Laura Pires
Jul 22 · 9 min read
(ilustração por Paula Chimanovitch | contato: pchimanovitch@gmail.com)

Indivíduos são universos inteiros e, em relacionamentos, temos um mínimo de dois universos tentando se abraçar. Idealmente, acreditamos que esse abraço de universos deve ser sempre leve e agradável. Fazemos de tudo pra evitar conflitos e temos a tendência de enxergar conflitos como sinal de algo ruim. Acontece que conflitos fazem parte de qualquer relação, pois as pessoas são diferentes umas das outras e, mais cedo ou mais tarde, sempre teremos discordâncias, sendo algumas delas irreconciliáveis. Como lidar, então, quando esbarramos nesse momento em que a pessoa com quem você se relaciona faz algo que te magoa ou vice-versa? Você pode exigir que a pessoa não faça mais isso? Ela continuar fazendo significa que não se importa com você? Até onde você deve conviver com essas diferenças?

Tudo isso é muito relativo e subjetivo, pois depende de uma série de fatores, que envolvem conceitos como mágoa, liberdade, compromisso, responsabilidade, culpa etc. E, cada indivíduo sendo um universo, é claro que cada um tem suas próprias impressões do que esses conceitos significam em suas vidas pessoais. E são essas as nuances que quero discutir nesse texto.

Autonomia, proibição e transferência

É muito comum, tanto em relações monogâmicas quanto não monogâmicas, o casal dar permissão um ao outro para fazer certas coisas. Essa permissão costuma vir velada em discursos mais brandos do que “você deixa eu fazer isso?”, como, por exemplo, “você se incomoda se eu fizer isso?”. A resposta que é considerada correta nesses casos costuma ser “não me incomodo” e, caso seja “me incomodo sim”, a reação que se espera da outra pessoa é que ela não faça a tal coisa. Indo além, caso a pessoa faça tal coisa, isso é automaticamente relacionado a falta de cuidado, como se fazer algo que incomoda o outro fosse uma demonstração categórica de falta de consideração. Há muitos premissas e ligações falsas nesse modelo.

Primeiro de tudo, entre duas pessoas adultas e conscientes de seus atos, é impossível tratar plenamente dos conceitos de proibição e permissão. Não existe dar liberdade a alguém, porque, pra começo de conversa, livres todos somos. Quando consideramos que é aceitável permitir (e, consequentemente, também proibir) atitudes e comportamentos numa relação, estamos aceitando entrar em uma dinâmica nociva de transferência de responsabilidade.

Essa dinâmica é uma grande armadilha. Conheci um casal que mantinha um relacionamento aberto sem grandes divergências, até o momento em que o cara começou a transar com a melhor amiga. A namorada ficou muito insegura com isso, pois, até então, ele só transava com outras mulheres com quem não mantinha uma relação afetiva mais próxima. Foi uma grande crise na relação e ele perguntou: “Você quer que eu pare de sair com ela?” e a namorada disse que sim. Meses depois, o cara estava chateado porque tinha perdido a melhor amiga, já que aquela proibição causou uma situação chata entre eles dois e eles acabaram diminuindo bastante o contato. Diante disso, a namorada se sentiu culpada por ter estragado a amizade dele e decidiu permitir que ele voltasse a sair com a amiga. Pouco tempo depois, estava magoadíssima novamente e o namorado, confuso com o problema, pois, afinal, ela tinha deixado, então ele não tinha feito nada de errado.

Analisando esse caso da maneira como se deu, a namorada não tinha como sair feliz dessa situação. Se ela dissesse “você não pode sair com ela”, qualquer consequência negativa decorrente disso na amizade deles seria culpa dela, afinal, foi ela quem proibiu. Ao mesmo tempo, caso ela passasse por cima daqueles sentimentos e dissesse que ele podia sim sair com a amiga, se mais tarde ela se sentisse mal com isso, seria culpa dela também, afinal, ela disse que estava tudo bem. Enquanto isso, dentro dessa situação, o namorado parece ser um boneco, sem qualquer autonomia, obedecendo o que dizem que ele pode ou não pode fazer. Acaba sendo uma situação muito conveniente, pois, não importa o que ele faça, a culpa da própria mágoa seria da namorada que deu as ordens.

Considerando-se que indivíduos são autônomos, a situação de pedir permissão não deveria existir, pois ela transfere a responsabilidade da atitude tomada pra quem permitiu ou não. No lugar disso, as pessoas devem conversar para saber o que magoa ou não aquelas com quem se relacionam e aí fazerem escolhas e tomarem decisões informadas, assumindo completa responsabilidade por elas.

Ter mágoa não é ter razão

Ok, mas e se, no exemplo acima, a namorada tivesse apenas dito: “isso me magoa”? Seria responsabilidade do namorado parar de fazer aquilo? E, se o namorado decidisse, com toda a sua autonomia, continuar fazendo mesmo assim? Ele estaria errado? Talvez, mas não necessariamente.

Fugindo um pouco desse exemplo, vamos pensar em situações mais simples. Se um homem cis hétero, em uma relação monogâmica, fala pra namorada que fica muito magoado quando ela sai com amigos também homens cis hétero, talvez ele esteja sendo sincero e fique mesmo muito magoado. Isso não quer dizer, no entanto, que ele tenha razão e que ela não possa ter essas amizades. Inclusive, impedi-la ou coagi-la a cortar relações com os amigos seria uma atitude abusiva em qualquer relacionamento.

Há, no senso comum, uma tendência a acreditar que quem ficou chateado é quem está certo, mas isso não é verdade, porque depende muito do motivo da chateação. Às vezes nos chateamos com bobagens e, ao exigirmos que as outras pessoas (universos completos) enquadrem o comportamento delas no que não nos chateia nunca, estamos limitando quem elas são e tentando moldá-las para nosso benefício. Isso não precisa ser mal intencionado para ser danoso à relação ou até abusivo. Precisamos assumir responsabilidade por nossos sentimentos. O outro pode ser empático ao que você sente e escolher mudar atitudes por isso, mas não é responsabilidade dele fazê-lo e ele não é uma pessoa horrível se escolher não fazer. (Mais sobre isso no final do texto.)

Se me magoa, é porque não se importa comigo?

Uso sempre o exemplo do nariz quebrado. Se uma pessoa te dá um soco e quebra seu nariz, ela intencionalmente te machucou. Se uma pessoa esbarra em você e isso quebra seu nariz, ela não teve intenção de te machucar. São situações diferentes, mas, em ambas, o resultado é o mesmo: seu nariz está quebrado. E agora, o que você vai fazer com isso?

Acredito que raramente as pessoas machucam as outras com intenção. Se você acha que alguém te magoou de propósito, apenas saia correndo. Mas, se aconteceu o mais comum e você se magoou com algo que a outra pessoa nem se ligou que estava fazendo, cabe uma conversa. Mágoa é uma consequência normal de conflito e conflitos requerem diálogo, não ultimatos. Às vezes a pessoa nem sabia que aquilo te magoava.

Outras vezes, a pessoa sabia sim que aquilo te magoava e mesmo assim o fez. Há uma série de motivos pelos quais uma pessoa faz algo sabendo que vai chatear outra: fazer aquilo é uma prioridade pra ela, ela está tentando te proteger de uma chateação maior, ela discorda do seu princípio moral que considera aquilo ruim etc. Não quer dizer que não se importa com você, mas, naquele momento, algo pode sim ter falado mais alto e sido mais importante. E isso faz parte das relações humanas, com pessoas que são diferentes e dão graus de importância diferente às mesmas coisas.

É diferente se a pessoa te magoa deliberada e sistematicamente. Se ela não te dá um soco, mas vocês já conversaram diversas vezes e ela sabe que aquilo é ruim pra você e, mesmo assim, toda hora esbarra no seu nariz e ele quebra, aí fica complicado levar a relação adiante. Assumir responsabilidade por si próprio passa por não ficar sempre pedindo desculpas pelas mesmas coisas e tomar uma atitude para mudá-las — se for entendido que elas são um erro.

Conciliações

É possível, então, manter uma relação com alguém que faz algo que te magoa? Como todo o resto, depende do que é, de diálogo honesto e da boa vontade de cada um para fazer aquilo dar certo.

Tive um namorado cuja namorada anterior, que era o grande amor da vida dele, morreu num acidente de carro. No dia do acidente, ele ficou tentando falar com ela e ela não respondia e ele achou que ela apenas estivesse ocupada. Só no fim do dia soube que ela tinha morrido e que ele tinha até passado pelo acidente mais cedo sem se dar conta de que aquele era o carro dela. Fui a primeira namorada dele depois disso e, obviamente ainda traumatizado, ele me pedia que avisasse quando chegava e ia embora dos lugares. Eu tinha amigas que achavam um absurdo que eu estivesse sempre avisando a ele onde estava e o que estava fazendo, mas eu entendia que aquilo era uma questão forte pra ele e que não custava nada eu me esforçar pra deixá-lo menos preocupado.

O sentimento de preocupação era uma questão dele, decorrente de um histórico de vida dele, e só ele tinha responsabilidade por isso. Mas eu, como pessoa próxima que o amava, escolhia acolhê-lo e vivia dando satisfação sobre o que estava fazendo. Quando digo que esse sentimento era responsabilidade dele e não minha, o que quero dizer é que eu escolhi viver de acordo com o que o deixava mais à vontade, mas pense em uma pessoa que acabou de sair de um relacionamento abusivo, no qual o parceiro controlava todos os seus passos. Se essa pessoa decidisse que não queria avisar o tempo todo onde estava porque se sentia controlada, ela não seria nenhuma grande vilã. Seria apenas um conflito de universos íntimos e que isso precisaria ser conversado. Não dá pra categoricamente escolher qual trauma merece ser mais respeitado. Aliás, usei exemplos de traumas, mas isso também vale para questões emocionais mais simples.

Considerando que as pessoas com quem nos relacionamos têm (e devem ter) total autonomia para decidir se fazem ou não coisas que nos magoam, cabe a nós também ter autonomia para decidir se aceitamos isso ou não e nos responsabilizarmos por nossa decisão. Se decidimos não aceitar, isso não pode ser usado como chantagem emocional, do tipo “se você fizer isso, eu termino com você”. Isso não é uma proibição explícita mas é um tipo de coerção. E, se decidimos aceitar, também não vale depois culpar o outro pelas escolhas que fomos nós que fizemos.

É importante também aceitar o fato de que alguns conflitos são simplesmente irreconciliáveis. Quando aquilo que magoa a pessoa é algo tranquilo de você parar de fazer (como era meu caso com esse namorado, eu não me incomodava de avisar tudo toda hora), ótimo, mas quando é algo importante pra você (sentir-se controlada ou precisar de privacidade, por exemplo), temos um impasse. Seja de qual lado estivermos (a pessoa que não quer mudar ou a pessoa que se relaciona com alguém que não quer mudar), precisamos entender que cortes e separações também fazem parte das relações. Um término ou afastamento não precisa ser evitado a qualquer custo, às vezes essa é a única saída quando os conflitos mexem com questões fundamentais para cada um.

Uma pessoa que teima em tentar mudar pela outra vai fatalmente ficar ressentida com o tempo se não estiver fazendo aquilo de bom grado, por ela mesma. Enquanto isso, ficar tentando mudar os outros é dar murro em ponta de faca. Ninguém sai ganhando. Por isso, não há nada de mau em, às vezes, concluir que aquela relação chegou ao fim de seu percurso.

Caso os conflitos sejam conciliáveis, há também de se ter muita paciência. Um nariz quebrado leva tempo pra parar de doer, por exemplo, independente de a quebra ter sido causada por agressão ou distração. Entender racionalmente que a mágoa não foi causada de propósito não muda que, às vezes, ela requer muito tempo pra ser curada. Mais uma vez, isso só pode ser resolvido com diálogo honesto, tempo e paciência.

Sendo assim, precisamos ser mais empáticos quanto às necessidades de cada um, compreendendo que estarmos chateados não nos dá o direito de sobrepor nossas necessidades às dos outros. Devemos entender que nem sempre vamos nos envolver afetivamente com pessoas compatíveis conosco e que a separação é uma das resoluções disponíveis. Cabe a cada um estabelecer suas próprias prioridades, entender a si próprio e definir o que é ajustável numa relação e o que é “deal breaker”, isto é, um limite irreconciliável, e assim tentar resolver juntos quando for possível e separados quando não for — sem culpar a nós mesmos nem aos outros por isso.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Laura Pires

Written by

Escritora e pesquisadora especializada em amor e relacionamentos. Contato: laurampires@gmail.com

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade