Quando eu aprendi a parar eu mesma (saí da ressaca criativa)

Foto: Berta Salas/flickr

Imagine eu escrevendo esse texto aceleradíssima, com um sorriso no rosto, quase entrando na tela do notebook numa tentativa do word entender meus sentimentos todos e verbalizar. Mas eu tô bem. Essa aceleração é de querer dizer que eu tô bem.

Não vou falar sobre como 2018 foi isso e aquilo (até porque fiz aquela postagem como todo mundo de retrospectiva), na verdade é porque faz mais do que um ano que eu não estava bem, faz mais do que 4 anos que entrei na faculdade e lembro de antes da metade da graduação desenvolver inúmeras coisas ruins dentro e fora de mim. Claro que o estresse que a graduação gera tem seu pingo de culpa, mas o copo cheio foi todo meu. Não é minha responsabilidade os sentimentos e problemas emocionais que desenvolvi, obviamente, é como eu sentia o mundo, como eu respirava os dias e internalizei as noites. A minha responsabilidade foi parar de dizer “eu sou assim” e tentar vivenciar de outra forma o que minha mente queria me mostrar ou transmitia. Era como se eu tivesse me tornado outra pessoa e aceitado essa pessoa que fazia mal a mim mesma — lembrando que também tiveram várias pessoas tóxicas e momentos tóxicos que me jogaram na lama sem eu ver.

Eu decidi ir na terapia depois de 3 anos de conselhos das minhas amigas, de qualquer pessoa que me ouvia ou via meu estado. Decidi ir porque eu sabia que o “não aguento mais” estava se tornando um “não tem porque eu estar aqui, viva”. E a primeira coisa que eu disse pra minha psicóloga — um anjo — foi: por favor, me tira disso
Eu ainda lembro que disse isso sorrindo para não parecer uma tragédia ou tão sério. Eu fazia tantas piadas com meu emocional totalmente desestabilizado e minhas crises de ansiedade que se tornou algo tão banal, se acostumar com a dor.

Não faz nem um ano que iniciei minha terapia e na última semana eu e minha psicóloga descobrimos que eu consigo ver minhas mudanças quando as transformo em algo prático, aliás, tenho sol em virgem. Alguns meses depois que iniciei o processo eu parei de tomar anticoncepcional, parei de comer carne, comecei a fazer caminhadas, voltei a ler romances, me afastei de discussões e debates sobre política, passei a ficar mais tempo sozinha em silêncio em casa e respeitar esses momentos, passo mais tempo com minhas amigas.

Eu não sei qual desses vários passos me ajudaram, ou se foram todos um conjunto de que eu finalmente me levantei, olhei para a bagunça ridícula e hostil dentro de mim e decidi começar a limpar. Sei que todos à minha volta, que eu amo e que me amam, notaram e estão tão felizes quanto eu por mim mesma. Sei que eu já não cobro mais dos outros responsabilidades e correções de emoções pessoais que são só minhas e de mais ninguém. Sei que eu provoco menos brigas, ou entro menos em brigas, sei que depois de alguns anos eu finalmente parei de acordar e dormir com taquicardia, chorando e tremendo. Sei que agora eu não preciso sair do meu trabalho ou me trancar no banheiro porque a crise de ansiedade me deu falta de ar e acesso de choro. Sei que eu estou — um dia de cada vez — me tratando como eu exigia que os outros me tratassem e tratando os outros como seres humanos e não como salvadores do meu-buraco-fundo-e-escuro. Na maioria dos dias eu fico na superfície, faz um tempo que eu não volto pra esse buraco, na maioria dos dias eu me respeito, e nos poucos dias que eu quase caio de volta, eu respeito minhas fraquezas e peço ajuda.

Eu finalmente parei, do verbo parar, respirei, coloquei meus pés no chão, senti a textura, senti a terra, onde eu estava pisando, me localizei em tempo e espaço, me localizei em mim.

E recomendo.