PZ .3/ cavaleiros que dizem Ni

As gravações começam logo que a tarde cai. Todos recebem cedo o plano de filmagem do dia e, nas diárias noturnas, um pouco antes das 19h, algumas vans se espalham pela cidade pra buscar maquiadoras, figurinistas, assistentes, elenco e afins. Na minha, que normalmente percorre um itinerário kafkiano pra recolher pessoas que moram muito próximas, a produtora de elenco sempre assume o papel de animadora. A Dani nasceu com o dom de alegrar ambientes, com seu sotaque beeeem porto-alegreeeense.

Foi ela que resolveu batizar o motorista Nivaldo de “Seu Ni”, quando ele surgiu pilotando um furgão novíssimo, perfumado e com um belo tapete vermelho. Era quase um camarim. Melhor ainda se…andasse.

“Seu Ni” pilotava solenemente o carro novo em direção ao set quando olhou para o lado, onde estava a Dani, e disse com uma calma avassaladora: “Acho que a van vai…morrer.”

E ela de fato parou numa rua deserta, a muitas quadras do local de filmagem e poucos minutos antes de o trabalho começar. Parecia uma comédia road movie, pela maneira nonsense como fomos avisados que o carro tinha quebrado, ou melhor, estava quebrando — logo depois de ele avisar, a van andou uns cinco metros até parar definitivamente. Pelo menos estava próxima de um posto de gasolina, pois, na verdade ela parou por falta de gasolina.

Cenas corriqueiras como essa entram imediatamente para o anedotário de um filme. São os mitos e piadas próprias, que vão surgindo a cada dia. Eu, por exemplo, ganhei uma injusta fama de levar azar para as filmagens. O Zé Pedro adora repetir que “tudo estava andando bem até o Ferla chegar.” Mas ele também repete que a carne está crua toda vez que vamos a algum restaurante japonês. E normalmente elogia a comida depois.

Então eu prefiro pensar que tudo não passa de mais um folclore, que na verdade eu dou sorte para o filme. Mesmo assim, nunca mais fui na van com tapete vermelho. Nem chamei o Nivaldo de Seu Ni, apesar de o apelido ter tudo a ver com cinema, e remeter ao Monthy Python e seus cavaleiros que dizem…“niiiiiiiiiiiiiii”.

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