz um millenial que ainda mora com seus pais, pois apenas o aluguel de um imóvel no bairro onde cresceu é maior do que seu salário?

O que faz alguém que sempre quis ter filhos, mas que tem consciência de que a escola onde estudou tem uma mensalidade maior do que seu salário (considerando que se ambos os pais trabalham, a escola deverá ser em período integral, ou haverá gastos com babá)?

O que faz alguém que cresceu pronto para conquistar o mundo mas sequer consegue sua independência?

Esopo conta a fábula de uma raposa que tenta várias vezes pegar um cacho de uvas, mas, por estar muito alto, desiste dizendo “Eu nem queria mesmo, essas uvas estão verdes.” A história termina com uma moral de que É fácil desprezar aquilo que não se pode obter”.

Vejo a situação dos millenials como a da raposa.

“Ter uma casa própria”, “casar”, “ter filhos”, enquanto essas metas forem consideradas inatingíveis pelos millenials, eles irão depreciá-las para amenizar o peso de seu insucesso aos padrões que lhes foi imposto.

Concluo, portanto, que os millenials:

a) devido à própria realidade socioenomômica atual, precisam postergar seu ingresso no mercado de trabalho já saturado ou se submeter a salários insuficientes para alcançar os padrões de independência impostos pela geração anterior;

b) mesmo assim, se esforçam para contribuir com a sociedade, sempre se aperfeiçoando e buscando seu lugar no mundo;

c) na ausência de perspectivas reais de independência, muitos decidem explorar o mundo, acumulando experiências que caibam em seu orçamento ao invés de ‘morrer’ trabalhando para conseguir uma pseudo-independência, saindo da casa dos pais e se afundando em dívidas;

d) ainda assim, continuarão escutando comentários do tipo:

“Meu Deus, 25 anos e ainda morando com os pais, essa geração está perdida.”

“Mais um curso?! Vai estudar até os quarenta anos?!”

“Como assim quer casar, vocês não tem dinheiro para nada!”

“Vocês só sabem sair, viajar e curtir a vida, com a sua idade eu já era casada(o) com 3 filhos e já estava investindo no futuro financiando essa casa onde você mora até hoje…”

“Lembra do Fulano? Colocaram no lugar dele um MO-LE-QUE, que mal saiu das fraldas…”

E você Millenial já ouviu alguma pérola dessas?

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Marcelo L. Perrucci

Written by

Auditor Federal, casado, pai de 2 filhos.

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