Qual o problema da gente com artista bem sucedido (especialmente se for mulher)?

Essa semana está em todos os meios de comunicação a treta envolvendo Taylor Swift, Kanye West e Kim Kadarshian. Não precisa nem que eu explique aqui, porque a essa altura todo mundo deve ter lido sobre, então dá pra resumir: Kanye fez uma música onde fala algumas coisas “lights” como “essa vadia” ou “eu sinto que eu e a Taylor ainda transaremos” etc. Taylor fala em rede nacional que não aprovou a música e que Famous (esse é o título) é sexista e misógena e Kanye diz que Taylor aprovou sim. Começa a treta, que culmina nesta semana, com Kim mostrando o áudio da conversa com Taylor.

O problema é que a cantora começou a ser (mais uma vez) linchada virtualmente, como um alívio de todos que já não íam com a cara dela e que começaram a gritar EU SABIA QUE ELA NÃO TINHA CARÁTER ou ESTOU FELIZ QUE A TAYLOR FOI DESMASCARADA. Uma outra moça disse que as pessoas não estavam criticando a cantora por ela ser uma mulher ou por ser bem sucedida, como argumenta o texto do The Guardian desta segunda. É porque ela curte “publicizar sua própria vida demais e se fazer de vítima”. Aí eu me lembro de um cara que curte publicizar sua vida demais e sempre dizer que não é culpado por nada do que faz: Kanye West. E aí, por que ninguém crucifica Kanye? Ele tentou se justificar quando pegou o prêmio da mão da Taylor, ele está sempre se justificando. Nenhum linchamento acontece.

Taylor não é santa, mas ninguém é. Não somos os perfeitos da internet, e criticar a cantora por estar namorando pra fazer publicidade e todas as ações que sabemos que diversas outras personalidades já fizeram me lembra que talvez não seja só a vibe “Regina George” da Taylor que incomoda tanto as pessoas. É sim o fato de que mulher não pode ser rica, bem-sucedida ou ser uma estrategista de sua própria carreira. Não pode ser chata. Não deve ser dominadora. E, no caso da Taylor Swift: não pode namorar várias pessoas, porque a gente obviamente não faz isso na vida real.

Por que tá tudo bem chamar uma mulher de vadia na música e o errado mesmo é a mulher dizer que não curtiu ou mudar de ideia quanto a ter gostado da parada?

Acredito que temos uma invejinha secreta das “estrelas” de qualquer área que seja. Eu tenho, eu assumo que tenho. Queria ter o diabo de uma estrela na calçada da fama. Queria não me preocupar em controlar meu cartão de crédito, queria não ter que fazer conta no fim do mês e queria ser dona de alguma espécie de império no mercado das artes, qualquer que seja a arte. Queria ser famosa, e acho que mulher pode ter direito a querer ser famosa, isso não precisa ser vergonhoso. Acho que boa parte da nossa raiva para com mulheres como a Anne Hathaway ou a Taylor Swift não se dá só por serem “queridinhas” de onde quer que seja. Se dá pelo fato de que elas têm algo que queremos possuir. Pode até começar pequeno: eu, por exemplo, sinto um misto de inveja e alegria todas as vezes que assisto uma youtuber americana que curto muito montar seu escritório inteiro, contratar funcionários e gravar séries pro youtube, tudo construído com o que montou na plataforma, ao longo de quatro anos, e com a fotografia. Queria ser ela, em alguns momentos. Haja autorreflexão.

Acho que queremos ser um pouco de nossos ídolos — ou dos cantores/atores que odiamos simplesmente por fazerem alguma coisa que não pega bem e que infelizmente vai ser publicizada para o mundo todo (não digo machistas, misógenos, racistas, homofóbicos e aquela galera que a gente não curte simplesmente por motivos de não ter afeição a sociopatas). Ou aqueles artistas que conseguiram chegar num lugar que a gente queria estar mesmo. Quer uma prova?

Romero Britto.

Acabei de me colocar numa cruz e estou esperando que me queimem viva. Mas vamos lá. Eu sou quadrinista e vejo as pessoas hostilizando fortemente o cara, dizendo que ele passou a vida fazendo a mesma coisa e que ele ganha a vida fazendo merda. No começo da minha carreira eu entrei na dança. Até que percebi que o problema não estava nele, e que estou pouco me lixando para o fato de que ele vai pintar paradas coloridas para causar enxaqueca aos menos preparados. Se ele vai viver 700 anos pintando a mesma coisa, o que eu realmente tenho a ver com isso? Se existem pessoas que compram a parada, o que eu REALMENTE tenho a ver com isso? O que a gente quer é que comprem nossas coisas também, não é verdade? Eu sei que você vai dizer que não.

Who. Cares.

O fato é que ele, Vik Muniz, Beatriz Milhazes e outras poucas criaturas conseguiram enriquecer com o que a gente pena pra tirar um extra no mês. E eu não sei você, mas eu queria muito viver de arte. Não conheço quase ninguém que faça isso, e os que faziam antes começaram a desistir. Não importa se eu gosto ou não gosto do trabalho do Britto. O que importa é que ele tem um público. Ele foi esperto o suficiente pra fazer até papel higiênico com o estilo dele, ele vende absolutamente QUALQUER COISA com pinturinhas coloridas do que quer que seja. Ele conseguiu.

Eu, não, ainda não. E nem 99% dos amigos que esculacham a criatura.

Em vez de pensar no trabalho do cara, comecei a pensar nas estratégias que ele usou para fazer do seu próprio trabalho um “império” que permitiu ao Britto ficar rico com o trabalho dele. E antes que você me diga que não faz arte pra ficar rico e faz porque ama, eu queria dizer que também amo o que faço. Mas preciso pagar as contas. E acho que nosso grande problema no meio artístico é achar que tudo bem a gente não saber se vai ter onde morar no mês que vem, o importante é continuar fazendo o que ama. Eu gostaria de poder fazer o que amo morando bem, comendo bem e viajando também, por que não?

Então, depois de sair de Taylor Swift e chegar a Romero Britto, eu penso que a gente precisa mesmo rever por que curtimos tanto linchar artistas, criar hashtags contra eles, tirar foto vomitando na frente de quadro e dizer que essa ou aquela pessoa é mal caráter porque está publicizando a própria vida ou porque fez música sobre essa ou aquela pessoa. A gente também faz merda. Talvez com muito menos dinheiro e sem a ajuda da imprensa para divulgar aos quatro ventos que fizemos merda, mas a gente também faz merda. E antes de crucificar alguém, especialmente artistas mulheres que tem fama de serem antipáticas, se pergunta aí porque mulher não pode ser poderosa, rica, porque não pode ser chata. Por que você precisa gostar de um artista pra que ele seja bom, senão você vai vomitar na frente do quadro dele. E mais importante: por que que a gente precisa realmente julgar tanto outras pessoas — famosas ou não — pela internet.