Precisamos conversar sobre a violência no Brasil

Súbito, o país inteiro é pego com as calças na mão ao testemunhar, boquiaberto, uma menina de 16 anos ser estuprada, fotografada, filmada e compartilhada em redes sociais por 30 homens. Em questão de horas todos já tinham opiniões e sentenças prontas para todos os envolvidos.

Mas calma lá. Episódios lamentáveis como estes deveriam funcionar para gerar alguma pausa para reflexão. Para tentarmos entender o que exatamente está dando errado em nossa sociedade. O afã que todos se debruçam sobre os dados ainda quentes não nos ajuda muito.

A primeira questão relevante seria: porque ainda ficamos chocados? Vivemos num pais que convive com uma aterrorizante taxa de 47.600 estupros por ano, segundo os últimos dados. Este caso apenas saiu da curva pelas características particulares. Mas a cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil. Isso valia para ontem, e valerá para amanhã.

Ao juntar esses dados, com os quase 60 mil assassinatos, com os 43 mil mortos no trânsito, e sabe-se lá quantos assaltos, roubos e espancamentos que temos todo ano no Brasil, fica muito claro que nos perdemos em alguma parte do caminho. E que analisar os dados de estupro apartados dos outros dados de violência, não parece fazer sentido.

Grupos feministas rapidamente creditaram os números ao que chamaram de “Cultura do Estupro”, que seria uma propensão do brasileiro, machista por natureza, a minimizar esta categoria de agressão, como se ele fosse um crime “menor”.

Quando falamos, porém, das outras estatísticas, as causas mudam. As culpas passam a ser, além do machismo, do preconceito, do racismo, da pobreza ou da homofobia, conforme o tipo de crime ao qual nos debruçamos. O pior de tudo é perceber que todas essas causas parecem fazer sentido, em maior ou menor grau.

Saber disso, porém, não ajuda a entender tudo. E principalmente, não ajuda a diminuir esses números. Fica claro que a violência tem causas culturais, políticas e práticas. Mas enquanto as primeiras nos ajudam a entender, é nas últimas que precisamos agir, com urgência, para mudar as estatísticas e salvar vidas.

A verdade é que o problema da violência no Brasil parece estar sendo discutido, veja só, com muita violência. É necessário conhecer as causas, mas mais que isso, é preciso atacar o problema com mais estratégia do que sede de vingança.

Há não muito tempo, o discurso dominante para explicar a violência eram as causas sociais. Ela seria decorrente da falta de recursos, do desespero e angústia dos oprimidos contra seus opressores, vindos das classes mais abastadas. Essa explicação cai por terra quando levamos em conta que tivemos uma queda notável na desigualdade social, mas que nunca se refletiu nos índices. Isso leva a crer que a raízes são mais profundas, e menos óbvias. Não sou sociólogo, nem pesquisador do assunto. Mas como parte interessada, eu chutaria alguns fatores:

1. Nossa predisposição à quebrar a lei.

Não adianta, o brasileiro tem quase uma necessidade de não seguir regras. De limites de velocidade a locais para jogar lixo, fazer o cidadão cumprir regras básicas de civilidade é um suplício.

Talvez isso tenha origem nos anos de ditadura, ou mesmo antes. A desobediência civil é um esporte nacional. E como somos mais do que contraditórios, o mesmo povo que não segue a lei é aquele que pede por leis mais duras. Outra falácia: se endurecer leis e bater em bandidos funcionasse realmente, o Brasil, que tem a polícia que mais mata no mundo, deveria ter os índices da Suécia.

2. Polícia para quem precisa

Como já sabemos, temos a polícia mais letal do mundo. E também uma das mais ineficientes. Apenas 8% dos casos de assassinato são esclarecidos. Para ser eficaz, a polícia não precisa ser truculenta, muito pelo contrário. Se for inteligente, estratégica, unida e sob um comando eficaz, o que vemos em países mais civilizados são policiais que raramente sacam uma arma do coldre.

Eficiência quer dizer modernização. Quer dizer ciência, CSI mesmo. Quer dizer chegar aos culpados de maneira cirúrgica. E mesmo que nossa polícia esteja funcionando como um relógio, ainda precisa mais. Precisamos de um judiciário que prenda quem deve, solte quem já pagou, e saiba a diferença entre eles. Precisa de um sistema prisional inteligível, que adote penas realistas e que façam sentido à todos. Que não precise lançar mão de indultos, reduções e saídas em feriados para reduzir superlotação.

Onde cada preso divida espaço de cela com no máximo mais uma pessoa. Não apenas porque isso é o mínimo que um ser humano necessita, mas por que com esses cuidados é muito mais difícil que organizações criminosas poderosíssimas como o PCC ou o Comando Vermelho prosperem.

Esse ponto é matemática pura. O medo de ser pego inibe o criminoso. Já o contrário, a certeza da impunidade, é o adubo para as práticas fora da lei.

Esse é outro ponto sem grandes esperanças. Se formos olhar a composição do nosso congresso, e a quantidade de membros dele com problemas criminais, fica fácil entender porque a última coisa que querem é um aparato policial que funcione.

3. Valores morais em ebulição

Não quero pagar de puritano. E novamente, não há muito o que fazer. Mas não há jovem no mundo preparado para lidar com a metralhadora de pornografia e violência que está mirada para ele atualmente.

Se até os anos 90 um adolescente precisava de calçar a cara e entrar numa banca de jornal ou videolocadora para conseguir algum estímulo erótico, hoje esse estímulo chega a ele, de graça, sem filtro, em quantidades absurdas, na palma de sua mão, em seu celular, em seu computador.

Jovens trocam nudes com uma naturalidade cada vez maior. E cada vez mais acabam caindo, querendo ou não, na rede. Abertos para todos. O advento do flerte anda em extinção, substituído por combinações feitas diretamente via WhatsApp.

O bombardeio continua na música, seja nos polêmicos funks, ou nas letras repletas de álcool e mulherada dos sertanejos universitários, nos videoclipes das cantoras da moda. Os games online potencializam a competição entre eles.

Tudo isso misturado com quantidades muito, muito grandes de álcool e todo tipo de drogas, no que mais poderia resultar? Novamente, não se trata da moralidade das igrejas ou da junta militar. Não é caretice cheia de regras dos anos 50. Mas é preciso do cultivo de alguma moral.

4. Enfim, Cultura

Não digo somente o que se convencionou como “Cultura do Estupro”. Mas sim a cultura geral do país. Somos violentos. Assim como o Japão tem uma cultura de não-agressão, nós temos o oposto.

Desde o “te pego lá fora” dito na escola, às brigas de trânsito, nos botecos, a violência entre casais. As coisas descambam para a porrada muito naturalmente aqui. De forma quase homogênea, o brasileiro é violento.

As pessoas confundem cultura com educação. Acham que dá para transformar um país de dentro da escola. Até ajuda, não tenha dúvida. Mas mudar uma cultura não é nada fácil. Leva gerações. É preciso que o país passe a se ver como tal, como um só povo, ter claro que povo é esse, e isso, no nosso caso, está muito longe de acontecer. É preciso agir nesse sentido, mas saber que os efeitos, se forem conseguidos, são coisas para 20, 30 anos.

Viver num país tão confuso cobra seu preço. Não temos exemplos para seguir. Temos herois inventados, ou que se parecem tanto com vilões que fica difícil distingui-los. Prova disso é que não suportamos mocinhos em nossas obras de ficção. A figura do abnegado, de alguém que se sacrifica pelos seus semelhantes nos parece piegas. Nosso super homem é o Capitão Nascimento. Aqueles que nos governam são o extrato daquilo que temos de pior.

Como num pesadelo Kafkiano, parece que boa parte dos brasileiros vive dentro do filme “Um dia de Fúria”, todos os dias da vida.

Eu não sei realmente se há solução. Mas se existe, virá da discussão, da pressão e da ação concentrada da sociedade. Dessa sociedade que vem sofrendo, morrendo, perdendo filhos e filhas para o horror. Virá do grito de “basta”, sem filiação política, sem divisão étnica, nem social.

Virá da nossa própria realização de que estamos morrendo, dia após dia, abarrotados pelo caminhão da violência, largados à própria sorte, sangrando na beira da estrada, vítimas de uma infecção generalizada. E nesses casos, o correto é parar qualquer hemorragia em primeiro lugar, para depois decidir os antibióticos corretos para usar.

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