O primeiro passo para motivar o seu chefe

Aqui entre nós, está muito difícil defender a figura do chefe incompreendido e solitário.

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Nos últimos tempos tenho sentido vontade de me tornar chefe. Não pela posição. Muito menos pelo salário. É que, da mesma forma que já quis ser pai para ter a experiência de participar da formação de uma pessoa — ideia que passou mais rápido do que um sorriso pelo rosto do William Waack –, desejo colocar em prática as atitudes que, para mim, todo bom chefe deveria assumir.

Digo isso porque, há algumas semanas, um texto polêmico do Meio & Mensagem virou a mesa: você quer se sentir motivado no trabalho? Então que tal parar de reclamar e começar a motivar o seu chefe? O argumento da autora é o de que, para se sentir estimulado a liderar uma equipe e também “acordar animado em uma segunda-feira”, o chefe precisa enxergar o engajamento e comprometimento por parte dos funcionários. Afinal, chefe também é gente, poxa!

Eu concordo que um ambiente agradável e uma boa relação de trabalho depende da contribuição de ambos os lados. Agora, quando a gente analisa o dia a dia e olha de perto como a dinâmica se desenrola na prática, fica muito difícil defender a figura do chefe incompreendido e solitário.

Para começar, a estrutura da esmagadora maioria das empresas ainda se baseia em uma lógica extremamente rígida e hieráquica. Algumas agências e pequenos negócios até experimentam os resultados de decisões mais horizontais. Mas, no geral, a regra persiste na ideia do chefe que manda e o subordinado que — se tiver juízo — obedece.

Não preciso nem falar que, além de ultrapassado, esse princípio abre pouquíssima margem para que o funcionário se sinta confortável para criar propostas e compartilhar opiniões. Como “vestir a camisa” de um patrão que me trata apenas como mais um prendedor no varal? Como engolir que as ordens partem de cima, mas a motivação tem que vir de baixo?

Nosso ritmo de trabalho tem igual parcela de culpa nessa história toda. Gastamos oito, nove, dez horas do nosso dia para cumprir tarefas que, em condições de estratégia e planejamento ideais, seriam finalizadas em no máximo seis. Tudo isso enquanto, em alguns empregos, durante o expediente, não é permitido atender o celular, acessar sites e redes sociais ou mesmo ir ao banheiro sem avisar — sim, já ouvi o relato de gente que tinha tempo contado para usar o sanitário! Regras mesquinhas que não fazem mais sentido nem pra uma turma da quinta série.

Existe ainda outra questão, uma que coaching nenhum consegue dar jeito: pessoas ruins e medíocres tornam-se chefes ruins e medíocres. Ser líder não é ser melhor do que ninguém. É ter conhecimento, demonstrar jogo de cintura e transmitir a segurança de quem sabe lidar com problemas e traçar direções. Apenas isso. No mundo real, entretanto, o que não falta é gente que confunde ser chefe com ser mandão e escroto. Gente que assume o estereótipo de que, para ser chefe, precisa ser odiado. Gente que leva a sério demais a máxima maquiavélica de que o bom comandante é aquele temido, e não amado. Que preguiça!

Da minha parte, afirmo que não é nada legal chegar em casa e encontrar a roomate em prantos porque teve um dia péssimo no trabalho por conta do chefe. Eu mesmo já tive uma experiência desgastante com uma chefe que chegou a me adoecer, pois tudo o que sabia era desestabilizar cada um dos funcionários do escritório. Não é surpresa que uma pesquisa da Harvard Business School e da Universidade Stanford garanta que conviver com um chefe detestável pode ter efeito tão nocivo quanto fumar passivamente. Repitam comigo: é assustador!

Por sorte, já tive a chance de ter chefes ótimas. Gestoras atenciosas, que sabiam discutir uma ideia e que estavam dispostas a tirar as minhas dúvidas e me orientar nos momentos de dificuldade. Porque ser chefe é também ensinar. É ter tato e didática o suficiente para esclarecer a equipe e, se necessário, buscar soluções em conjunto. E essa é uma condição que eu defendo não por ser um Millennium chorão, mas por acreditar que os colegas da minha idade precisam, sim, encontrar um sentido naquilo que fazem.

É claro que nem só de maus chefes se sustentam as infelicidades na vida profissional. Tem gente que ainda não tem certeza sobre os rumos da carreira. Tem gente que simplesmente não está curtindo a função que é pago para desempenhar. Mas também é papel do bom chefe identificar, entre seu pessoal, quem pode estar desestimulado por motivos que extrapolam a rotina do trabalho. Não é como se eu estivesse dizendo alguma novidade, porém a chave é só essa: o diálogo. Ao que me parece, o problema é que muitos chefes se apegam demais ao direito de poder mandar, mas fogem como animais silvestres quando chega a hora de gerir.

Eu sei que você pode estar com vontade de compartilhar esse texto com seu chefe. Ou mesmo de deixar uma cópia assim, despretensiosamente, no meio de alguns relatórios. Talvez seja esse o primeiro passo rumo à motivação da sua chefia. E se você, chefe, estiver aí do outro lado, apenas reflita. No final das contas, ninguém disse que ia ser fácil. Aquela história de que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, aliás, não é só lorota de histórias em quadrinhos.

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