Por que você nunca vai ser o carinha instagrammer

E por que passar o fio dental é perigoso

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E u não estou tentando ser mau ou pessimista aqui, mas eu estava passando o fio dental pós-decepção em ver determinada pessoa curtindo posts que eu não imaginava — tudo bem, não fiquei surpreso — que de repente pensei: eu nunca vou ser o carinha perfeito do instagram.

E sabido o que todos já sabemos sobre a ilusão que é a vida perfeita de quem julgamos serem maravilhosas, por que raios ainda insistimos em nos comparar?

Vou trazer fatos

Sempre irá existir alguém fisicamente “melhor” que você neste hall dos padrões impostos que fazem todos comprar tal lógica. Sempre vai ter alguém mais interessante que você, alguém mais “feliz” ou alguém que fala 21 línguas; alguém que passa o cartão no débito? tem também, e sabe por quê? porque esta é a visão de todas as outras pessoas que se não você e mesmo você!

É por isso que você fica mal, e quando isso acontece em redes sociais, você deve ter o brio de se perceber assim e evitar seguir este tipo de pessoa.

Ok, agora, e quando estamos saindo com alguém e essa pessoa curte o que “não deveria”? já se pegou sentindo esse sentimento?

A má notícia é que isso é natural, você pode ser perfeito e seu/sua parceirx vai elogiar as demais pessoas, isso não é proibido, como temos consciência, e sempre vai haver alguém “melhor” que você.

A boa notícia é que esse “melhor” não existe no real devido à sua individualidade e é por esse mesmo motivo que não é justo consigo mesmo o gatilho da comparação. Não faça isso.

A não ser, claro, que você seja patologicamente um narcisista e não tenha nunca indagações sobre alguém mais “bonito” que você sendo curtido por seus seguidores.

Karl Marx e Friedrich Engels, na Ideologia Alemã (escrita nos anos 1845–1846), vão nos ajudar a compreender melhor esta contemporaneidade, onde explicam:

A produção de idéias, de representações, da consciência, está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparece aqui como emanação direta de seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc. de um povo. Os homens são os produtores de suas representações, de suas idéias etc. c. (1977, p. 36).

Animais humanos são como os não-humanos: eles querem procriar e sobreviver, como qualquer organismo mais simples que exista, um unicelular. O ciúmes, da história do “amor” e da biologia, não deveria existir em tese, justamente por estes motivos, todo o resto é posse.

E por mais que isto esteja claro em diversas situações pessoais, me peguei passando o fio dental antes de ir pra cama pensando em como e por que aquilo me incomodava e da onde este incômodo vinha se eu estava tranquilo em relação a todo este raciocínio comum a mim e principalmente em relação ao livre arbítrio do próximo.

Eu nunca vou ser o carinha do explorar do instagram, porquê mesmo que eu seja um deles, sempre irá existir outro, e mais outro e outro e se não for lá, vai ser num grupo do facebook, num currículo do Linkedin ou na padaria do meu bairro.

O incomodo deve sempre ser confrontado, batido de frente se perguntando qual a causa e a lógica, se há por detrás dela, da onde vêm este sentimento e o que me provoca a refletir em cima destes incômodos. Só assim percebemos que é tudo provocações irreais e de inseguranças criadas por nós mesmos numa madrugada enrolando um fio azul entre os dedos. Muita cautela.

Este diálogo é extensão de uma (auto)Valorização e a relação com o Ciúmes debatida anteriormente e a ser pensada cotidianamente nos detalhes.

Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência — Ideologia Alemã, 1977, p. 37.