Precisamos parar de encarar a economia como uma máquina

Spoiler: Ela é uma teia. Complexa, dinâmica e imprevisível.

Desde que decidi estudar economia com mais profundidade, passei a olhar mais criticamente a forma como se faz o pensamento econômico. E não foi preciso muito tempo para perceber que havia algo estranho ocorrendo por ali. A ciência econômica flerta demais com as hard sciences e quer mimetiza-las. E isso sempre me incomodou. Não há problema algum na utilização do formalismo matemático como ferramenta para analisar e interpretar alguns fenômenos. O problema ganha uma dimensão extra quando essas ferramentas são acompanhadas de pressupostos e modelos reducionistas importados das exatas e são aplicadas a fenômenos que são complexos. É no mínimo questionável quando tentam transformar algo inerentemente complexo e diverso em um simulacro de exatidão, simplificando todo o fenômeno.

O problema, portanto, não é apenas metodológico, mas ontológico e epistemológico.

O primeiro passo é admitir que o problema é complexo. Imagem retirada de Complexity & other beasts, de Elisabeth Skjelten.

Por que eu deveria me importar com as questões tão, digamos, teóricas da economia?

Meus alunos reclamam com frequência que economia é “teórica demais” e tento argumentar que a linha que separa a “teoria” da “prática” é bastante fina: aspectos teóricos têm mais influência sobre o mundo real que as pessoas imaginam. As abordagens da ciência econômica, por exemplo, acabam fundamentando a forma como serão alocados recursos pelos governos e empresas. Um governo social-democrata, que adota determinada matriz econômica (que por sua vez é inspirada fortemente em alguma teoria econômica) fará mais investimento público com o objetivo de universalizar saúde e educação. Um governo de matriz liberal, de outro lado, alocará seus recursos de maneira distinta, de modo a estimular os investimentos privados em saúde e educação, por ser inspirado em outra matriz teórica. Pressupostos teóricos como a Curva de Phillips fundamentam políticas anti-inflacionárias e todos somos afetados concretamente quando, ao buscar uma redução da inflação, os policy makers sobem a taxa de juros com o objetivo de “domar” a atividade econômica.

Assim, é preciso ter cuidado com a qualidade das teorias que, no fim do circuito, vão acabar fundamentando as ações econômicas de agentes públicos e privados. Tais teorias têm o poder de moldar o mundo real para melhor ou para pior — e minha pouca experiência nesse ramo tem me mostrado que o reducionismo em economia tem modificado o mundo para pior. Ou seja, é preciso sim buscar aprimoramento da forma como a ciência econômica tem sido feita se quisermos enfrentar os problemas que assombram a civilização, como fome e pobreza.

É preciso abandonar de vez a noção de que ela é uma máquina — ela é muito mais que isso. Talvez (veja bem, talvez) uma analogia mais adequada seja a de que a economia é uma rede, ou uma teia.

Economia enquanto fenômeno social e comportamental

Economia é uma ~coisa~ social. É social porque não ocorre no vácuo; ocorre através da interação entre pessoas. Eu disse pessoas, não entes mecânicos e unidimensionais. E, tal qual todo fenômeno social, ela é imensamente complexa porque traz consigo toda a infinidade de possibilidades que a interação entre pessoas permite. A interação entre os agentes econômicos faz emergir padrões muitíssimo complexos. Os fenômenos econômicos (produção e consumo, por exemplo) são permeados de elementos não lineares, a partir de uma diversidade de agentes, com várias camadas de relações causais e que evoluem no tempo e no espaço.

Várias relações causais: No Atlas of Economic Complexity (Harvard), pesquisadores tentam traçar laços de proximidade técnica e institucional entre grandes setores da economia.

Como assim “elementos não lineares”, “várias relações causais”? Posso dar dois exemplos desses elementos: comportamento e cultura.

Você sabe que Coca-Cola faz mal. Você sabe que Coca-Cola prejudica seu organismo de várias maneiras . Em tese, o fenômeno econômico de ~consumo de refrigerante do tipo cola~ não deveria ter tanta relevância assim. Mas tem porque, apesar de seus efeitos negativos, as pessoas ainda consomem (muita) Coca-Cola por questões comportamentais e culturais.

Segundo a teoria econômica tradicional, baseada em pressupostos ontológicos e metodológicos derivados da física newtoniana e do cartesianismo (equilíbrio, simetria, mecanicismo, atomismo, todo igual soma das partes, etc.) e em pressupostos morais do utilitarismo, consumimos Coca-cola porque, após um cálculo puramente racional entre dor e prazer (ou entre renda e utilidade, custo e benefício), resolvemos que é ok realizar aquele ato de consumo.

Eu sei que você está ouvindo o barulhinho do gás ( ͡͡ ° ͜ ʖ ͡ °)

Dentre outros, um dos pontos que mais me incomodam na análise do mainstream é aquele que considera que o indivíduo possui um sistema cognitivo puramente racional e cujos fundamentos morais advêm do que é conhecido como utilitarismo. O Homo economicus é o agente típico das interações sociais dentro dessa visão e não é preciso muito esforço para entender que este tipo de ator é reducionista e idealizado: individualista, egocentrado, absolutamente racional, capaz de absorver todo o tipo de informação, processá-la da melhor maneira e tomar a melhor decisão possível. Se a sociedade fosse composta de Homo economicus, acredite, ninguém beberia Coca-Cola.

O Homo economicus é destituído de suas dimensões emocionais, culturais e simbólicas e reduzido a uma máquina tomadora de decisões ótimas. O problema é que somos muito mais (ou muito menos): somos Homo sapiens. Estudos recentes do pessoal do neuromarketing, por exemplo, demonstram que o processo de tomada de decisão de consumo ativa áreas pouco relacionadas à racionalidade cartesiana e calculista, sendo na verdade muito mais ligado ao instinto e à emoção. Ou seja, ocorre no âmbito da parte mais “primitiva” do cérebro (reptiliana, para ser mais específico). O processo de consumo é algo menos racional que os economistas do mainstream gostariam de admitir.

A ~racionalidade~

Assim, a análise de fenômenos econômicos deve abandonar a noção simplista e reducionista de que o indivíduo é um ser puramente racional e admitir finalmente que, além de ter essa dimensão (e bastante limitada, diga-se de passagem), ele é um animal que possui instintos e é um ente que se expressa com emoções. É multidimensional, portanto. O comportamento daquele agente econômico (que é um ser humano e não uma máquina calculista e utilitarista) deve ser analisado a partir de, no mínimo, três macro componentes — daí as múltiplas relações causais.

É preciso, ainda, ressaltar que essa configuração razão-instinto-emoção se altera no tempo. Faço uma pergunta: você sempre é a mesma pessoa? Não é. Possuímos processos heurísticos distintos e específicos que mudam de acordo com o contexto e nem sempre somos coerentes com nossos princípios mais arraigados; mudamos de opinião, aprendemos com as nossas trajetórias passadas e agimos também de acordo com as expectativas com relação ao futuro. Ou seja, a coisa toda é dinâmica: se adapta e evolui. Situações de não-equilíbrio e de equilíbrio se complementam, criando padrões caóticos, mas que também não deixam de ter algum grau de estabilidade.

O simbólico importa!

Não para por aí. Esses indivíduos (que possuem uma dada configuração razão-instinto-emoção fluidas) convivem com outros indivíduos com outras configurações razão-instinto-emoção, também fluidas. A interação dessas pessoas complexas forma um tecido social com uma dinâmica ainda mais complexa e muito maior que a soma das partes. As relações de poder e a cultura surgem daí.

Para os fins desse texto, vamos considerar que cultura é uma teia de relações simbólicas que condicionam a nossa subjetividade e nossas atitudes (seja em relação a questões individuais e internas, seja relacionado à nossa vida em sociedade) e que se manifesta em termos de religião, linguagem, arte, leis, etc., tudo ao mesmo tempo. Ou seja, uma macro-instituição que rege as nossas relações, seja conosco, seja com os outros.

Dessa maneira, a religião e a linguagem, aspectos simbólicos, portanto, também condicionam os fenômenos econômicos. A depender da matriz cultural, determinado fenômeno econômico possui mais ou menos relevância. O ethos pode incentivar ou desestimular dinâmicas de produção e consumo.

Esse filme diz muito sobre o que estamos discutindo aqui

A cultura islâmica preza pelo não consumo de álcool, por exemplo, e a AB Inbev, por mais poder de mercado que possua, terá dificuldades enormes em adentrar naquele contexto sócio-cultural. Assim, a dinâmica de produção e consumo de um setor bastante relevante da economia ocidental pode encontrar algum limite num contexto de crescimento da população islâmica em países ocidentais. A população chinesa, por outro lado, tem se “ocidentalizado” e alguns dos traços culturais característicos deste lado de cá do globo têm sido adotados pelo lado de lá, como o consumo de carne bovina e café. Imagine um bilhão de pessoas a mais tomando dois cafezinhos por dia.

A economia não é todo

Esses sistemas sócio-culturais não estão isentos de outras influências. Por mais que a teoria econômica tradicional não leve em consideração esse nível de abstração (e até insista em negá-la), o sistema sócio-econômico-cultural está em completa integração com vários outros sistemas vivos e não-vivos: biológicos e geoquímicos. Fazemos parte de uma biosfera e afetamos e somos afetados por ela.

Evidências bastante sólidas mostram que as alterações nas condições biofísicas do planeta (bastante frágeis, você sabe) geram problemas econômicos, sociais e culturais bastante relevantes. Basta ver os efeitos econômicos dos eventos climáticos extremos — olha o preço do feijão — ou a dinâmica de civilizações que entraram em colapso a partir da depleção de recursos naturais. No vídeo a seguir, Jared Diamond, fala rapidamente sobre as evidências que encontrou sobre o colapso de grandes civilizações e sua relação com o ambiente natural.

Jared Diamond pesquisou e descobriu evidências sólidas de que a queda de grandes civilizações foi engatilhada por questões ambientas

Entender isso possui implicações importantes: a economia é um sub-sistema. A economia, ao contrário do que os economistas gostam de imaginar, não é o todo; ela é uma parte de um sistema maior e está sujeita à ação de forças que estão em outros níveis e em outros campos.

Transdisciplinaridade

Diante disso, parece ser um crime epistemológico reduzir a natureza dos agentes econômicos e dos fenômenos que eles participam a um caráter estático, mecânico, unidimensional e linear. Assim como parece ser pouco eficaz usar uma única abordagem para a análise da economia.

A psicologia e a neurociência tem algo a nos dizer sobre o comportamento dos agentes econômicos. Também a antropologia e a sociologia podem fornecer insights importantes sobre as relações entre cultura e ação econômica. E as ciências da vida, notadamente a ecologia, também devem ter algo a contribuir sobre como lidamos com a natureza que fornece a base material para a coesão e reprodução de nossos laços sociais e econômicos.

Assim, abre-se a oportunidade para a transdisciplinaridade — as análises de fenômenos econômicos devem se pautar por abordagens transversais. A analogia da teia aqui, mais uma vez, parece ser adequada: uma teia de conhecimentos que objetivam o melhor entendimento de fenômenos complexos.

Por isso, quando me perguntam se economia é exatas ou humanas, costumo responder que “depende”. A depender do tipo de análise que se quer realizar, o objeto chamado economia pode ser encarado sob uma perspectiva de exatas, de humanas e até biológicas. Sempre concluo que economia é os três ao mesmo tempo. Gosto de imaginá-la assim.

É preciso um reset

A teoria econômica é um dos elementos que moldam o mundo real. Por isso, não podemos fechar os olhos à forma como essa teoria é feita, à qualidade dos pressupostos que fundamentam essa teoria, ao tipo de pessoas que reproduzem essas teorias e aos objetivos mais concretos de porquê determinado viés teórico ter mais relevância que outro. Por que a economia reducionista do mainstream continua tendo relevância, mesmo não conseguindo encarar e resolver problemas graves como a desigualdade? Podemos imaginar que por conservadorismo; para manter certos privilégios. Essencialmente porque ela serve aos desígnios das relações de poder já estabelecidas.

A transformação que desejamos passa por uma reconfiguração da forma como fazemos ciência econômica. Enquanto continuarmos reduzindo fenômenos complexos a simulacros de exatidão, o mundo será de fato muito menos que poderia ser. Estaremos podando o potencial de realização humana.