Qual o nosso limite para perceber o talento alheio?

Nem tudo pode ser captado à primeira vista

Piinguinha em foto sem data, com dedicatória de 1945. Fonte: O Globo.

Mesmo negando por um bom tempo, tenho que admitir: sou músico. Durante anos, preferi não falar isso pois, como não vivo da função, soava estranho para mim. De uns tempos para cá, empreendendo no meio cultural, especialmente com o São Bloco, me sinto um pouquinho mais confortável em aceitar e me apresentar desta forma.

Quando comecei a aprender o violãozinho aos 7 anos, ficava imerso nas lições e exercícios. Mas aos 13, quando minha cabeça “abriu” para a música, o processo de comparação veio junto. Era natural olhar as canções, músicos, compositores, arranjadores, descobrindo o mundo das fichas técnicas só para entender o motivo do som x ser “melhor” que o som y.

O tempo passou e ainda vejo músicos aspirantes ou experientes, sem falar nos torcedores, conversando sobre “quem toca melhor”, olhando para pessoas que, aparentemente, tocam a mesma coisa. Afinal, até mesmo quem não tem uma técnica muito apurada, se ensaiar bastante uma determinada música consegue executar bem. Sem falar nos estilos diferentes, onde cada pessoa pode se sair melhor.

Nesse momento, o universo musical se parece com qualquer outro meio profissional. Avaliar o talento alheio é complexo, mas antes de avaliar é preciso definir critérios. Será que conseguimos escolher os pontos certos? Ou só nos preocupamos com o que pode ser captado à primeira vista?


Composição, improvisação e gravação: criar, resolver e seguir a liderança

Depois de algumas conversas recentes sobre a polêmica do “quem toca mais”, me vieram à cabeça esses 3 itens que poderiam definir o que faz um ser humano mais hábil que o outro em determinado instrumento. Achei tão parecido com outras profissões, que preferi fazer umas pequenas traduções sobre cada um.

1. Gravação: seguindo a liderança

Resolvi começar por esse pois, na minha visão, é o que precisa de mais disciplina para se aprimorar e acertar. Gravar é uma tarefa árdua, ao contrário do que pode se pensar. Exige ensaios, dedicação, estudo pessoal, que através de uma boa leitura musical ou memorização das notas, nos faz reproduzir aquilo com perfeição, de acordo com o que alguém arranjou previamente, seguindo a batida perfeita.

Há pouco tempo, fui gravar uma música e, acredite, tive de refazer meu próprio arranjo para que meu “eu músico” pudesse reproduzir. São habilidades diferentes, apesar das intersecções.

A grande dificuldade de gravar, inclusive, mora aí: seguir a liderança daquele que criou a música, sem “criar por cima”, a não ser que essa liberdade tenha sido dada. Como já devo ter escrito algumas vezes por aqui, muita gente precisa se sentir “criadora” para ver a sua contribuição. Mas pouco conseguem enxergar o quanto foram importantes interpretando e seguindo o processo de trabalho que aquela liderança propôs.

2. Improvisação: apresentando outras soluções

Parece mágica! Mas não é. Improvisar, seja da forma que for, no trabalho que for, exige observação e estudo. Afinal, esses dois elementos são essenciais para criar o vasto repertório de soluções mentais que faz com que alguém “do nada” consiga criar algo na hora, dentro da linha harmônica proposta. Ou seja: seguindo as normas do projeto.

Outra coisa fundamental no improvisador é a capacidade de entender a linguagem em processo, aplicando seu repertório pessoal num solo, por exemplo. O poder de adaptação de uma linha melódica ou harmônica não prevista é um dos pontos que deixam o talento pessoal mais exposto.

3. Composição: o poder da criação

Criar sempre será o mais reluzente. É tão importante quanto todos os outros pontos. Mas tem seu brilho especial por conta dos novos horizontes que se abrem a cada nova boa canção que é composta.

Identificar o talento de um criador é fácil quando se está em busca de um. Entretanto, reconhecer o talento alheio para tal função é algo difícil em diversas profissões, o que no meio musical não seria diferente. Temos uma péssima propensão em julgar sem analisar se aquele ponto é criativo ou não através do nosso próprio ponto de vista. Num mundo com tantas pessoas e possibilidades, é impossível que a minha seja a principal.

A composição, assim como a improvisação, é fruto de um repertório próprio, adquirido ao longo do tempo. A ideia inicial pode aparecer num lapso, mas o projeto completo, só com muito trabalho. Paul Mccartney pode ter acordado com “Yesterday” na cabeça, mas aquele arranjo de cordas não surgiu do nada.

Um nota importante é perceber que a diferença entre compor e improvisar se dá no tempo de resposta e complexidade de cada um. Mesmo que ambos sejam fruto de criação, a improvisação exige pensamento ágil e um cérebro ligado. Já a composição, mesmo variando de acordo com o jeito pessoal, precisa de um tempo para aflorar. Não à toa, o termo “Ócio Criativo” ainda é tão propagado por aí.


Esse exercício de achar os fatores para identificar e qualificar o talento alheio pode ser aplicado em qualquer lugar, desde que haja o interesse genuíno em promover pessoas de talento no mundo. Como já percebemos, pequenas habilidades podem nos levar a lugares inimagináveis quando um talento é explorado. Não é todo dia que o mundo produz um Pixinguinha por aí.