Previsão da vida para amanhã

São Paulo, 14 de Junho, manhã de 7 graus.

Quando foi ontem que comecei a bater nas teclas do meu notebook, e nem uma linha sequer consegui finalizar — tudo congelado — , tentava penetrar em minha janela, com entusiasmo, um vento gelado de 5 graus. Passei o dia com as ideias petrificadas. Nada se mexia. Parece-me que hoje, enfim, e não que as coisas tenham melhorado consideravelmente, estou sendo capaz de movimentar os dedos e dar ritmo às palavras.

Quem reside na capital paulista, tomou-se por hábito, recentemente, o banho quente para expulsar a camada glacial que se acomoda na pele. E a mínima temperatura tem provocado comoção coletiva. É que quando submetidos aos extremos, seja em temperaturas muito baixas ou altíssimas, é natural que tenhamos uma necessidade — quase que obrigatória — de expor essa particular ausência de equilíbrio. Assim também acontece quando vivenciamos experiências desagradáveis, e passamos a expulsar pela boca (constantemente?), aos amigos que estão dispostos a ouvir, o que nos aflita. Até que se descubra novamente o ponto de equilíbrio. “Toda virtude é um ápice entre dois vícios: o da falta e o do excesso”, proferiu Aristóteles.

Como prova do raciocínio anterior, meu WhatsApp e as redes sociais, foram encobertos de mensagens sobre a sensação térmica da manhã de ontem. E na mesma hora, pensei: “Como estará amanhã?” Agora com a realidade em mãos, posso afirmar que muito menos dolorosa do que ontem. Por conseguinte, e dentro das variações de temperatura que estamos sujeitos durante o dia, é de outros tempos que me recordo agora.

São Paulo, 2010.

É claro que com exatidão não vou conseguir pronunciar se frio ou calor estava. Nem o dia e nem o mês. No entanto, sobre a previsão do tempo foi dito algo que até hoje permanece em mim grudado. O professor, entre outras coisas, lançou uma pergunta que alma viva na sala de aula soube lidar com a interrogação; tampouco, vislumbrar uma resposta razoável. E depois, tirando o pano que encobria a pergunta, como se estivesse inaugurando alguma coisa, causou ainda mais espanto. A resposta, por sua vez, além de simples, configura-se de alguma maneira em nosso inconsciente. E diariamente, numa espécie de impulso, conferimos a previsão do tempo.

Devo presumir que o amigo leitor deva estar alimentando certa expectativa para ter rapidamente o conhecimento da pergunta e, consequentemente, seu desfecho. Vou pedir aqui uma dose de paciência. Talvez seja possível vivenciar na prática aquilo que pretendo expor. Seguimos em frente…

Se fossemos conhecedor do nosso último dia no planeta Terra, como é que a vida transcorreria? (Não chegamos ainda na pergunta do professor). Anularíamos, tão depressa, a expectativa e a esperança. Sentimentos que, dia a dia, nutrem um grande desejo de crescimento interno, ou de recebermos uma notícia ou presenciarmos uma experiência benéfica e próspera.

A expectativa e a esperança impulsionam o ser humano para frente. Guardam em si a ideia de que o futuro é um lugar melhor. E mesmo que o desconhecido gere medo, haverá sempre boas razões para arrancar as cobertas ao amanhecer e explorar a vida tal qual ela se apresenta.

Viktor Frankl, em seu livro Em Busca de Sentido — um psicólogo no campo de concentração, conta sua brutal passagem pelos campos de concentração Nazista, e descreve seu método psicoterapêutico de como encontrar uma razão para viver. Durante o holocausto, o sentimento de que o dia seguinte nunca chegaria era uma constante por parte de todos. Diante de tal cenário, como era possível alimentar a ideia de vida naquele lugar? Dotado de uma resiliência ímpar, mesmo em condições inexoravelmente precárias, Frankl reuniu força e capacidade para identificar o fator humano que proporcionava a inesgotável vontade de viver de alguns colegas prisioneiros — e nele também — e o abandono total de outros tantos. Poupado diversas vezes, durante os quatro anos que permaneceu confinado, das filas aleatórias que levavam para sala de gás ou execução em massa, Frankl e tantos outros que mantinham a chama da vida acesa, no entanto, guardavam algo em comum: a esperança. Com o seu hábito de conversar com os prisioneiros, registrou diversos sentimentos. E daqueles que acreditavam na continuação da vida, Frankl identificou que todos haviam colocado um objetivo além das grades e, com a mais absoluta certeza, iriam cumpri-lo. Isto é, vivenciaram convictamente o que defini o sentimento de expectativa, que só pode existir na ausência da realidade — quando o objeto que motiva a expectativa não se tornou palpável e real.

É claro que outros recursos foram utilizados na tentativa de conservar a vida. A arte e a invenção de piadas e histórias, por exemplo, quando os olhos dos nazistas não estavam em cima, eram exigências diárias — um meio de fugir da realidade. Mas, era o fiel sentimento de esperança que transformava fraqueza em fortaleza e apontava a direção da sobrevivência.

São Paulo, 15 de Junho, manhã de 7 graus.

Invado meu terceiro dia de escrita neste texto e minha expectativa de terminá-lo persiste. De certa maneira, vivencio na prática aquilo que, das linhas anteriores, venho fabricando. E o amigo leitor, assim espero, me acompanha com o mesmo sentimento, mas em outra condição: aguardando a pergunta, e todo o encerramento do tempo que aqui foi dedicado.

Não querendo mais alongar a expectativa… “Por que a previsão do tempo é transmitida no horário nobre da televisão brasileira?” (Hoje por volta das 21h). Apresento então a pergunta que desde 2010 me acompanha sistematicamente. E não só ela. Mas toda a sua resolução também.

Não há como se esconder. Algum dia vão te perguntar, vão falar a respeito ao seu redor, ou publicarão nas redes sociais a temperatura registrada nos celulares. E todas as vezes que o fato ventila em minha orelha, inicia-se internamente uma tempestade de lembrança e reflexões.

Consolando-se apenas com os recursos da minha memória, o professor dizia que a verificação diária da previsão do tempo indica a manutenção da esperança, e, por consequência, oferece a sensação de que no dia seguinte estaremos vivos. Saber a roupa que usaremos no outro dia é uma espécie de sobrevivência. E, talvez, seja por isso que, vez ou outra, replicamos: “a esperança é a última que morre”.

São Paulo, 17 de Junho, manhã de 12 graus.

Depois de tanto torcer as palavras, tirar os excessos, enxugar mais tantas vezes, e dependurar este texto sobre olhares futuros, vivo, portanto, em uma manhã mais amena.

De todos os dias que aqui vivenciei e, agora, com a troca que presencio com o leitor, crio em mim expectativas sobre as respostas da questão abaixo:

Qual é a previsão da vida para amanhã?

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