PZ .2/ walk on the wild side

Era véspera de feriado e a cidade estava vazia e foi impossível não pensar em Lou Reed, que há pouco havia morrido. O Martão e o Mineiro inventaram uma intrincada traquitana que, simultaneamente, produz chuva cinematográfica e conduz um carro acima e abaixo pela Farrapos, a mais tradicional avenida dos prazeres pagos de Porto Alegre, o mais histórico paraíso artificial e carnal da capital.

No vai-vém da busca pelo take perfeito, a Floviana, a Ivete, o Japa e a Marlene entravam recorrentemente no quadro, emolduradas por desfocados anúncios de neón e um climão de decadance avec elegance. É ali que Ênio dirige madrugada adentro como quem busca alguma coisa, nem que seja só pela literatura. Se faltar gasolina, vai sobrar a honestidade do alto de seus 15 anos.

Antes de a cena rodar, eu tinha perguntado ao Sandro, o ator que interpreta Ênio, e que sabe do roteiro tanto quanto eu (nada), o que ele achava que iria acontecer com seu personagem naquele after hours.

Acho que ele vai explodir e sair para o mundo.

Me pergunto se ele é forte o suficiente para encarar toda aquela decadência, e quantos Robertos, Andreas, Verônicas, Flavias ou Franciscos ainda vai conhecer nas Farrapos de sua existência, e quantas vezes pensará em ser “James Dean por um dia”, como nos versos de Lou Reed.

Me ponho a pensar no que acontecerá com esse menino perdido na noite, enfrentando a fúria do destino, enquanto eu ouço putas imaginárias sussurrando em meu ouvido, “tchu-tchu-tchu-tchu-tchuru-tchu, tchu-tchu-tchuru-tchu, tchu-tchu-tchuru-tchu. Hey babe, take a walk on the wild side?”

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