Pra quem é, tá bom
Como décadas de descaso com os mais pobres acabou criando uma geração de pessoas sem auto estima.

Em 2008 eu assisti uma palestra de um cara muito interessante, chamado Bill Strickland. Bill nasceu em um bairro barra pesada de Pittsburg, e fez carreira como líder comunitário, mas não da maneira que estamos acostumados.
Já faz muito tempo, mas o que ficou para mim de sua palestra foi a forma com que ele se dirigia ao falar dos mais pobres e necessitados, que são o foco da sua carreira. Bill construiu, ainda nos duros anos 60, um centro comunitário, que oferecia (e oferece até hoje), cursos voltados para arte e música para comunidade, o Manchester Bidwell.
Na hora de escolher um projeto arquitetônico, Bill convocou um pupilo de Frank Lloyd Wright para desenhar. O desenho do prédio serviu como base para a construção do aeroporto de Pittsburg.
Ele se orgulha ao mostrar que na entrada tem uma fonte. E tem flores frescas todos os dias no hall de entrada. E que nos dias de aberturas de exposição, ele chama presidentes da República para jantar no Centro. E quem faz a comida são seus estudantes de gastronomia. Moradores das regiões mais pobres, servindo chefes de Estado. E vai além. A abertura da exposição é para as autoridades num dia. E para os familiares no dia seguinte. E o cardápio é o mesmo.
Seu auditório musical não é mais ou menos bom. É tão bom que Herbie Hancock toca lá sempre. Nomes de primeira linha do jazz vão se apresentar. O Centro serviu como tubo de ensaio para outros, supervisionados por ele.
Strickland responde porque tanto esmero num Centro feito para pessoas tão pobres: “Porque eu queria. Eu era o dono da chave do cofre. E eu acho que mães solteiras, jovens em situação de risco, homens que perderam seus empregos merecem uma fonte. Merecem flores frescas, comida boa, música de primeira”.
A fala de Bill Strickland condensa quase tudo aquilo que eu tenho de rancor do trato com os mais pobres no Brasil. Agora podemos generalizar completamente, pois antes e depois da ditadura, em governos de direita, de esquerda e aqueles que não dá pra definir, todos agem da mesma forma.
Aparentemente, há um consenso quase unânime de que o grande agente transformador de sociedades tem nome: é a Educação. Em outras áreas, principalmente na segurança, existem dúzias de interrogações sobre qual seria o enfoque apropriado para se lidar com o tema. Em saúde, a mesma coisa. Dúzias de prioridades, inúmeras formas de atacar o problema.
Não com educação. Aqui, é tudo bem simples. É escola, pura e simples, bem montada, com professores bem pagos. Mas não qualquer escola.
Tem que ser a MESMA escola para todos. A escola onde você colocaria seu filho. Não boa o bastante. Boa o suficiente para você ter vontade de tirar seu filho da rede particular e procurar vaga na pública. Escola com variedade, com cultura, com esporte. Escola primária. Fundamental. Ensino médio. ESQUEÇA universidades. Faculdades não são prioridade. O importante é o indivíduo bem formado no início de sua vida.
E adivinha: custa menos do que cadeia.
Dá pra fazer.
Parece simples e óbvio, mas é exatamente aquilo que mais amedronta os dois lados do jogo do poder. Porque uma mente não volta ao seu tamanho original depois que se abre pro mundo. Ninguém desaprende a ser humano. Ninguém aceita ser tratado com menos depois que experimentou o respeito.
As pessoas ficam difíceis de serem controladas. Difíceis de serem colocadas em caixinhas, rotuladas, guiadas. Gente pensando é um perigo.
Por isso, o epicentro da bomba de pobreza brasileira é justamente a educação. Mas é mais profundo. Aqui, criaram uma cultura de pobreza. Pobreza intelectual, pobreza comportamental.
O brasileiro aprendeu uma coisa estranha, que um sentido diferente para a palavra humildade. Normalmente, essa palavra significa “não se fiar naquilo que você tem para definir o que você é”. Ou “não se sentir mais do que ninguém por ter alguma particularidade a mais do que outros”. Aqui, convencionou-se que humildade é um tipo de conformidade com sua própria situação ruim. Um tipo de orgulho da própria fraqueza. Da própria miséria.
Não aguento ouvir críticos engajados me dizendo que música ruim é boa, que arte ruim é boa, que os lugares das favelas são lindos quando qualquer um vê que não são. Acho preconceituoso, paternalista, reducionista.
Me cheira a “é música ruim, mas como você é desfavorecido, tá bom”. Porque arte boa é arte boa. E ponto. Cartola fazia arte, não arte da favela. Os grandes bluezeiros do mundo, faziam arte, tão boa que extrapolou as fronteiras dos guetos.
E claro que vai aparecer alguém nos comentários me advertindo que quando o blues surgiu, quando o jazz surgiu, eram tidos como músicas inferiores. Eu diria apenas para ouvirem Billie Holliday e comparar com Mc Lan e ver se os dois tem algo de paralelo.
Me agride saber que uma favela (ou comunidade, pelos novos padrões) está repleta de potenciais engenheiros, professores de matemática, poetas e músicos, que estão sendo geracionalmente castrados, transformados em consumidores de lixo para poder continuar votando nos mesmos salvadores da pátria, eleição após eleição. Lógico que existem muitos jovens que deveriam ter estátuas erigidas em suas homenagens, tamanho é o esforço para conseguir mudar a realidade. Não é assim que deveria ser.
Não sou muito de teorias da conspiração, mas acho que nesse caso, o que vivemos é sim, parte de alguma tramoia de gente que lucra muito com essa pobreza.
O que me passa, na base do pão e circo, é um esforço (bem sucedido, é preciso reconhecer) para se tornar dono dos pobres. Para ser dono de algo, implica nessa coisa existir. E todo mundo quer que seu patrimônio cresça. Portanto é só fazer as conexões.
Temos uma enormidade de pessoas (que injustamente são chamadas de “minorias”) que estão com suas auto-estimas tão danificadas por gerações e gerações de abusos, que não conseguem mais erguer a cabeça para mudar suas realidades. Que chamam político de “doutor”. Que, ou obedecem, ou encontram algum alento no falso respeito que a vida no crime pode produzir.
Gente jovem, capaz, inteligente.
É impossível que algo tão óbvio tenha passado em branco por tanto tempo.
Está na hora de ver quem vai aparecer com soluções novas. Quem vai propor escolas de primeiro mundo. Conjuntos habitacionais com projetos de grandes arquitetos e urbanistas, prontos para se transformarem em bairros decentes no futuro. Projetos com sustentabilidade, com praças, com quadras de esporte, colégios integrados, conchas acústicas, centros de comunidade como os de Bill Strickland.
Parece utopia? O nome do livro de Bill Strickland é “Tornando o Impossível, Possível”. Talvez devêssemos ler.

