Por que você gosta tanto de anti-heróis e vilões e o que eles representam na cultura contemporânea?

George R. R. Martin não é sádico, é você quem está preparado para aceitar a morte de seus personagens favoritos.


Não é segredo que vilões não chocam tanto quanto antes e a imagem do anti-herói é cada vez mais aceita na sociedade, substituindo assim o desgastado arquétipo de herói. Mas o que explica a atração fatal exercida por eles sobre nós? Será que é errado gostar desses malfeitores por mais hediondos que sejam seus atos?

O filme “The Bling Ring” (2013), de Sofia Coppola, tem seu roteiro recheado com assuntos curiosos, mas o que mais me chamou atenção é a frase que o personagem Marc (Israel Broussard) solta próximo ao fim, na qual afirma que “os americanos têm um fascínio doentio pelo estilo gângster, do tipo Bonnie & Clyde”. No entanto, tal interesse não é exclusivo de uma única nação. Todos nós temos certa admiração por vilões e anti-heróis. É quase irracional, característica latente do ser humano. Odiamos amar alguns, amamos odiar outros. Chegamos até a nos identificarmos com eles em diversas situações.

Darth Vader, Hannibal Lecter, Alex Delarge, Dexter Morgan e Nucky Thompson são alguns desses seres que arrebatam nossos corações com suas vidas multifacetadas e, algumas vezes, incompreendidas. A paixão instantânea caminha lado a lado com o desprezo. E há uma explicação para isso. Ou melhor, uma não, três.


“Eu não estou em perigo, eu sou o perigo.”
— Walter White

A humanização da vilania

Não raro, figuras imperfeitas e sem qualquer vocação heroica, que realizam a justiça por razões pessoais ou meios questionáveis, protagonizam produções aclamadas pelo público. Este tipo de personagem é um recurso precioso numa boa narrativa audiovisual ou literária, uma vez que aproxima o espectador e/ou leitor da trama. O efeito é provocado por intermédio da humanização proposital das causas e perfis dos vilões e anti-heróis, sugerindo situações, aspirações ou pensamentos que todos nós já passamos ou tivemos.

Para ilustrar melhor, peguemos como objeto de estudo Walter White (Bryan Cranston), de “Breaking Bad” (2008) — eleito o anti-herói mais impressionante dos últimos 20 anos em diversas listas internet afora. Walter se tornou um professor de química exemplar, embora isso não o fizesse realmente feliz, porque pais precisam prover sustento às suas famílias. Ele vivia de modo humilde e pacato, fez tudo o que se espera de um homem enquanto construção social para, numa brincadeira de mau gosto do destino, ser diagnosticado com câncer terminal. E agora?

Breaking Bad, cena do episódio 06 “Cornered”, da 4ª temporada.

Ter uma bomba relógio sobre a cabeça faz o senhor White acordar quase de supetão, resultado da incerteza de logo ter de partir e deixar esposa e filho na sarjeta. Para garantir a estabilidade de sua família e custear a quimioterapia, ele passa a produzir metanfetamina. A partir daí, traça um caminho de péssimas escolhas, as quais constatamos mais tarde serem reflexos de uma personalidade insatisfeita consigo mesma, insegura, orgulhosa e cheia de arrependimentos.

Walter embarca numa metamorfose motivada pelo desespero. Diante dos nossos olhos, o bom vizinho se transforma em um chefão do tráfico de drogas, capaz de passar por cima de qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Como ele mesmo se define num ataque de deslumbre súbito: “eu não estou em perigo, eu sou o perigo”. E como culpá-lo, já que suas ações iniciais eram nobres? Além disso, tantas vezes nos pegamos querendo jogar tudo para o alto, desejando que nossas vidas fossem diferentes ou que nos reconhecessem mais nos âmbitos profissional e pessoal. Este é só um das dezenas de exemplos que podemos encontrar no entretenimento.

A relação entre o encanto por bad boys e a psicologia

Em 1899, Sigmund Freud esclareceu muito bem o fascínio por sujeitos malvados com a sua 2ª Tópica do Aparelho Psíquico, mesmo que a motivação de seu estudo não fosse especificamente essa. Segundo o criador da Psicanálise, a nossa psique é dividida em três instâncias que interagem entre si: o id, o ego e o superego.

O id corresponde ao puro instinto, impulsividade, satisfação pessoal ou solução do problema. Desconhece completamente os limites ou a lógica, isentando-se de responsabilidade e altruísmo. Já o superego vai contra isso, representa os pensamentos éticos e morais internalizados, a recompensa social em seguir regras. Os objetivos principais são inibir impulsos, forçar comportamentos aceitos pela sociedade e nos conduzir à ideia de perfeição, ainda que ela seja inalcançável. Enquanto o ego, basicamente é o que media estas duas instâncias, equilibrando o primitivo e o socialmente correto.

É claro que o equilíbrio varia de pessoa para pessoa, além de não permanecer o mesmo durante toda nossa vida, ou seja, há momentos em que o id se manifesta mais que o superego e vice-versa, fato que nos leva à nossa próxima pergunta: o que isso tem a ver com o tipo de personagem que gostamos? Tudo!

A personagem é um artifício usado pela nossa mente para trazer instintos à tona de maneira admissível, funciona como uma válvula de escape. No caso dos vilões e anti-heróis, que cometem crimes terríveis e atos capciosos, eles seriam o espelho do nosso id em maior ou menor escala. Transformar impulsos rejeitados pelos bons costumes em uma personagem e não ser responsável por isso é o que causa o reconhecimento imediato.

Passamos a aliviar esses desejos irracionais reprimidos na ficção, afinal, ela está distante, não nos traz nenhum prejuízo e nem nos envergonha perante o mundo. E quando a ficção se encarrega de castigar ou levar esses bandidos à redenção, a ligação psíquica aumenta exponencialmente, porque nos incita a crer que transgredir regras é o mesmo que sofrer. Temos o êxtase com as ações sórdidas do vilão (id), para logo entendermos que escolhas erradas podem trazer consequências pesadas no final (superego).

Uma prova concreta da expressão livre do id é a performance feita por Marina Abramović em 1974, chamada “Rhythm 0”. Ela permaneceu pelada exposta ao público durante 6 horas, rodeada por 72 tipos diferentes de objetos e armas que poderiam ser usados para agradá-la ou machucá-la. Os visitantes foram então convidados a participarem ativamente da performance, podendo escolher qualquer objeto disponível. A princípio, estavam apreensivos e confusos, mas rapidamente se tornaram violentos e cometeram algumas atrocidades com a artista. “A experiência foi horrível e aprendi que se você deixar a decisão para o público, você pode ser morta. Eu me senti muito violada e sob uma atmosfera agressiva. Um homem chegou até a apontar uma arma para minha cabeça”, observou Abramović.

Existe um elo incontestável entre o fascínio por vilões e anti-heróis e a história do homem.

Outra ideia que contribui com perfeição para nossa afeição aos bad boys é que eles são muito mais atraentes e carismáticos que os mocinhos. Geralmente, são amparados por personalidades complexas, tornando-os de longe mais interessantes e curiosos. A atmosfera sexy em volta dessas figuras se torna um elemento irresistível. Indo mais além, existe um elo incontestável entre o fascínio por vilões e anti-heróis e a história do homem. Não à toa, Freud institui a 2ª Teoria das Pulsões em 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial, para tentar explicar a origem da agressividade humana. Esta é a terceira peça do nosso quebra-cabeça.

O homem consome violência por meio dos produtos da cultura para compensar a falta dela no cotidiano. Desta forma, supre o seu lado primitivo.

Séculos de desgraças refletidos numa geração pós-moderna

Numa rápida análise na história da humanidade, é possível perceber um enorme rastro de destruição. Inegavelmente, os séculos 20 e 21 são os principais responsáveis pela maneira como nos comportamos, vivemos e pensamos hoje em dia. O período que compreende o século 20 foi marcado por uma série de eventos significativos e catastróficos, rendendo a ele os carinhosos apelidos “século sangrento” e “era dos extremos”. Você pode não acreditar, mas alguns desses episódios são fatores consideráveis na nossa simpatia pelos vilões e anti-heróis.

Assassinatos em massa, grandes crimes e escândalos, desastres, tragédias naturais, avanços tecnológicos e instauração da era digital, expressivos movimentos de contracultura, consolidação do capitalismo, diferenças ideológicas, guerras e notáveis eventos são alguns acontecimentos que permearam a trajetória do homem até aqui. Testemunhamos o mundo virar de cabeça pra baixo, num intenso processo de transformações drásticas.

Ao encontro de nosso diálogo, a Segunda Guerra Mundial foi o que podemos considerar o pico do século 20. Catapulta para o espantoso ataque atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki pelos EUA, ela dividiu nossa história num claro antes e depois, sem dúvidas. De lá pra cá, viramos metamorfoses ambulantes, indo de cidadãos passivos a revolucionários. Uma sociedade inteira baseada em novos hábitos e vícios (bons e ruins), no consumo desenfreado de produtos descartáveis, na banalização da privacidade e exaltação do individualismo. Para completar, no século seguinte, presenciamos milhares de vidas serem arrancadas de maneira inesperada no atentado às Torres Gêmeas, algo que abalou estruturas políticas e sociais.

“A ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos.” — Rodolfo Viana


É fato que tivemos crescimento imensurável, mas essencialmente aprendemos que somos capazes de qualquer coisa, de ideias que pareciam abstratas, como a exploração do espaço, a atos lamentáveis, como o Holocausto. Tudo isso impregnou uma sensação de imperfeição em nossas mentes, relacionando-se com a preferência por vilões e anti-heróis. Se o herói é a certeza, o anti-herói é a dúvida — e nós também — logo está aí o ponto chave da identificação. O romantismo foi posto de lado e entramos num tempo em que os conceitos de bem e mal são relativos e adaptáveis.

Fomos criados na dura realidade de que tudo é possível. Por este motivo, ficamos menos abismados com mortes abruptas de personagens, ainda que tenham boas índoles, e aceitamos com mais facilidade mudanças violentas de roteiros. Neste contexto, faz sentido se interessar mais pelos vilões e anti-heróis que heróis. Eles funcionam como exercício de sadismo. Não fosse a crueldade dessas personagens, seríamos nós os vilões. Como disse Rodolfo Viana em sua Revista Benedito, “a ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos.”

No fim, estranho é não se identificar.

Agradecimento especial à Camila Berteli, psicóloga, que forneceu insights imprescindíveis para a criação deste texto.


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