Quando a vida do outro não te escolhe

e a dor que é entender e seguir em frente.

Nunca fui muito próxima de nenhum primo. Os meus de primeiro grau são bem mais velhos e os de segundo, bem mais novos . A gente sempre se deu bem na medida da distância e das festas em que nos vemos e pronto, nada demais.

Até o dia em que reencontrei um deles em uma balada ( eu nem lembrei da cara dele na hora) e na era do MSN e Orkut passamos a ser os amiguinhos que até então parecia impossível.

Durou dois anos.

Eu estava super traumatizada naquela época, acabara de terminar um namoro por causa de uma situação inimaginável e passar a andar pra cima e pra baixo com um primo mais velho e bonitão fazia com que eu me sentisse a tal. Ele ouvia as minhas confusões amorosas, me acolhia, me levava para ver minhas bandas favoritas. Parecíamos compensar o tempo perdido pela diferença de idade e as voltas que a vida dele dera.

Não sei de onde eu tirei essa ilusão.

Quando eu achava que todas as possibilidades de reatar com aquele cara que tinha traído a minha confiança haviam se esgotado ele reapareceu e eu me empolguei, inclusive em apresentar meu novo melhor amigo/ primo fodão para ele . A empatia entre os dois foi imediata,a ponto de me fazer sentir orgulho da minha boa ação.

Eu poderia ter me poupado de ser descartada novamente.

Meu namoro durou pouco. Não conseguimos lidar com alguns obstáculos, foi melhor assim, embora dessa vez eu não ter contado com o apoio e a tranquilidade do meu primo. Agora ele estava mais preocupado em ficar do lado do cara que foi colocado em sua vida por mim, a ex desnecessária, a prima que de repente se tornou apenas uma pessoa a mais na mesa do bar.

Eu me culpei tanto. Por não ter separado minha vida afetiva da amizade que eu prezava, tentar falar com meu primo sobre mais um término de um jeito passional ( que ele criticava), por não ter sido convidada para o seu casamento.

Por ser substituída.

As novidades dele passaram a chegar até mim em comentários dos meus pais e da minha avó. No começo ouvir era peso e mágoa , depois passou a ser algo que eu não reconhecia.

Passei a entender que não podia brigar com as escolhas de outra pessoa. Principalmente quando eu não sou uma delas.

Doeu muito. Enquanto lutei com a sensação de não ser boa o suficiente para ele perdi a serenidade, a autoestima e só quando entendi que meu primo não me quis mais como sua amiga por motivos que eu não podia controlar, deixei de perder o controle e me encontrei.

Sei que fiz parte de sua trajetória como um sopro impulsivo que o levava à atitudes que hoje ele renega. Num tempo em que eu não me reconhecia como mulher sentir que eu não pertencia a uma realidade que me fascinava me tirou o chão.

Eu ainda não havia desaprendido como me levantar.

Virei uma pessoa que consegue andar com pés firmes, sem se ver somente como alguém que atirava palavras rudes primeiro para depois perguntar se estava correta. Se meu primo não sentiu necessidade de me manter em seu rol de amigos, hoje consigo me redimir da obrigação de esconder como me senti nos últimos dez anos.

Não falo com ele quando nos encontramos não por raiva, mas para me preservar. Assim como sei que ele fez quando saiu dos meus dias.

A gente muitas vezes se tortura para se encaixar onde não nos querem e esse é um caminho desnecessariamente rápido para nos desviarmos do nosso lugar do mundo. Ninguém merece tamanho esforço.

Alguns cansaços são aprendizados, então não se culpe, não esconda se qualquer relação te esgotar, parecer se fechar para a pessoa que você tem sido até aqui.

Se te pesa, se livra. Se não te responde, deleta o número.

Se deixou de te ouvir, não se desperdice. Não deixe a ingratidão te fazer duvidar de você.

Demore-se apenas onde não há tempo a perder.

Tic-Tac

DéboraS