Professores e Escolas: Uma história de traumas

Cena do filme To Sir, With Love (Ao Mestre com Carinho)

O estado de São Paulo possui 5700 escolas, com 1,4 milhão de pessoas matriculadas e é a maior rede de ensino público do país. Sua nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é 3,9 em uma escala que vai de 0 à 10. As metas brasileiras são bastante baixas, e a meta para SP este último ano era 4,2.

Em medições do próprio governo do estado pelo IdesSP (ÍNdice de Desenvolvimento do Estado de SP), a meta é estar na nota 5 em 2030, mas até este momento a média das escolas é de 2,36. Aquela que havia sido a escola melhor ranqueada no ano de 2014, com nota 5,26 , caiu para 1,01 em 2016. Representando 6% do índice de evasão escolar, o 1° ano do Ensino Médio representa o gargalo da escola pública no estado de SP.

Estudei em escola pública a vida toda. Era uma porcaria. Cheguei a estudar nas “escolas de lata”, que eram puxadinhos feitos em containers para abrigar turmas devido o excesso de matrículas e falta de escolas. Era quente, tinha ratos e buracos no piso. Ficavam no quintal das escolas e ninguém podava o mato em volta.

No ano de 2011 e 2012 fui professor de física na categoria O numa escola estadual em Santo André, escola a qual mal ou bem me formou para que eu pudesse prosseguir meus estudos, e onde lecionei principalmente para o 1° ano do Ensino Médio. Era minha chance de retribuição eu pensava. Ao analisar o perfil dos estudantes do 9° desta mesma escola, 55% dos alunos têm índice de proficiência em português considerado básico ou insuficiente no ano de 2011. Este valor aumentou no ano seguinte, onde 62% dos alunos do 9° ano tinham índice de proficiência em português considerado básico ou insuficiente. Em matemática, entre os anos de 2011 e 2013 este mesmo índice para matemática foi de 79% com proficiência básica ou insuficiente, e depois 81%. Estes valores não são oficiais, tendo sido obtidos na comparação com a escala SAEB ( Sistema de Avaliação da Educação Básica) e com base na “Prova Brasil” e podem ser conferidos AQUI.

Em resumo, a escola e as turmas para as quais eu lecionava tinham aproximadamente metade dos estudantes com dificuldades em leitura e compreensão em sua língua materna, e 3/4 deles com sérias dificuldades em matemática. A escola em questão tinha uma prática bastante comum entre as escolas do Ensino Médio, que era de separar as salas em letras, e em ordem alfabética identificar quais as melhores e quais as piores salas. 1° A era a “melhor” das salas, onde todos alunos vieram do 9° ano da mesma instituição. Dali por diante estavam os alunos segregados em salas piores, e no que se chama de profecia auto-realizável, assumiam justamente este papel. Não precisava ir muito longe, o 1°C já era um caos. O 1°D tinha um número absurdo de faltas, e os poucos que estavam em aula não conseguiam ter o mínimo de entusiasmo para estudar. Tinha mais alunos do que as duas primeiras salas, a sala era efetivamente pior (com tacos faltando inclusive) e havia um maior número de mesas e cadeiras em más condições de uso. Nas 4 turmas de primeiro ano que assumi, os perfis de alunos era muito variado, e havia salas onde toda a cadeia de poder do Estado de São Paulo esperava menos dos alunos. 1° C; B; D e F simplesmente eram tratados como cidadãos de segunda categoria por diretoria de ensino, direção, coordenação escolas e professores. Tentar reverter esse peso na cabeça deles foi meu maior desafio. Muito mais do que lidar com as questões referentes às dificuldades de aprendizado.

Escolas não podem ser avaliadas por rendimentos

Quanto menores o índice de reprovação e as faltas, maiores as chances de a escola receber bonificações do governo. A prática, reprovada pela UNESCO no Monitoramento Global da Educação de 2017 é o que comanda a educação no estado de SP, e é uma temeridade. A prática promove e perpetua desequilíbrios, e como podemos ver, até hoje não demonstrou bons resultados. Cada escola que consegue se ranquear minimamente bem o faz a partir dessas medidas segregarias, simplesmente abandonando os alunos mais difíceis, há a tendência de professores priorizarem os melhores alunos, e fazendo com que aqueles que necessitam de mais atenção, reforço e outras alternativas, fiquem largados às traças no final do corredor. As provas do SARESP e etc eram o foco por uma boa parte do ano letivo. Certo dia a orientadora pedagógica me entregou um caderno com as questões do SARESP daquele ano (Prova que mede o IDESP, junto com o índice de reprovações e aprovações, chamado de “fluxo escolar”. Quanto mais aprovações e menos reprovações e abandonos, maior o fluxo escolar.) “Trabalha essas questões com eles, pois aí a gente vai conseguir uma verba maior para ajudar a escola. Mas não conta pra ninguém ;-) ”. Sim, ela me incentivou a ser desonesto. Eu me recusei. “Estamos fazendo muitas coisas importante agora. Não vai dar.”.

Mas não só isso. Mesmo nas turmas A e B, havia crianças expulsas de casa pelos pais, crianças que fugiram da casa dos pais devido a abusos, crianças que se sujeitavam a morar com namorados até uma década mais velhos que elas para evitar pais, mães e agregados abusadores. Crianças com fome, que vinham de longe, que trabalhavam o dia todo. Certa vez, a turma com a qual eu tinha mais dificuldades de ser aceito teve uma confusão. Um estudante do 3° ano (que creio que tinha praticamente a minha idade) de outra sala estava irritado devido uma dívida de um de meus alunos, e eu defendi meu aluno. O nível de estresse era constante. Enfim, há toda uma sorte de fatores que simplesmente não estão nas mãos dos professores e que afetam em muito o desempenho e chances de conquistas de seus alunos, e escolher qual escola receberá mais ou menos verba a partir desse tipo de ranqueamento é não apenas uma ideia míope… É uma obscenidade que perverte todas as melhores intenções para as quais uma escola poderia existir. Nesta conjectura, qualquer tipo de “meritocracia” para avaliar professores é apenas um incentivo à desonestidade.

Professores são os indutores e para-raios dos problemas da escola

O piso salarial no Estado de SP é de R$ 2.415,89. Depressão e Síndrome do Pânico são as doenças mais comuns entre docentes. Quando eu entrei no ensino público, foi substituindo um professor que simplesmente havia sumido após algumas crises de ansiedade na escola. Ele sumiu por meses. Eu entrara no lugar dele, e poderia ser o próximo. Eu entrei pela Categoria O, que é o baixo clero da categoria. Para se ter uma ideia do mergulho que é este poço sem fundo: Em 2017, a partir de um projeto de lei do deputado Carlos Giannazi, os professores da categoria O obtiveram o direito de usufruir do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe). Se o trabalho continuava terrível, ao menos haveria possibilidade de algum tratamento, já que esta categoria não recebe direitos trabalhistas, pois o fato do contrato ter de ser constantemente renovado implica na não admissão de vínculo empregatício por parte do governo. No mesmo ano, este mínimo para dignidade humana foi vetado pelo então governador Geraldo Alckmin.

A tal Categoria O é uma categoria que trabalha por contratos de prestação de serviços, não recebendo direitos trabalhista integral e sendo obrigados a cumprir a chamada “duzentena”, que é um período de quase 200 dias que é exigido o afastamento entre um contrato e outro. Na prática, diversos professores trabalham por 2 períodos letivos seguidos, e ficam sem poder trabalhar por 180 dias seguintes (Este período era de 200 dias, e por isso o nome duzentena). Recentemente a duzentena foi diminuída para 40 dias e o tempo de contrato expandido para 3 anos e 10 meses, devido a falta grave que os 27mil professores da categoria O fariam no ensino público do Estado (13% do total).

A percepção Pública

Quando eu era criança minha mãe falava do filme “Ao Mestre com Carinho”, com Sidney Poitier. O filme conta a história de um engenheiro que se viu desempregado, e então aceitou o convite de lecionar na escola de um bairro operário de Londres. Ele lidava com preconceito, brigas e indisciplina, mas com amor e dedicação venceu todos os desafios impostos pelo sistema, e mantendo-se professor mesmo após a oferta de retorno ao seu antigo cargo. Apesar da história edificante, essa é a percepção pública acerca dos profissionais da educação. Pessoas que trabalham por amor, em uma oposição ao trabalho mecanicista das indústrias. E nós que estamos envolvidos com educação frequentemente caímos nessa ladainha, glorificando o sacrifício e internalizando as múltiplas tarefas de assistente social, psicólogo, separador de brigas. E quem faz isso tudo faz por sentido de obrigação, um pouco de amor e um bom punhado de baixa autoestima. Minha mãe fez o magistério, e sempre viu na educação algo de lindo. Depois de trabalhar muito tempo em empresas ganhando 2 salários mínimos no máximo, estreou como professora no ensino Fundamental I (Com crianças de 6 à 10 anos) de uma escola na periferia. Das história que ela me contou que mais refletem o estado da coisa, estão duas mais marcantes. A primeira é de um menino explicando pra ela como o pai fazia para encher as ampolas de cocaína para vender na rua mais tarde. A segunda é de um menino que teve a mão queimada com ferro de passar como castigo por ter pego uma bicicleta na rua sem consentimento do dono.

Quem são? /Pixabay

Quem são esses professores?

Categoria A: Efetivos. Aprovados em concurso público, têm preferência na escolha de classes, fazem até 40 horas-aula semanais, recebem gratificações e bônus e desfrutam de previdência e plano de saúde do estado
Categoria F: Estáveis. Têm estabilidade, mas precisam fazer uma prova anualmente para garantir aulas, onde quem não for aprovado realiza jornada mínima, que é de 12 horas.
Categoria O: Temporários. A raspa do tacho. Anualmente comparecem às DRE para tentar atribuição de aula através de análise de currículos e pontuação no sistema da secretaria estadual de educação. E se faltar 2 vezes durante o ano, o contrato é interrompido.
Categoria S,V,I: Eventuais. A raspa do tacho do tacho. Mensalmente você luta com outros eventuais para cobrir alguma licença ou é chamado às pressas para cobrir faltas.
Categoria R: Readaptados. Docentes que voltaram de licença por algum motivo e são alocados em outras funções.

Nesse mar de infelicidade, 314 escolas fogem à regra. Uma delas é a “Educador Pedro Cia” na região de Santo André da represa. São escolas selecionadas para receberem o chamado Ensino Integral, e que em geral acabam recebendo propostas de parcerias público-privadas, ou com ONGs na área de educação. Nelas os professores chegam a a receber 75% a mais e ainda são de fato pagos para preparar e pensar em suas aulas e a seleção para lecionar nessas escolas é rígida, levando em conta histórico de dedicação à rede pública. É fofo e funciona bem, mas ainda reflete a ideia de que existem ao menos dois tipos de escolas e alunos: Aqueles com direitos e aqueles sem direitos. E ambos os tipos são embasados pelo governo. Como nem tudo são flores, mesmo nas escolas com ensino integral há problemas, e um deles é a dificuldades de lidar com famílias de vários irmãos, onde frequentemente é papel de quem é mais velho o trabalho de cuidar dos caçulas. Outro ponto em relação à isso é que a escola acaba por conseguir suportar apenas um ciclo por vez (Ou fundamental, ou Ensino Médio) e desta forma irmãos são separados, tornando difícil a aceitação por parte da população com menos recursos.

Este ano haverá concurso para professor do Estado de São Paulo. Estarei lá.