Quando eu desliguei o celular por uma semana

E agora atesto — sem pudor do saudosismo: pelo menos para a nossa saúde, era melhor, mil vezes melhor quando nos conectávamos apenas por meio de um computador fixo, e ainda não carregávamos o mundo no bolso

(Antoine Geiger)

Por precaução, avisei a minha mãe com antecedência e alguns amigos próximos. Ao ser notificado da minha ausência virtual por alguns dias, um deles me chamou de “hippie do Silício”. Dei risada e até achei a piada pertinente, com a crassa diferença que eu não compartilho da mesma esperança dos hippies e muito menos da dos “artistas” do Vale do Silício. (Sobre os últimos, quem me dera, ao menos, se eu tivesse pelo menos uma mínima fração de suas fortunas.)

Enfim, cometi essa irresponsabilidade, essa atrocidade, esse disparate: desliguei meu smartphone e só voltei a ligá-lo novamente uma semana depois. Já era tempo dessa experiência acontecer. Depois de meses travando ferrenho confronto para ver quem, no fim das contas, tinha mais poder e autoridade — eu ou o celular — já era tempo de radicalizar.

Radicalizar, sim. Se a minha intenção, afinal, é aprender a fazer um uso moderado e racional; ter, por fim, o total domínio sobre essas ferramentas digitais, e não o contrário, acredito que é imprescindível atingir, como primeira etapa da experiência, o lado oposto da relação. Se estive, durante estes últimos cinco anos, em conexão com o meu aparelho 24 horas por dia, sete dias da semana (como ocorre com a esmagadora maioria dos jovens brasileiros), era urgente, então, que eu me desligasse totalmente por, no mínimo, uma semana.

Trata-se de um privilégio: dada as nossas relações sociais e considerando, principalmente, as relações de trabalho, ter a chance de se desconectar por uma semana é quase uma utopia da qual somente alguns idosos e crianças abaixo dos dois anos podem desfrutar.

Durante meses, prossegui no seguinte regime: acessar o celular apenas três vezes ao dia — manhã, tarde e noite, vinte minutos cada acesso; e, nos longos intervalos, deixar o aparelho no modo avião. Funcionou por alguns dias e, em outros, houveram fracassos retumbantes.

Até que me deparei com o excelente texto do Raul Cabral França. Trata-se, grosso modo, de uma reflexão sobre o péssimo uso que fazemos do WhatsApp e os impactos de tudo isso. O texto também traz algumas fontes interessantes sobre o tema e discute assuntos relacionados, como o esgarçamento da privacidade e economia da atenção e do tempo.

Foi o gatilho que eu precisava.


(Antoine Geiger)

Eu não deveria ter escrito quatro parágrafos apenas para anunciar que fiquei sem celular durante uma semana. O fato não deveria soar como absoluta novidade, não merecia um texto exclusivo; porém, pelo menos estatisticamente, esse fato ainda é, sim, uma excentricidade, uma completa subversão à norma.

Ainda é o tempo em que estamos atolados e dopados pelos paradigmas que as novas tecnologias, em tempo fulminante e vertiginoso, impuseram no mundo. Em outras palavras: de ano em ano, terminamos sugados pelo vórtice digital. Talvez essa realidade apenas se acentue. Ou então — e espero que assim aconteça — daqui para frente iniciaremos o processo de nos desatolar e criaremos consciência, educação, limites, fronteiras sobre essa relação. Recuaremos o mínimo e, assim, daremos também o mínimo de trégua ao celular, aos aplicativos, aos dados que fornecemos deliberadamente às empresas de tecnologia etc; ou então a fronteira que separa o real do digital, o privado do público, entre outras coisas, irá se apagar para sempre.

Mas fato é que, por enquanto, nem as escolas, nem as universidades, nem o governo, nem a família, ninguém, absolutamente ninguém (exceto alguns especialistas na área que logo perceberam os riscos e consequências e fizeram pesquisas, escreveram artigos científicos, livros etc) pararam para refletir e suscitaram a ideia de que devemos criar uma educação e, consequentemente, uma consciência sobre o uso que fazemos das novas tecnologias.

Disse sobre criar consciência e reforço essa tese. Se afastar do meu smartphone por uma semana foi, mais que tudo, uma experiência de consciência. E o contrário disso, ou seja, a nossa hiperconexão majoritária, é, em boa parte, pura inconsciência. Primeiro porque advém de uma indução sorrateira e não refletida — você meditou, anos atrás, sobre os prós e contras e todas as consequências de se criar uma conta no Whatsapp ou apenas baixou o aplicativo e começou a fazer uso?

E, em segundo lugar — e mais importante: por outro prisma, vivemos na inconsciência do uso dessas ferramentas porque estamos, em tempo integral, dividindo a realidade dos sentidos e da tangibilidade com a realidade virtual, da intangibilidade — vá a uma praça de alimentação de um shopping qualquer e veja que boa parte das pessoas, senão a maioria, está fazendo sua refeição enquanto tem os dedos frenéticos na tela do aparelho, lendo ou respondendo alguma mensagem; ou então com os olhos fustigados, zapeando as histórias do Instagram. Mastigam enquanto usam o celular, mas o corpo mesmo não está consciente dos sabores dos alimentos.

Igualmente acontece nas nossas viagens de ônibus, por exemplo: se presos ao celular, não estamos inteiramente conscientes da viagem. Também em qualquer momento em que intercalamos uma conversa pessoal com o acesso às conversas virtuais: não estamos completamente presentes nem em uma coisa nem em outra. E assim por diante.

“Ah, mas se bato uma foto e depois paro de mexer no celular; ou se respondo a algumas mensagens rapidinho e volto à conversa pessoal, não quer dizer que eu me dispersei totalmente do que estou fazendo”. E o que diz a neurociência: o cérebro demora cerca de 23 minutos para voltar a se concentrar no que estava fazendo inicialmente. Ou seja, seu corpo não conseguirá, imediatamente, retornar à atenção plena na atividade da qual você estava desempenhando antes de desbloquear o celular e se embrenhar no mundo digital, mesmo que por alguns instantes.

Além da percepção da presença, também foi gritante e imediata a alteração da minha relação com o tempo, a rotina em si. Sou, desde à chegada das responsabilidades da vida adulta, um péssimo gestor das horas. Como se eu e o relógio vivêssemos numa inextrincável antipatia. Me atraso nos compromissos, perco a hora para quase tudo. Porém, livre dos portais da dispersão para onde o celular nos leva, administrar melhor minha rotina também se tornou consideravelmente mais fácil. Por que faço uma coisa de cada vez, com maior atenção, minha rotina não somente se tornou mais agradável, menos estressante, mas também mais efetiva.


(Antoine Geiger)

Essa minha noção que divide explicitamente o mundo real do virtual é um ponto de divergência entre muitas pessoas. Há quem discorde e desacredite. Porém eu, do contrário, enfatizo na ideia e na proposta: é hora, mais que nunca, de delimitar bem a fronteira que divide aquilo que considero real (experiência sensível e orgânica, sem o aparato de qualquer outra realidade inventada) do que é puramente virtual, que é onde a imanência do corpo e das sensações não cabem por completo. Repito: delimitar bem a fronteira antes que o Google Glass ou outras ferramentas de realidade aumentada ainda mais sofisticadas e em desenvolvimento apaguem de vez essa linha e torne boa parte das nossas experiências uma simbiose entre a percepção sensível e o mundo “artificializado”.

Talvez seja um exagero, mas, de fato, tudo isso me leva a crer que vivemos num estado progressivo de embotamento da realidade. O advento do mundo digital e todas as suas benesses também nos trouxe, em contrapartida, um profundo desgaste do experimento da realidade sensível: perambulamos pelo mundo num corpo cada vez mais escasso de sensações profundas, duradouras e naturais; num corpo cada vez mais anestesiado e numa mente cada vez mais turbulenta, agressiva, insaciável de informação. Nessa lógica, cada vez que uma nova tecnologia dita a ordem do social, o corpo de cada indivíduo perde em natureza e intensidade.

Em suma — e se tratando apenas de uma correlação entre tecnologia e saúde: o mundo que progride com a tecnologia é, em sentido danoso, um mundo de acessibilidade compulsória, de atomização da presença; dispersão voraz do tempo e fuga do instante; dispersão voraz e hiperatividade nocivas que prevalecem sobre a concentração e, principalmente, sobre os exercícios de contemplação — cruciais não apenas para a qualidade de vida, mas também para a criatividade.

Consequências? No que diz respeito a nossa saúde, uma explosão de transtornos mentais — ou, ao menos, a acentuação de muitos deles: dentre os quais a depressão e a crise de ansiedades são “carro-chefe”.


(Antoine Geiger)

Não podemos esperar que a mãe ou o pai, ou o Estado, ou as escolas e as universidades, nos ensinem como fazer melhor uso dos nossos celulares; pois ninguém mais quer ou pode sair do celular. Portanto, temos que fazer a experiência por nós mesmos; e, com ela, aproveitar de uma profunda análise, um autoexame a respeito da nossa relação com a tecnologia e o nosso tempo, a nossa rotina, a nossa saúde.

Desapegar do celular numa ocasião especial, como numa viagem ou retiro longe da rotina e de casa, por exemplo, é mais fácil e menos transformador que desapegar do celular durante a nossa rotina comum.

De todo esse experimento — que alguns dão o nome cafona de detox digital — , inventei um novo regime que está sendo fácil de se cumprir e, para mim, faz todo o sentido. Acesso o celular apenas uma vez ao dia, na parte da manhã, durante 30 minutos, mais ou menos. Claro que há flexibilidade: em casos de urgência, posso voltar a acessá-lo a qualquer momento do dia — mas isso pouco tem acontecido.

(Sei que nem todos podem cumprir como um regime tão austero como o meu. Muitos dependem de grupos de trabalho no Whatsapp etc. Não é o meu caso e por isso que esse meu hábito, digamos, rigoroso, está bem adequado e faz muito sentido para mim. Devemos criar outros. O que não podemos é nos deixar levar pela acessibilidade compulsória e pela a falta de reflexão.)

No geral, o que estou fazendo é transformar meu aparelho móvel num aparelho predominantemente “fixo”, com a opção adicional de variabilidade de acesso. Porque, de fato, hoje penso — e sem pudor do saudosismo — que a época (até dez anos atrás) em que todo mundo se conectava à internet por meio de um computador fixo (CPU ou até notebook), sentado numa cadeira, em frente a uma mesa, e ainda não carregávamos o mundo no bolso, era melhor, mil vezes melhor — pelo menos (e haja modéstia nesse “pelo menos”) para a nossa saúde.

Talvez essa afirmação tenha soado absurdamente antiquada, blasé. Mas se o mundo muda de maneira tão fulminante, vertiginosa e agressiva, porque minha tentativa de querer conservar um hábito de uma época que nem é assim tão remota deve ser vista com maus olhos ou até anulada? Por que sempre devemos ceder às mudanças frenéticas das ordens que alguns poucos criam e induzem o mundo a segui-las?

Bem, ainda me conhecendo um pouco melhor do que os algoritmos me conhecem, só eu sei o que é bom para mim. 2019 ainda está no começo e já decidi que meu celular, a partir de então, ficará desligado durante quase todo o dia, sem previsão de mudança desse hábito. E assim poderei continuar a ocupar meu tempo muito melhor comigo mesmo — e também com os outros/as; apreciar melhor e de maneira mais intensa o gosto dos alimentos, as viagens de ônibus, as leituras, as conversas e todas as outras coisas que merecem mais, muito mais da nossa atenção nesta curtíssima jornada dos anos em que estamos vivos.