Quando se tornou tão fácil odiar?

Os operários — Tarsila do Amaral

Antes de qualquer coisa: eu não acho que sou capaz de responder essa pergunta. Não quero iludir quem chegou aqui achando que ia ter a reposta para isso. Então, se quiser lagar o texto no heart feelings.

Não está fácil manter a sanidade mental no Brasil, menos ainda a esperança em tempos minimamente mais sensatos. Temos que ter os ouvidos abertos para escutar o outro lado. É um exercício dificílimo que demanda uma boa dose de sangue de barata.

Mas há de se separar o discurso de ódio de opinião política. Não podemos achar ok que pessoas mascarem seus preconceitos com posicionamento político. Uma coisa é você preferir coxinha a pão com mortadela para o lanche da tarde. Outra é bater palma para falas que vão legitimar o ódio e atos de violência contra existências que são resistências desde sempre.

E se você não percebe que tudo que o inominável prega é baseado no ódio e na intolerância, deixa eu te falar: você está enganado. Você está seduzido por um discurso raso, recheado de frases de efeito e soluções simplistas para problemas incrivelmente complexos.

Há quem encha a boca para falar que não podemos chamar o candidato de corrupto porque não há provas. Mas e as inúmeras provas de seus comportamento machista/misógino/racista/homofóbico/capacitista? Essas vocês ignoram?

Eu não acho que todo mundo que vota nele é um monstro que quer a morte de viado, mulher, negros, deficientes e qualquer outra minoria. Mas não dá para ignorar que essas pessoas flertam com essas ideias, quando vota em um candidato que acha que as “minorias têm que se curvar ou desaparecer”.

Eu arriscaria que o egoísmo levou a esse flerte com a indiferença com o próximo. E em tempos de crise política e econômica é bem mais fácil mesmo pensar primeiro em tirar o “nosso da reta”. A partir daí desumanizar o outro não se torna algo tão difícil.

Digo por mim mesma, em diversos momentos me pergunto como que um ser tão odioso pode ser humano. Mas ele é. O ser humano é isso mesmo ai, cheio de potencialidades seja para o bem ou para o mal. Em tempos como os de hoje é difícil acreditar no lado bom — criei aqui uma dicotomia sim, mas é como o país já está dividido mesmo. Os dois lados vão ter defeitos, sem dúvida, mas não podemos achar que pregar o ódio é apenas um errinho de nada.

Errinho de nada é eu bufar porque o motorista parou fora do ponto ou perder a paciência rápido demais com aqueles que eu amo e prezo. Desejar o extermínio de outro ser humano é MUITO GRAVE. E já ficou claro que se você apoia um candidato que defende esse tipo de comportamento é porque você concorda com ele, se não, você não o escolheria para te representar.

É fácil, muito fácil para todo mundo desejar que o outro que te incomoda simplesmente não exista. Isso para os dois lados. Mas do mesmo modo que a gente aprende muito fácil a odiar, a gente já nasce sabendo amar. Seria bom se algum eleitor dele estivesse me lendo, mas acho que só tenho leitores dentro do minha bolha de segurança e afetos.

Se eu pudesse falar alguma coisa para essas pessoas seria: olha para o seu lado. O mundo é feito de gente igual? Não, é a diversidade que colore o mundo. A diversidade inclusive que nos fez capazes de viver nos mais diversos lugares deste planeta. Não adianta você lutar apenas pelo seu modo de existir. Os outros modos, mesmo que você os destrua agora, vão continuar a brotar. É a evolução, é a natureza.

E no dia que a diversidade não brotar mais, vamos desaparecer. Então, vamos cultivar o diferente para cultivarmos nós mesmos. E para sanar as feridas que agora estão tão doloridas, entrego a minha cura no poder do tempo, esse deus tão lindo.