Encarando o submundo da assistência técnica para celulares

Renan Castro
Aug 20 · 8 min read

Missão: mandar um aparelho para arrumar.
Problema: defeitos especiais aparentemente adquiridos com tempo de uso.

Obsolescência programada ou já zoado, gastado. Quem nunca? O diagnóstico a princípio foi simplesmente bad vibes. Um dia ele começou vibrando de forma ininterrupta no meu bolso, no meio de um show afrobeat. Pensei: que bruxaria é essa? E nunca mais parou de vibrar; foi de mal a pior. Até o touch deixar de funcionar total. Depois fui saber, não recomenda-se tomar banho com seu amigo smartphone, sobretudo se deixá-lo tocando música no mesmo recinto. Aquele vapor da água quente do chuveiro, é suficiente para penetrar cada um de seus componentes. Umedece, resseca, curto circuito, vai oxidando, sem dó. Eu nunca tive muitos aparelhos de celular, é verdade. Talvez dê pra contar nos dedos de uma mão só. Eles duram bem comigo. O suficiente para minha negligência em perdê-los da forma mais ridícula possível. Já larguei um na calçada de boa, outro esqueci num táxi e o restante foi definhando com o passar dos anos mesmo, me proporcionando a partir daí ensinamentos jamais previstos.

Voltando a missão de fato, o touch screen foi recuperado em um barato que saiu caro. Este primeiro conserto salvou a tela frontal, mas de quebra, trouxe outro efeito colateral: nenhum chip era reconhecido pelo aparelho mais.

Foi daí que se iniciou a minha saga para tentar ressuscitá-lo. Do contrário, eu tinha um celular que servia pra tudo (perante um sinal wi-fi), menos para sua função principal de comunicação. Durante um breve instante havia esquecido que era sobre isso, né? Fazer ligações e claro, trocar figurinhas, gifs e mensagens.

Por isso fui até o local da emboscada. Região central de São Paulo, mais precisamente no bairro Santa Ifigênia. Para quem não conhece, trata-se de um conglomerado de micro lojistas e várias galerias comerciais, sendo um reduto no ramo de peças e eletrônicos em geral. É andar pela rua e se encontrar desbravando um verdadeiro safári urbano do hardware popular. Circulando pela muvuca, você será logo interceptado por garotos com placas e caixas perguntando o que você precisa. A abordagem de cara é meio suspeita, mas calma. Por trás de toda linguagem hostil, encare apenas como um sublime "Posso ajudar?". Esta é a prática comum ali, até descobrir que eles são o próprio guia high-tech da sua caçada. Uma espécie de recepcionista a céu aberto que canta, dança e representa de fora dos estabelecimentos — e porque não, oferecendo o serviço de informante sem nenhuma cerimônia à parte. Apesar de lhe perturbarem se você já sabe para onde está indo ou só de passagem, possuem a importante responsa de levar os desavisados para algumas lojas mais específicas — sobretudo as que não possuem fachada. Seu papel assim, é essencial para conectar os consumidores até às assistências que ficam mais escondidas e por isso recebem comissão (em dindin e moral na broderagem), após o atendimento efetivado por esses mesmos lojistas isolados. Ou seja, se você não está fazendo uma visita de retorno, somos incapazes de encontrar algo. São eles que te acham de acordo com sua respectiva necessidade.

E andando por corredores feito labirintos subterrâneos, tudo o que eu tinha ouvido até então era:

Qual é o beó?
Um Asus Zenfone 3 que não lê o chip mais! (único sintoma).
Viiixe! Esquece! — afirmou o rapaz, como quem sabe que esse tipo de problema é bucha sem saída.

Mas ainda assim, fui conduzido por outros infinitos guichês, técnicos de assistência, até que cheguei em um balcão em que um camarada estava disposto a encarar o desafio. Box 63, lado B. Me passou para o Sandrinho lá embaixo, que indicou o Dadalto, depois o Japa da Manu (que pensei que era referente a mulher dele, até descobrir que era um japonês responsável pela manutenção) e por fim chegar no grande Hudson, uma espécie de autoridade e frontman de toda aquela área.

Já infiltrado nessa espécie de antro da informática contemporânea, percebi que ali tinha de tudo um pouco. Assim como os garçons de uma churrascaria, cada qual com sua especialidade. Os parceiros das telas e películas. Tem carregadores, acessórios e capinhas. Compra, venda e até feira do rolo (que reconheço como a famigerada catira). E para além do mundo eletrônico e celulares, tinha o Camarote, um figura que parecia trabalhar como animador de plateia do espaço, comercializando whisky, perfume e outros utensílios singulares. Aí comecei a entender que naquele pequeno centro, havia uma lei própria entre os profissionais e sua autonomia. Uma engrenagem de segunda mão, paralela e com marcas de adesivo, mas que fazia tudo girar bonito. Um regimento interno de trabalho praticamente instintivo. Se existia uma hierarquia? Talvez. Reparei um certo respeito entre a vizinhança, quando eles se chamavam por títulos alternativos. Se referiam entre variações de Pai, Meu Rei, Monstro e Chefão. Lá na frente tinha o Baiano e o China (que vendem trecos e coisas genéricas jamais enumeradas). Aliás, a contabilidade e termos numéricos ali não seguem nenhuma lógica aparente. Se era parte de algum dialeto nativo, captei alguns trechos, bem complicados de decifrar.

O iPhone Cheese dá pra sair a 3 zero 9 se for direto ou avulso.
Seu Samir cabô de chegar com 18 embalo de mercadoria hoje.
Vendi 6k do cinco e mais 12 liso ontem. Fora os display, eim?

Numa imprecisão dessa que fui surpreendido, com o Hudson voltando lá de cima confirmando: o fera vai arrumar pra você, leva uns 20 minutinho, tá zero!

Maravilha! Esperei em pé mesmo, observando o fluxo da galeria. Gente de tudo quanto é tipo. Querendo comprar Android, querendo vender Xing-Ling. Gente tentando arrumar o visor que pifou mas não adianta sem a gavetinha. A gavetinha é o que vale mais, eles não falam (mas cochicham). E na troca de um aparelho usado, não é a peça estragada que mais importa. Mas sim o item que não existe reposição dos fornecedores, então tem que ser reaproveitado de outra carcaça quando fica disponível pra jogo no comércio. Por falar em jogo, eles mal fazem uso de intervalo. Pois a qualquer momento no batente, sabem que tem o açaí do Pará, que logo chega oferecendo tal iguaria aos mais chegados. Na hora do almoço circulou rumores de alguns ambulantes. O mais famoso eles chamam de Mc Favela. Um hambúrguer no estilo Mc Donalds, que qualquer pedido sai apenas por 10 conto — tem Quarteirão, Mc Cheddar e o Big Tasty, cujo o molho especial diz o Sandro que é igualzinho, man. Entre os vizinhos de loja, era notório seus hábitos alimentares.

Você prefere almoçar no libanês ou sandubão?
Rapaz, eu prefiro rangar no turco, viu.
Nossa… sou mais o Méqui. Forra muito!
Ôxe! Vou sair daqui pralmoçar pra quê? Se o parça me traz aqui.

Sorri de canto e continuei no modo avião, só observando. Depois de tanto açúcar e sódio, nada mais natural que bater aquela puta sede. E na galeria ninguém tem água, nem filtro. Vários procuram nos arredores, saem perguntando pra saber se alguém por acaso tem um galão for free. Imagino que é quase um rodízio, onde aleatoriamente alguém será responsável por manter a hidratação plena dos envolvidos. Segundo o atendente, tem garrafinha gelada a venda na lanchonete de cima. Para o público é cinco pila, mas a dona consegue por dois e cinquenta se falar que é lojista. O lance é: diga que é amigo do Hudson e que abriu negócio ali esses dias.

Esse é o espírito de comunidade presente. Entre um freguês e outro, a zoeira come solta, feito clima de barbearia ou papo de motoboy quebrando o expediente. Entre os transeuntes, uma completa salada mista.

É outro Brasil. Ou os verdadeiros Brasis concentrados em um mesmo cubículo.

Já sentado e reparando outros estandes, vi o cara da loja de games tendo que explicar para o pessoal, que época de férias é gente demais (criança, jovem e adulto trazendo equipamento cheio de poeira, antigo). Abriu o jogo para a cliente:

“Não é que eu passo o pedido dos outros na sua frente. Mas é que quando chega coisa rápida, eu preciso logo desovar para depois voltar no serviço que é mais complicado, entende?”

A moça consentiu e foi embora sem o seu Dreamcast, que estava com problema na lente. E nessa enrolação de esperar, caiu a ficha que dali eu não sairia tão cedo. Os 20 minutos se tornaram 2 horinhas sem ver, feito sala de espera de oftalmologista. O Japa da Manu me arrumou uma cadeira para sentar atrás do balcão e escorar a mochila de canto. Passei tanto tempo lá que nem percebi, que os caras já estavam me confundindo com um deles. Me cumprimentavam com toques internos dos lojistas que eu fingi que sabia também. Falavam sobre blefe nas negociações que tiveram no trampo e como ganhavam ou perdiam através da inocência. Pairava um ar silencioso no ambiente. Até que o fera surge lá de trás e diz que não conseguiu arrumar meu menino. Que se quisesse deixar dormir lá, ele ia tentar novamente e eu poderia buscar noutro dia. Quer saber? Depois de toda essa imersão, achei melhor não. Preferi esquecer tudo que aconteceu e voltar para casa com a minha única garantia.

Ao redor, assobio e movimento de todo mundo baixando as portas. Saí pelos fundos da galeria, já estava escuro lá fora. Fui com meu smartphone na mesma, embora entendendo que por mais caótico que pareça esse segmento, o negócio funciona com certo brio. Meu celular nem tanto. Sabe como é, né? Tecnologia tem vida útil, também morre um dia. Li algo sobre esses tempos. Tem mais cell que população e a pressão de vendas vem caindo, respirando por aparelhos — sucumbindo.

Enfim cheguei em casa, guardei esse peso morto na gaveta. Fui assistir algum seriado, roteirizando a próxima temporada de Black Mirror. Condições apocalípticas, aquela distopia rolando, dominada por um imenso ferro velho lotado de telas, placas e smartphones. Tudo sem conserto, pois assim como o meu, passaram pela mesma bad vibe sinistra. Credo, chega! Que fique pelo menos o aprendizado. Caso esteja diante de algum episódio parecido, agora já sabe. Ao menor sinal de um 'Posso ajudar', puxe a pessoa de canto e responda secretamente da seguinte maneira: sim, tenho uma missão impossível.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Renan Castro

Written by

Escritor da NewOrder.in onde publica ensaios + textos sobre processo criativo, comportamento de consumo & comunicação. Pesquisador de tendências na ilia.cool.

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade