Estamos vivendo tempos em que as pessoas precisam aparecer. As redes sociais estão aí para comprovar. Compartilhamos nossas fotos, nossos textos, nossos gostos musicais e literários, compartilhamos até nosso corpo em aplicativos de pegação. Que todos têm algo a oferecer, parece óbvio, mas será que todos estão dispostos a se mostrar e pior: arcar com as consequência de que aquilo que será mostrado pode não agradar a todo mundo? A grande pergunta é: será que o mundo gostaria de nós se nos visse de perto, como realmente somos?

FONTE: Pressfoto/Freepik.com

Então entra o embate da intimidade versus a extimidade, daquilo que temos dentro de nós, e guardamos apenas para nós, com aquilo que projetamos e desejamos que o outro veja. As redes sociais não servem, então, nada mais do que transformar nossas identidades em mercadorias sobre as quais aplicamos as nossas estratégias de marketing pessoal. Essas estratégias podem ser as mais variadas. Seja para arrumar um parceiro, seja para conquistar fãs, seja para conseguir um emprego. Assim, como ao abrir um guarda-roupas, os indivíduos dos dias de hoje se deparam com identidades prêt-à-porter, ou seja, prontas para usar em qualquer ocasião.

Contudo, o que as pessoas mais querem vender é legitimidade. Ou seja, que elas são verdadeiras e que o outro, ou os outros, podem comprovar isso. As pessoas querem afirmar que as suas opiniões importam e que as tornam importantes por proferí-las. Proclamar uma opinião, acaba, sem perdão, representando uma identidade. Assim, ao estabelecer uma identidade, o sujeito estará se submetendo à aprovação ou não dos outros. Ou seja, ao proclamar uma opinião, o indivíduo põe em xeque sua identidade. O velho discurso malandro do “se colar, colou”, acaba se tornando uma forma de vender a si próprio para o outro. Da maneira que o tal fetiche da mercadoria de Marx acaba convergindo sobre a identidade e à intimidade dos indivíduos, que querem, custe o que custar, estabelecer uma relação de poder sobre os seus companheiros.

FONTE: Aaron Quinta Soares (Cargo Collective)

Porém, como exercer esse poder sem se identificar com alguma proposta, ou arquétipo ou situação? Impossível. É necessário que o indivíduo tome lados. Não é por acaso que inúmeras propagandas veiculam mensagens do tipo: “você tem que ter personalidade” ou “você tem que ter atitude”. Pois sem personalidade ou atitude, o sujeito será engolido pelo rolo compressor da sociedade que não permite apatia e nem nihilismo. No discurso da sociedade da era digital, todos têm de fazer diferença. Entretanto, essa diferença não vêm de se posicionar e tomar realmente alguma atitude, mas principalmente de parecer que se enquadra dentro de uma determinada identidade.

FONTE: Randi Fenoli/ Say Yes To The Dress (Divulgação).

Hoje é comum vermos livros, filmes e outros produtos do entretenimento insistirem na ordem: “Você tem que ter uma experiência transformadora”. Os reality shows de canais como Discovery Home & Health, TLC, entre outros, estão recheados de exemplos assim. Então, todos nós buscamos essa experiência em nós mesmos. Aquele momento que nos fez abrir os olhos e ver como tudo mudou. Então nesse momento, sim, nós encontramos nossa verdadeira personalidade. Nossos 15 minutos andywarholísticos de fama. Todos vão aplaudir e seremos uma casca de aparência e transformação superficial. Pois apenas se transformam aqueles que estão dispostos a verdadeiramente se transformarem, a tomarem atitudes que são maiores do que uma opinião contestadora no Facebook. Pessoas que assumem para si uma identidade ou personalidade que não, não vai agradar a todos como num extreme makeover de um reality show. Que vão encarar desafios que levarão apenas a si às lágrimas e não a uma platéia lotada em um cinema.

FONTE: Twitter

Esses dias eu li no Twitter uma frase que dizia o seguinte: “Eu não sei como explicar para você de que você devia se importar com as outras pessoas” e a pessoa que tuitava dizia: “Isso é mais ou menos como a política nos dias de hoje”. Existem as pessoas que querem essa subjetividade apenas para elas, tem outras que querem conhecer a subjetividade do outro e querem entender, compreender o outro e, quem sabe, ajudar. As pessoas choram ao ver um filme como Jogos Vorazes, mas ao passar por um mendigo, só faltam chutar e cuspir.

Hoje quando eu passei por dois mendigos que estavam debaixo de um toldo, eles estavam conversando o seguinte: “Tu viu que a cidade vai parar amanhã, né?” “Por quê?” “Porque vai ter greve geral!” “Greve geral?” “Sim, é contra o Temer, ele quer acabar com as aposentadorias e mais um monte de coisas, isso não se faz”. Eu achei curioso, que um cara que vive na rua, que não tem trabalho, sequer uma casa, esteja preocupado com as pessoas que não vão poder se aposentar. Quando políticos e empresários cheios da grana não estão. Mas a explicação é fácil e não fique aí enrolando, que você sabe a resposta. Tá lá no parágrafo anterior.

FONTE: Freepik.com

Essa é a sutil diferença entre caráter e personalidade. Muitos políticos têm personalidade, mas não têm caráter. Muitas pessoas, muito simples e quietas, podem não ter personalidade, mas têm caráter. David Riesman define assim, caráter está “denotando uma solidez interna na qual hospedam valores ligados à estabilidade, à palavra e à confiança para além do que se vê. Já a segunda modalidade de auto estilização, que, em vez de se assentar sobre a densa base da própria interioridade psíquica, aposta nos efeitos que é capaz de provocar nos outros, recebeu o expressivo título de personalidade”.

FONTE: Saraiva.com

Nas prateleiras das livrarias saltam títulos de livros tais “Como fazer amigos e influenciar pessoas” e as produções hollywoodianas encheram nossa cabeça com memes do tipo “Seja você mesmo”. Mas quem é você mesmo? Já parou para pensar se, em primeiro lugar você é verdadeiro consigo mesmo? Se tem um caráter maior que a personalidade? Em que bases você se define? Que valores você se sustenta? O que te faz ser quem você é? Antes que você possa me responder, eu venho com uma outra pergunta: Nós não estamos mudando o tempo todo? Então como vamos ter certeza de ser quem achamos que somos? Será que não somos o que o outro pensa de nós? E aí vem a inquietação e a dúvida da frase do Twitter: “Eu não sei como explicar para você de que você devia se importar com as outras pessoas”.

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Guilherme Sfredo Miorando

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é publicitário e tenta muito fazer o mundo inteiro gostar de quadrinhos. Seu blog sobre HQs é splashpages.wordpress.com

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