O que eu mais gostei de ler em 2018

Bem-vindos ao 4.º Prêmio Literário Motti, apresentado por Ricardo Motti, tendo como jurado e ditador supremo Ricardo Motti.

Monólogo inicial tipo no Oscar (me imaginem de smoking)

O fato mais marcante de 2018 é que eu meio que cansei do Kindle, serião. Com isso, redescobri como é bom chegar numa livraria pequenininha, ver os lançamentos, tomar um café superfaturado e comprar um livro legal em uma edição bonitona.

(O segundo fato mais marcante de 2018 é que o Brasil virou um Estado paramilitar.)

Mas vamos falar de coisa boa. É disso que eu vou lembrar sobre minhas leituras de 2018:

  • Depois de anos evitando fazer isso, abandonei uns quatro ou cinco livros no meio — eles mereceram.
  • Uma porrada de livros ótimos, tanto de ficção quanto não-ficção. Curiosamente, não teve muito livro "ok": a maioria era super bom ou bem chatinho.
  • A Grande Fase dos Livros Sobre Pássaros e Plantas no primeiro semestre e O Intenso Mês dos Livros de Comédia em novembro.
  • Existe uma parada mega esperta pra você marcar onde parou de ler. É tipo o que o Kindle faz, mas para livros físicos. Parece que chama "marcador de livro" ou algo assim. Descobri esse ano, super útil, recomendo.
  • Virei um colecionador de livrarias e achei que seria legal escrever uns reviews… mas a GQ cortou meu artigo pela metade e larguei o projeto por enquanto.

A meta para 2018 era: pelo menos 36 livros no ano, com uma média de 300 páginas por livro. A meta de livros foi batida e passei triscando com 300,3 páginas por livro, assegurando o bônus anual milionário que o Medium me paga.

Vamos aos prêmios da noite.

Troféu Farenheit 451

Tradicionalmente esse trofeu vai para os livros que merecem ir pra fogueira. Hoje em dia isso deixou de ser piada, mas como somos muito respeitadores das tradições aqui, podem riscar os fósforos.

3.º lugar: Snow Crash, Neal Stephenson (1992)

Sei que queimar um clássico é mais polêmico do que um menino usando rosa ou uma menina usando azul. Mas o livro é uma confusão desgraçada, descritivo demais, chato de ler. Eu lia umas 80 páginas, largava, parava uns meses, retomava e repetia a rotina. Terminei só com a força do ódio.

É uma pena, porque tem ideias incríveis aqui. Sinto que o Neal Stephenson tomou uns puxões de orelha, aprendeu a ser mais organizado e daí escreveu a obra-prima que foi o Seveneves, ganhador de um Motti de Ouro ano passado.

2.º lugar: O filho mais velho de Deus e/ou livro IV, Lourenço Mutarelli (2018)

Larguei no meio mesmo. É chato ter que botar fogo, porque a Companhia das Letras fez uma edição linda. Mas missão dada é missão cumprida. Selva!

Até fui seduzido nas primeiras páginas, mas é difícil acompanhar e o estilo escrever-em-português-fingindo-que-é-uma-tradução-mal-feita-do-inglês é uma ótima ideia que acho que não deu certo. Eu tentei. Mal aê.

Campeão: The Bees, Laline Paull (2014)

A premissa do livro é excelente: uma abelha operária nasce em um comunidade totalitária, onde cada um tem uma função, todos obedecem a rainha e o lema é "Accept. Obey. Serve." Em outras palavras: Colmeia Acima de Tudo, Deus Acima de Todas as Abelhas.

Eu sei que pra alguns parece um sonho. Mas nossa Operária é diferente e começa a questionar o sistema.

Até onde eu li, a história é legalzinha. Mas eu parei na página 84. Mais precisamente, eu parei nesse exato parágrafo (pode pular se quiser):

Flora moved on to the fifth and penultimate panel. At first glance it was very simple — just one carved leaf. As she looked more closely, it took on a golden hue and its filigreed veins pulsed energy that grew into a stalk, then a stem which stretched out the length of the panel and into the floor, its golden roots spreading all through the chamber and back up the walls until they met overhead. The heavenly smell of Holy Mother rose up strongly, mingled with the rich aromatic smell of pollen. Flora looked up and saw the root had joined into a knot at the centre point of the vaulted Library ceiling, now swelling into a crown-shaped fruit. It grew larger and larger, then burst apart in a shower of golden fruit.

Chato, né? Pois é, esse é um parágrafo do livro. Em UM parágrafo, a autora usa "golden" TRÊS VEZES. Olha a quantidade desumana de adjetivos que tem só aí em cima. Pensa se dá pra ler um livro assim. Eu não mereço isso.

Eu baixei um PDF ilegal só pra contar a quantidade de goldens no livro. Deu 384 goldens em 344 páginas. Mais de um golden por página. "Golden scent" (?) aparece 14 vezes. Tem 18 "golden aura" (???). Depois que você percebe isso, é difícil ler sem sentir uma raiva dourada.

Não só o livro merece ser queimado, mas podemos também levar pra fogueira o editor, que não pegou a Sra. Laline Paull, trancou numa sala e só deixou sair depois de cortar 90% dos adjetivos do livro.


Decepção do Ano

Eileen, Ottessa Moshfegh (2015)

Minha querida Ottessa, a Princesa do Humor Negro, ganhou um Motti de Prata ano passado com Homesick for Another World, sua coletânea de contos.

Obedecendo minha demoníaca regra de ler só um livro de cada autor por ano —não sei porque invento essas coisas—, estava ansioso pra ler esse. Tem muita frase divertida, mas deveria ser um conto de 50 páginas, não um romance de trezentas [suspiro]. Mas não é o caso de ir pra fogueira.

Agora virou o ano, então já comecei o novo dela, My Year of Rest and Relaxation. Tá indo bem. Cruzem os dedos.


Reviravolta do Ano

Gog Magog, Patricia Melo (2017)

Durante anos, a Patricia Melo foi minhx escritorx preferidx. Mas fazia tanto tempo que ela não escrevia um bom—e Fogo Fátuo foi tão sem sal—que eu tinha desistido dela pra sempre.

Mas daí resolvi dar uma última chance pra ela com o Gog Magog, que afinal era tão curtinho, e uooooow. Basicamente é a história de um cara que se irrita tanto com barulhos do vizinho que… bom, leiam e descubram.


Troféu Metamorfose

Os livros de não-ficção que me ensinaram algo, mudaram minha visão de mundo ou me deixaram 4% diferente:

3.º lugar: The Ravenmaster: Life with the Ravens at the Tower of London, Christopher Skaife (2018)

No meio de Londres tem um castelo de mil anos. Dentro do castelo tem sete corvos, e um cara que cuida dos corvos. Segundo a lenda, se um dia os corvos forem embora, o castelo desmoronará e o Império Britânico sairá da União Européia, ou sofrerá alguma outra tragédia menos grave.

Esse é o livro com a história do cara que cuida dos corvos. E é uma delícia. O melhor livro da Grande Fase dos Livros Sobre Pássaros e Plantas.

2.º lugar: O Dono do Morro: Um Homem e a Batalha pelo Rio, Misha Glenny (2015)

Digamos que eu sou influenciável. Esse ano eu li Linha d’Água do Amyr Klink e fiquei com vontade de construir barcos. Eu li A Vida Secreta das Árvores e quis virar botânico. Eu li H is for Hawk e quis realizar o sonho do falcão próprio.

O Dono do Morro é tão sensacional que dá vontade de virar traficante. É não-ficção, mas tem um ritmo alucinante. É profundo mas é fácil de ler. É instrutivo e divertido. É fantástico.

Misha Glenny é o cara que escreveu McMafia, um livro sobre crime organizado que depois virou uma série dramática da BBC (eu tinha ouvido falar mas achei que fosse daquelas séries porcaria da Netflix). Tá no topo da lista pra ser lido em 2019. Depois conto como foi.

Campeão: So You’ve Been Publicly Shamed, Jon Ronson (2015)

Eu namorava esse livro desde que li um capítulo no New York Times. Aproveitei uma promoção e comprei.

Que livro incrível. Você não vê o tempo passar. São raros os livros de não-ficção que me prendem assim. Merece todos os adjetivos: divertido, interessante, fácil, emocionante, rápido, engraçado, instrutivo e até inspirador.

Começa com uma investigação sobre internet-shaming e pessoas que caíram em desgraça por algum tweet bobo ou algum motivo sério. Daí explora temas como punição, nossa sede de vingança, desejo de ser amado, direito de ser esquecido pelo Google e por aí vai.

Um capítulo, por exemplo, é sobre presidiários. Uma pesquisa mostra que uns 85% das pessoas já tiveram vontade real de matar alguém (você já?). E quase sempre esse desejo vem de uma situação em que você se sentiu humilhado — e não de uma situação de perigo, por exemplo. Por isso, presidiários são menos violentos quando eles são bem tratados e se sentem respeitados.

No fim, você questiona se aquela alegriazinha de ver alguém se ferrando (e até de participar do linchamento virtual) é saudável. Mesmo quando achamos que estamos fazendo certo por punir “quem fez algo errado”: talvez a gente tenha feito algo pior que ninguém soube, ou que ninguém resolveu nos pegar pra cristo. Devia ser leitura obrigatória a partir dos 12 anos de idade.


Livraria do Ano

Mr. B's Emporium of Reading Delights

Essa simpática livraria independente fica em Bath, uma cidadezinha turística perto de Londres. Tem tudo que uma ótima livraria precisa ter, incluindo uma estante só com recomendações do staff, que também mostra o que cada um está lendo atualmente.

Quando tava pagando meus livros (esse e esse), comecei a conversar com o atendente. Ele perguntou de onde eu era. Então aconteceu o seguinte diálogo:

— Eu tenho uma cliente que queria um livro de ficção que se passa no Brasil. Já sugeri três e ela não curtiu nenhum… Alguma ideia?

— Hmmm… Minha escritora preferida é a Patricia Mello, não sei se você conh…

— Óbvio. Eu sugeri mas ela achou muito pesado. Tinha sugerido Heliopolis também, mas ela não gostou.

— Bom, e algo clássico tipo Machado de Assis…?

— Pois é, ela achou muito intelectual. Ela queria algo leve.

— Acho que ela não vai gostar de Clarice então…

— É, não.

— Bom, tem um escritor mais leve que chama Luis Fernando Verissimo…

— Veríssimo! Claro! [Ele deu um tapa na testa, foi até a estante e pegou The Spies.] Eu adorei, mas não sabia que ele era brasileiro. Ótima ideia, apesar da história poder ser em qualquer lugar.

— Hm. Bom, tem uma atriz brasileira chamada Fernanda Torres que escreveu um livro chamado 'Fim', não sei se tem traduzido…

ENFIM. O diálogo durou uns cinco minutos: eu sugeria algo, ele já sabia que existia, eu tentava ter outra ideia. Então fica a pergunta: que gringo maldito morando no meio do nada sabe de tantos autores brasileiros? Eu nem conhecia esse livro do Veríssimo. Fiquei chocado.

Se um dia você for pra Bath, visite: vale muito a pena. E estude antes, caso eles puxem conversa sobre literatura brasileira, pra você não passar vergonha igual eu.


Releitura do Ano

Into Thin Air: A Personal Account of the Mount Everest Disaster, Jon Krakauer (1997)

Eu li esse livro quando foi lançado e lembro que fiquei uns três dias malzaço—mas talvez tenha sido depressão adolescente. Depois disso já li umas três ou quatro vezes, e olha que eu evito reler livros.

É o melhor livro de terror que eu já li, apesar de ser não-ficção. Fortemente recomendado, seja pra alpinistas ou pra quem tem medo até de teleférico.


Relação Literária Tóxica do Ano

Michel Houellebecq

Submission ganhou um Motti de Prata em 2016 e foi uma das coisas mais legais que eu li nos últimos anos. Eu lembro do livro toda hora, basicamente a cada eleição polêmica aí pelo mundo.

Ano passado li o Platform e achei bem mais ou menos. As frases geniais de sempre, mas nada tão impressionante. E finalmente peguei o The Possibility of an Island, que eu tinha tudo pra adorar pois é ficção científica do autor mais malvado da atualidade, e achei um saco. Até larguei no meio. Uma pena.

Mas relação tóxica é relação tóxica e não estou pronto pra desistir. Acabou de sair o novo dele, Serotonin, cheio de elogios por aí. Me deixa te amar, Michel.


Troféu Dom Casmurro

Eu percebi uma coisa esse ano. Se a contracapa do livro usa o adjetivo "sensível" pra descrever o livro, eu não compro. Mas se usar "pertubador", ah rapaz, eu já saco o cartão de débito.Foram tantos livros doentios esse ano que ia ser difícil explicar na terapia.

Teve livro sobre babá que mata as crianças (o ótimo Lullaby, Leila Slimani), sobre cara que trabalha em gravadora e mata os colegas— uma espécie de Rick Bonadio do mal (o excelente Kill Your Friends, John Niven), sobre vizinho que mata vizinho (o decepcionante Fear, Dirk Kurbjuweit) e por aí vai.

Mas no fundo eu sou uma boa pessoa, fiquem tranquilos. Rufem os tambores pra o grande prêmio da noite. Os livros de ficção que mais me encantaram em 2018 foram:

3.º lugar: Normal People, Sally Rooney (2018)

Eu não queria gostar desse livro. Eu tentei não gostar. Não é meu estilo. É sobre a história de um cara e uma mina que se amam no colégio, depois na faculdade e assim vai. Sério, é tudo que eu NÃO quero de um livro. E só piora se o livro vira unanimidade.

Mas abri de curioso e preciso admitir: é bom demais, bem-escrito demais, angustiante demais, com diálogos perfeitos demais. Eu ia falar: "se você já teve o coração partido, você deveria ler"—mas isso é exatamente o que me faria não ler um livro. Então não sei o que dizer, mas acho que você deveria ler.

2.º lugar: The Scandal, Fredrik Backman (2016)

O livro começa assim:

Late one evening towards the end of March, a teenager picked up a double-barrelled shotgun, walked into the forest, put the gun to someone else’s forehead and pulled the trigger. This is the story of how we got there.

Agora me diz se dá pra abrir o livro, ler isso e deixar de comprar. Não dá. Não deu. Comprei. E não me arrependi.

Tem ritmo de thriller, mas passa por questões ~profundas~ e atuais que eu não posso comentar aqui por risco de #spoiler, mas que criariam polêmica na timeline do seu Facebook. É um livraço, daqueles que realmente não dá pra largar e que te deixa pensando depois. Recomendado pra qualquer pessoa (menos, talvez, pra Ministra Damares).

Campeão: Dias Perfeitos, Rafael Montes (2014)

Às vezes na vida a gente é tomado por aquela forte emoção e chega a conclusões precipitadas. Então não acreditem muito em mim, mas durante a leitura eu achei que era o livro que eu mais gostei de ler na vida e eu não mudaria uma vírgula de lugar.

É um absurdo. Um absurdo de bom e também apenas absurdo. Foi o mais perturbador de um ano de livros pertubadores. O protagonista é um psicopata, mas a gente vê tudo pelo ponto de vista dele e vê como ele justifica seus atos. É tão sensacionalmente psicótico que, se eu conhecesse o autor, morreria de medo dele. Não é recomendado pra qualquer pessoa.

Na escala do Goodreads, você dá uma estrela pro livro se não gostou. Duas estrelas, se achou ok. Três, se gostou. Quatro, se gostou muito. E cinco, se você amou o livro.

Para Dias Perfeitos, eu daria seis estrelas.


E em 2019? A meta novamente é 36 livros, sendo seis "clássicos", mas sem essa besteira de média de páginas. Além disso, como eu mal leio revistas desde que comecei com essas metas de livros, resolvi ler uma diferente a cada mês.

Pra terminar, se você prometeu que vai ler mais em 2019, entra no Goodreads! É muito legal! Você coloca metas.Você vê o que seus amigos estão lendo. E, no fim do ano, eles fazem uma retrospectiva bonitona com o que você leu no ano.


Gostou? Clima nas palminhas ali. :)

1.º Prêmio Literário Motti, com o que eu mais gostei de ler em 2015: aqui.
2.º Prêmio Literário Motti, com o que eu mais gostei de ler em 2016:
aqui.
3.º Prêmio Literário Motti, com o que eu mais gostei de ler em 2017:
aqui.