Por que precisamos parar de falar em “fake news

Cada vez mais vazia de sentido, expressão preguiçosamente traduzida como “notícia falsa” é pobre demais para descrever o fenômeno de desinformação que estamos vivendo

A semana passada começou com uma notificação judicial na redação da revista Crusoé. Extensiva ao site O Antagonista, uma decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes mandava retirar do ar a reportagem “O amigo do amigo de meu pai” por se tratar, segundo o ministro, de “um típico caso de fake news”. O The Intercept publicou a reportagem censurada em protesto à decisão judicial.

Curioso que o ministro deixe registrado em documento jurídico o que considera ser um “caso típico de fake news” quando não há consenso nem entre os mais altos estudiosos do tema em nível internacional sobre o que é fake news. Aliás, há um consenso mínimo: essa expressão é vaga demais para descrever o distúrbio da informação contemporâneo.

Um ano atrás eu escrevi uma série sobre “fake news aqui neste mesmo canal. Mas até a Claire Wardle, uma das mais prestigiadas estudiosas do tema, também já tinha escrito uma tipologia das fake news e depois rechaçou o termo. Quanto mais ela se aprofunda no assunto, mais evidente lhe parece que a expressão não serve.

Num ambiente já poluído com desinformação, é vão insistir em dar sentido a um termo que passou a ser usado como subterfúgio para políticos se defenderem de acusações que preferem ocultar — “se é contra mim, é fake news”. No lugar de fake news, defende Wardle, precisamos falar de desinformação.

A noção de desinformação abarca uma questão maior do que o conteúdo fraudulento em si. Compreende o ambiente que torna possível a apropriação de fraudes como verdades — e de verdades como fraudes.

Tem a ver com robôs e algoritmos, mas muito mais com seres humanos. As máquinas não aprendem sozinhas a disseminar ódio na rede, por exemplo. Mas os algoritmos ajudam a juntar os semelhantes, oferecendo a cada um o que mais gosta de ver ou saber, sem qualquer critério de veracidade ou bom senso.

E quanto mais vemos reforçadas nossas crenças, menos toleramos as diferenças. Vale para futebol, política, religião e todos aqueles assuntos que não se discutia em reunião de família — pelo menos até inventarem os grupos de Whatsapp.

Nesse ambiente de pós-verdade, poluído com crenças e emoções, fatos objetivos perdem relevância, e então começamos a confundir liberdade de expressão com calúnia, injúria com polêmica, mas essas posições também são relativas. Aqueles que saíram em defesa da “liberdade de expressão” de Danilo Gentilli, condenado por injúria contra a deputada Maria do Rosário, o que pensam sobre a decisão do STF contra O Antagonista? Deem uma olhada nas redes de vocês, depois me contem.

Não é que sejam casos comparáveis, não são. Mas servem para mostrar como a defesa da liberdade de expressão pode estar em polos totalmente opostos.

Danilo cometeu um crime. Liberdade de expressão não dá a ninguém o livre direito à ofensa. Existem normas mínimas de convivência e respeito que precisam ser observadas. Trata-se de uma conquista histórica das sociedades democráticas.

Outra conquista das sociedades democráticas é uma imprensa livre para cobrar explicações de quem está no poder, especialmente quando há provas em contrário. No caso de Dias Toffoli, a reportagem censurada apresenta um documento que compõe parte da investigação da Lava Jato — até pouco tempo celebrada como arauto da moralização da política brasileira. Isso quando o agora ministro da Justiça, Sérgio Moro, estava à frente do processo.

Veja só como as convicções podem ser relativas em tempos pós-factuais, quando pessoas são postas acima de instituições. Só que as instituições existem para que a sociedade funcione independentemente dos indivíduos que nelas estejam. Era para ser mais uma conquista das civilizações democráticas em seu processo histórico de desenvolvimento. Pois chegamos até aqui para ver presidentes dizerem que as instituições, entre elas a imprensa, não lhes deixam governar.

A função de instituições como imprensa e judiciário é fiscalizar o poder para que direitos sejam garantidos e deveres sejam honrados. Direitos e deveres não são de direita nem de esquerda.

O que torna mais difícil a tarefa de frear a desinformação é que grande parte das mensagens classificadas como fake news por grupos políticos — e até pelo ministro do STF — não são verificáveis pelos critérios de fact-checking que se consolidaram nos últimos anos como tentativa de resposta a esse colapso informacional.

Para saber se há verdade no documento que embasou a matéria da Crusoé, por exemplo, é preciso investigar. A justiça vai fazer esse trabalho, espera-se. Por enquanto, há um documento, juntado em processo. Dias Toffoli, não a revista, é quem deve explicações à justiça, à imprensa e à sociedade. Mas Toffoli tem a caneta a seu favor.

Já a imprensa tem boa parte da opinião pública contra si — em parte por erros históricos da própria imprensa, mas também graças à estratégia de lideranças conservadoras que têm corroído sociedades democráticas ao redor do mundo.

Quando reduzimos a discussão ao que é fato ou fake, apagamos questões de fundo. Por isso, precisamos parar de falar de “fake news”, se quisermos voltar a falar de democracia.


*Este texto foi escrito antes de o ministro Alexandre de Moraes revogar a decisão. Moraes voltou atrás na quinta-feira passada, após manifestações do Ministério Público e de membros do próprio STF.