Quando me dei conta de que era adulta

As verdades (boas e ruins) sobre ser o/a dono (a) do próprio nariz

Ilustrações por Cristina Vanko — http://www.cristinavanko.com/

Nunca me levei muito a sério. Acho que essa é uma característica bem forte em mim e que sempre vem à tona quando preciso encarar algum momento de dificuldade ao longo da vida.

Sempre gostei de ser divertida no modo de vestir, de falar e nunca me atentei muito aos anos que passam: aniversário é tempo de comemorar, celebrar a vida, os amigos e tudo o que se conseguiu ao longo do tempo, né nom? Pois bem. Continuo assim.

De uns tempos pra cá, muitas coisas aconteceram de súbito na minha timeline real. Resolvi casar com festa, vestidão branco e tudo mais, assumi novos desafios na carreira, bastante pesados, por sinal, comecei a fazer academia, comer de forma mais saudável e decidi me mudar para uma casa que não é a da minha mãe, nem a da minha sogra, nem de um monte de gente com a qual costumamos dividir as despesas e os afazeres, sabe? Pela primeira vez a casa escolhida será inteiramente minha — e do Mozão — com contas a pagar fielmente no final do mês, com decoração improvisada e móveis doados daqui e dali, bem daquele jeito que acontece com todo mundo vez ou outra. Percebi que agora era oficial: estava me tornando adulta.

Já sabia há algum tempo que a vida não era mais a mesma dos tempos das festas de 15 anos, nem as responsabilidades. Não sei quanto a vocês, mas sempre divido as fases do nosso desenvolvimento em situações: quando começamos a escrever, quando começamos a frequentar as festas com batidas de frutas e bebidas de procedência duvidosa, quando partimos para nossos primeiros chás de panela, substituídos, rapidamente, pelos chás de bebê e posteriormente, quando começamos a ir com certa frequência em velórios. É triste, eu sei. Mas é o ciclo da vida.

Eu já sabia, faz pelo menos uns 10 anos, que parte de ser gente grande é trabalhar duro, receber e pagar por aquilo que se consome e sofrer bastante por perceber que a matemática é mais nossa amiga que imaginávamos, mas nunca, em nenhum momento, tive esse sentimento total de "abandono" como dessa vez. Nunca tinha sido tão inteiramente responsável pela minha própria existência. E vou falar um negócio pra vocês, tenho quase 30 anos e ainda acho desesperador.

Os boletos sempre se multiplicam, mas nosso dinheiro não. E quanto maior o nosso salário, maior também nossos sonhos, nossas recompensas e nossas expectativas. Já falei por aqui que parei de comprar "brusinha" e que isso teve um impacto enorme na minha vida, além do financeiro, mas acho que nunca estamos prontos, de fato, para assumir grandes e importantes custos como um carro, um filho ou um apartamento. E cá estou eu, na terceira opção.

Ser adulto é daora. É bom pra cara***o. A gente pode decidir se come, bebe ou viaja com o nosso dinheiro. A gente não tem hora pra voltar. Pode fazer merda, se arrepender da merda, refazer todas as merdas e perceber, sozinho, que é melhor maneirar nas merdas. Ser adulto é ter um monte de amigos e ter a certeza que tem cada vez menos amigos, é bem esquisito mesmo.

Mas faz parte. E tô cheia de gente nessa jornada comigo. Né?