‘Procurando Dory’ traz jornada pelo desconhecido sem ir muito longe

Longa de animação da Pixar recicla ideia de filme original sem ousar

Em muitas cenas de Procurando Dory, a personagem título, que sofre de perda de memória recente, vai se lembrando aos poucos de como era sua infância, fato que lhe ajuda trilhar sua jornada de encontrar o seu passado, aqui representado pela figura dos pais. Tal advento minimiza as surpresas, entregando, no geral, um filme fácil, como um quebra-cabeças de peças marcadas.

A história se passa um ano após os eventos do primeiro longa, Procurando Nemo (que estreou há pouco mais de 10 anos), que culminou em um hit para a Pixar, sucesso tanto de crítica quanto de público. Focado na coadjuvante hilária da primeira história, desta vez, Dory é a protagonista de uma aventura em busca pelo passado. Claro, que logo a história toma contornos cômicos, com muita ação e reviravoltas.

Apesar de se apoiar no carisma da personagem, um dos pontos altos do primeiro filme, Procurando Dory recicla não apenas o arco dramático da ausência familiar, como se apoia em outros filmes do estúdio para guiar o público que espera o convencional.

As várias referências de Toy Story estão espalhadas, assim como os comentários do pai de Nemo, Marlin, puxando o filme original para se auto afirmar após errar com o filho e com Dory. Esse artifício é tão recorrente, que a repetição drama pai e filho, nesse caso filha, fica evidente o tempo todo, chegando a ser cansativo.

Como precisa acrescentar personagens novos para dar uma “nova cara”, novas espécies tomam conta da tela, seja como mero alívio cômico seja com algum arco dramático a ser resolvido (o personagem do polvo, por exemplo). Em quesito de aventura e simpatia, todos eles são eficazes na missão, contribuindo para alavancar a história da protagonista de maneira agitada e divertida. Possuem gírias da moda ou comportamentos naturais, que enriquecem a caracterização (os leões-marinhos roubam a cena pelo politicamente incorreto).

O ponto fraco é que se pararmos para lembrar o que a Pixar já fez até agora, filmes excelentes como Toy Story e seus três longas acima da média, Wall-e (que é do mesmo diretor de Procurando Dory, Andrew Stanton), o próprio Procurando Nemo e, o mais recente, Divertidamente — apenas para citar alguns- é possível sentir uma leve decepção. Existe uma tentativa de incrementar momentos metafóricos ou aquela virada excepcional como é de praxe. Todavia, não existe surpresa.

No quebra-cabeça de peças marcadas, Dory até tem seu charme, se apoiando em piadas como o engraçado “baleiês” e a melhor tirada que vem pelo nome de Marília Gabriela, porém, é ligeiramente inexpressivo e previsível. Comparando o seu lugar no hall do estúdio, ele fica na linha tênue que tem Carros do outro lado, uma aventura que a Pixar oferece para crianças, sem o brilho e genialidade que também conquista os corações adultos.

Aventura por aventura, o cinema de animação está sempre repleto de novidades a cada temporada, o que dificulta memorizar até mesmo filmes menos expressivos da Pixar. Inesquecível aqui só a canção melosa da personagem: “continue a nadar, continue a nadar”.

*Além da aventura de Dory, vale a pena prestar atenção no curta metragem exibido antes, Piper. Uma singela história que comove tanta pela graça em sua execução técnica impecável quanto pela história de descoberta e amadurecimento.