Depois que nada deu certo

Como o preconceito está agarrado, tanto nas vidas de quem zoa quanto na de quem critica a zoação, da mesma forma.

Uma escola do sul do Brasil promoveu um evento-galhofa que poderia muito bem ser mais um no mar de mediocridade que assola a escola (pública e particular) brasileira.

Instituiu um dia para os alunos irem fantasiados de profissões que simbolizem a derrota para eles (tipo um casual friday do mau gosto), com o título “Se tudo mais der errado”.

Os meninos e meninas foram fantasiados de garis, pedreiros, atendentes do Mac Donalds. A ação da escola gerou caretas de nojo por toda a parte da internetosfera de vanguarda brazuca. “Como podem esses moleques bem nascidos tirar sarro assim dessas pessoas tão sofridas, tão batalhadoras, tão decentes?”, vociferou a voz rouca dos teclados privilegiados de Pindorama.

Ok, acima de tudo, foi de uma falta de tato, de uma empáfia, e porque não, de uma burrice mercadológica sem precedentes.

Mas (como é quase meu mantra) a gente sempre esquece das coisas importantes. Não li uma análise que visse o que está por trás e através da festinha à fantasia do capeta.

Por conta de acontecimentos familiares, tenho pesquisado muito sobre países nórdicos, especialmente a Dinamarca. Recomendo a todos que façam o mesmo, apesar do forte risco de depressão que pode ser um efeito colateral ao retornar a lidar com a nossa realidade.

De fato, não existe um lugar perfeito. Mas parece que por aquelas bandas, eles chegaram o mais próximo que é possível. Na Dinamarca, como em outros países da região, é muito difícil alguém ter uma diarista em casa. Alguém para limpar sua casa. Desinfetar o seu banheiro. Lavar sua roupa. E faz todo sentido que não haja. Afinal de contas, porque alguém se sujeitaria a limpar a sujeira de outrem, se existem tantas opções pagando melhor no mercado? Não é fácil encontrar alguém que diga “meu grande talento é limpeza de banheiro. Eu me realizo é debruçado numa privada suja”.

O preconceito maior não é se fantasiar de empregada doméstica. É ter uma empregada doméstica, quando se tem mãos e produtos que fazem o serviço. Aqui está cheio de modernete que tira foto abraçado na empregada, como se isso fosse sinal de uma iluminação interior, sem perceber que o certo é arregaçar as mangas e fazer, ele mesmo, as tarefas de sua casa.

Não estou dizendo que empregadas domésticas, pedreiros, limpadores de fossa, etc., não existam no primeiro mundo. Existem, e são muito bem pagos. Ué, nada mais certo. Você quer que alguém realize o serviço que você não tem estômago ou disposição pra fazer? Pague. Pague bem. E não reclame.

Quer entender um pouco melhor? Leia esta matéria:

As críticas que ouvi dos meninos e meninas criados à base de polenguinho, vestidinhos de sub-empregados, têm sempre algo de professoral, de pito de mamãe, como quem diz: “Não reclame da Fulaninha, ela é uma empregada maravilhosa, ela é uma vencedora, ela faz tudo por você”. Só falta terminar com “não a ofenda, senão ela pede as contas”.

O que eu não vi foi alguém dizendo (até porque, aqui, seria de uma hipocrisia sem tamanho) que não se importaria nem um pouco se seu próprio filho decidisse virar lixeiro. Nada contra os lixeiros, acho que eu já deixei claro que por mim, eles ganhariam tanto quanto um engenheiro.

O buraco é realmente mais embaixo. Porque se é difícil comparar como vive um pedreiro sueco com um brasileiro, é impossível comparar como ambos trabalham. Se fôssemos pagar para um trabalhador braçal daqui o que ganha sua contraparte nórdica, com certeza ninguém construiria nada. Mas é que no Brasil os próprios sistemas construtivos ficaram para trás. Uma obra na Islândia não pode durar um ano e meio como aqui. Nem eles aguentariam pagar. Por isso a forma de construir foi agilizada, a tecnologia avançou, grandes porções de coisas vêm prontas. Em 3 meses se constrói uma casa, e o operário nem volta pra casa coberto de pó.

O mesmo acontece com todas as outras atividades que aqui chamamos de “menos privilegiadas”. O que aqui se torna degradante, lá pode ser oportunidade para especialização e lucros.

Enquanto aqui ser atendente do McDonalds é motivo de piada no meio da molecada modete, lá fora o trabalho em redes de fast food é quase um serviço militar obrigatório entre os jovens. Geralmente é servindo balcões e tirando sorvetes de maquininhas de lanchonetes que os meninos gringos têm seu primeiro contato com uma organização, com uma chefia, com uma hierarquia, e com uma graninha pra comprar suas tralhas e tomar suas biritas sem precisar pedir pros pais. Tá cheio de menina brasileira com cara de "modeloeatriz" que jamais atenderia mesas aqui, mas em Nova York é chiquérrimo.

E já que estamos falando de muros, ESSE é o grande muro que separa e categoriza as pessoas aqui. Enquanto nos países como a Dinamarca a comunidade encontra felicidade e tranquilidade no fato de que as pessoas têm, quase todas, as mesmas condições de vida, aqui nós estimulamos e celebramos as diferenças como o tempero da vida.

Aqui você só sabe que venceu quando tem um carro que ninguém mais tem. Uma casa maior que todos. Um relógio mais caro que o dos seus pares. Um guarda roupa que te defina. Então é claro que você vai categorizar como derrotado qualquer um que não pule pro seu lado desse muro.

Não dá pra arrotar falta de preconceito nas redes enquanto seu filho não estuda na mesma escola que o filho do pedreiro. Não vai no mesmo médico. Enquanto você não toma sua cerveja no mesmo balcão que ele. Se você quer que a patota da escola não se fantasie de lixeiro, é só ter vários filhos de lixeiro, felizes e realizados, no meio deles.