Quem Sustenta o Oriente Médio?

A resposta não é o petróleo

Por Cassius Gonçalves & Alta Coetzee

No primeiro plano, vista do Dubai International Financial Centre e ao fundo à esquerda, o Burj Khalifa, o maior edifício do mundo. Esta região simboliza a opulência do desenvolvimento experimentado no Oriente Médio. [Imagem: theodysseyonline.com]

O Oriente Médio é um lugar controverso. Ao mesmo tempo é a terra do luxo e do medo. O melhor e o maior estão localizados em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), uma Disneylândia para compras. Tal realidade não difere em outros países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — Qatar, Arábia Saudita, Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos. As estatísticas a seguir refletem quem são os responsáveis por tornar areia em diamantes.

População de Omã

Os indianos representam a maior comunidade de expatriados no sultanato. A população total de Omã é de 4.443.663 habitantes, conforme dados oficiais de 2016.

População do Catar

No Catar os indianos também representam a maior comunidade de expatriados, conforme dados de 2013. A população total do Catar em 2016 é de 2.256.994 habitantes.

População do Emirados Árabes Unidos

A população dos EAU é de 9.581.000 habitantes, conforme dados de 2015. Indianos formam a maior comunidade expatriada.

Esses três países do CCG espelham a realidade dos demais membros: pequena população de locais e grande número de expatriados. A população local é seguida por Indianos como segundo maior contingente. Paquistaneses, Filipinos, Indonésios e outras nacionalidades formam a mão de obra para serviços básicos nestes países. Esses atuam, na sua maioria, como empregados domésticos, babás, jardineiros, atendentes de lojas, caixas, enfermeiros, profissionais técnicos, etc. Outras ocupações similares são sempre preenchidas por expatriados.

Americanos, europeus, a "alta casta" indiana e outras nacionalidades preenchem cargos executivos nas altas posições empresariais.


Países Árabes: Origem

Os árabes estavam unidos sob o Império Otomano, que se esfacelou durante a I Guerra Mundial. Com o espólio do antigo império surgiram os países ao norte da África e na península arábica. Síria, Jordânia, Iraque, Líbano, Arábia Saudita, Qatar, Oman, Yemen, Emirados Árabes Unidos, Kuwait Bahrein — na península arábica — e os demais no norte da África apareceram no mapa político após a guerra. Caso queira compreender melhor este tópico, leia "The Arabs: a History”, de Eugene Rogan — "Os Árabes: uma História", numa tradução livre e ainda sem versão para o português.

A extração do petróleo na forma como hoje conhecemos ganhou impulso na década de 1930. Os países acima mencionados foram construídos com os recursos advindos dos royalties da exploração. Um novo movimento favorável aos países produtores ocorreu com a formação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 1960. A segunda geração de governantes estabeleceram projetos de longo prazo, cujo resultados começaram a surgir por volta da década de 1990.

É importante entender a mentalidade destes governantes. Seus países são monarquias. Embora alguns deles não recebam tal título, seus líderes governam sob esta mentalidade. Além do mais, tal mentalidade monárquica é muito próxima da lógica da empregada no final do século XIX, embora adaptada a realidade do século XXI.

Deve-se considerar a cultura patriarcal. A figura de um líder forte, central, homem, de idade, é uma regra essencial na cultura Árabe, bem como sua religião e sociedade. Por causa disso, a democracia não se adapta bem a este molde cultural. E entender a tal realidade soa estranho e até incompreensível para os ocidentais.

Um árabe nunca negociou e nem negociará sua cultura e religião. No entanto, negociou e negociará tudo que for preciso para a manutenção do seu status quo, aquilo que possa beneficiar quem está no comando. Com o desenvolvimento do capitalismo, estes países importaram cérebros para gerir todo tipo de desenvolvimento e projetos necessários no mundo árabe. E os países do CCG foram os grandes beneficiários disso.

Mas, quem está por trás deste desenvolvimento experimentado no mundo Árabe? David Heard apresenta como tal processo ocorreu em seu livro "From Pearls to Oil" — "Da pérola ao petróleo", numa tradução livre e ainda sem versão para o português. Americanos e europeus, principalmente, são os responsáveis por todos os benefícios e prosperidade do Oriente Médio.

Tais governantes permitiram que empresas americanas e europeias extraíssem o petróleo. Por sua vez, investiram royalties recebidos em infraestrutura, saúde, segurança, educação, etc., de acordo com D. Heard. Caso visite algum desses lugares, encontrará o "melhor de qualquer coisa do mundo" por lá. Infelizmente, se for numa empresa de qualquer setor, ou qualquer outra instituição privada onde a mão de obra árabe é parte dela, perceberá que o local não é a pessoa à frente e nem é o responsável pelos resultados alcançados em seus países.

O oásis é o símbolo de vida e refúgio no deserto. Líbia. [Imagem: miriadna.com]

A Cultura Familiar

O árabe é encorajado a ter muitos filhos. O pai de uma família numerosa é visto como uma pessoa próspera. Se ele tem mais homens do que mulheres, mais abençoado e próspero ele é.

Cerca de 50 anos atrás, sua riqueza e prosperidade vinham da pecuária (camelos, ovelhas, cavalos e jegues); da agricultura (tâmaras) e da pesca, para os que viviam ao longo da costa. Era normal encontrar vários trabalhadores fazendo o serviço mais pesado. Era comum ter empregados, mas a relação de trabalho era semelhante à feudal: cada tribo tinha seu patriarca, sendo ele e sua família atendida por esta mão de obra servil.

Além do mais, muitos árabes consideram sua cultura superior às demais. Por causa disso, em seus países, alguns terão um comportamento de superioridade em relação às pessoas de outras nacionalidades, religião e cultura.

A maneira como um Árabe se porta em público é de extrema importância, pois, culturalmente, ele precisa parecer bem. Assim, muitos exibirão carros caros, viverão em casas e bairros nobres, estarão sempre bem vestidos em público, tudo para transmitir esta imagem de prosperidade.


A Falta de Tradição Educacional

Até a década de 1970, muitos árabes eram beduínos e outros tantos nômades. Isso evidencia que a educação não teve um lugar de destaque nestes países oriundos do pós primeira guerra. Somente nas capitais havia escolas para os filhos dos membros da elite, que recebiam formação em escolas privadas, isto quando não eram enviados para estudarem na Europa ou Estados Unidos, movimento que ainda ocorre. A partir dos anos 70 ficou evidente a necessidade de um novo paradigma educacional, então, várias instituições de ensino foram estabelecidas.

Por não terem professores vindos dos seus, os governantes buscaram vários deles nos países ocidentais. Muitos desses professores expatriados construíram a base do sistema educacional contemporâneo árabe. Atualmente, muitas escolas árabes possuem níveis de qualidade de ensino similares ao padrão internacional.

É interessante como a história acontece. Na transição da Idade Média para a Moderna, o ocidente teve um grande intercâmbio cultural aprendendo muito com a cultura árabe, ironicamente.

Se você compara a centenária tradição educacional europeia com os últimos 50 anos dos países árabes, fica evidente que eles não estão aptos a participar do jogo do capitalismo atual.

Infelizmente, a prosperidade jorrada pelos poços de petróleo deu as nações árabes um falso senso de compromentimento. Eles são considerados os mais ricos do mundo. No entanto, faz-se necessária uma pergunta: se os cérebros importados da Europa e Américas, a mão de obra para serviços pesados e básicos dos indianos, paquistaneses, filipinos, etc., deixarem estes países, estas nações conseguirão prosperar contando somente com sua população local?


Oriente Médio: Com ou Sem a Mão de Obra Expatriada?

Por que o gráfico de Omã é diferente dos outros dois países?

O Sultanato de Omã é um país cujo governo demanda da iniciativa privada o preenchimento de uma quota de postos de trabalho com mão de obra local. Este índice pode chegar a 65%. Tal política é chamada de "omanização". A razão de tal demanda reside no fato do governo não ser capaz de empregar os omanis no setor público e manter uma política de bem estar social para o restante da população no longo prazo. O governo busca uma solução antes do problema existir de fato.

Omã é uma monarquia absolutista hereditária. A dinastia Al Busaid governa o país desde 1744. Sultão Qaboos bin Said é a 14ª geração no governo.

O Sultanato de Omã celebrou 45 anos do reinado de Sua Majestade Sultão Qaboos bin Said em 2015, um dos mais longevos na atualidade. A população tem grande apreço e o respeita muito. Ele depôs o pai, Sultão Said bin Taimur, ajudado pela coroa britânica. Seu pai pouco fez pela população, que vivia em estado de pobreza.

Vista parcial de Muscat, capital do Sultanato de Omã. Um lugar onde tradição e desenvolvimento se encontram. [Imagem: wotif.com]

SM Sultão Qaboos bin Said é um contraste ao governo anterior e é totalmente dedicado ao desenvolvimento de sua nação. Em 45 anos ele retirou Omã de uma situação de atraso e fez dela um das mais prósperas da região e com capacidade de desenvolvimento. Para comparar, em 1970, ano que iniciou seu governo, havia em Omã uma escola primária, um hospital, não existia rodovias, parte de Mascate (atual capital) contava com energia elétrica, conforme narra Ian Gardiner, general britânico que lutou ao lado de Qaboos, em seu livro "In the Service of the Sultan" — A serviço do Sultão, numa tradução livre, ainda sem versão para o português.

Após a reconstrução da nação, a primeira geração de omanis deixou as universidades locais nos anos 2000 e inicia sua jornada no mercado de trabalho. Mas, sem uma educação com tradição, não há ainda um número suficiente de omanis capaz de assumir as posições ofertadas nos negócios do setor privado estabelecidos no sultanato, principalmente nas posições executivas.

Do ponto de vista das empresas, elas estão trabalhando com uma mão de obra local ainda em desenvolvimento. Por causa da exigência do preenchimento da quota de omanização, a iniciativa privada enfrentará este problema por mais algumas décadas. Como consequência, a mão de obra expatriada necessita ser de alta qualidade e trabalha dobrada, capacitando o local e ao mesmo tempo suprindo suas deficiências. Por causa disso, o mercado pode considerar a mão de obra expatriada alocada no Oriente Médio como uma das mais eficientes e preparadas no mundo.

Do ponto de vista do governo de Omã, ele é o único dentre os países árabes que atualmente tem uma política explícita de capacitação e empoderamento da mão de obra de sua nação, visando um futuro quando não será mais necessário depender dos expatriados para gerirem os negócios privados. Razão do gráfico populacional ser contrário aos demais países.

O capitalismo foi a opção econômica feita pelo governo de Omã e o papel dos investidores privados é capacitar a mão de obra Omani e não somente preencher postos de trabalho com o local por exigência. Esta relação de troca é explícita entre governo e investidores.

Os resultados de sua política de empoderamento e capacitação da mão de obra local surgirão no longo prazo, caso mantenha este direcionamento.

A população local parece não compreender os benefícios da política implementada por seu governo. A mentalidade ainda reside na longa e forte cultura árabe de ter alguém para trabalhar por eles. Alguns dos mais antigos vêm os expatriados como ameaça e isto cria argumentos para o debate político mais nacionalista. Expatriados são vistos como "servos modernos de luxo", até mesmo os executivos e investidores, apesar desses terem mais respeito por parte da liderança local e da singularidade da tradição religiosa e cultural árabe.

É explícito que os países árabes terão dificuldade dentro dos moldes do jogo do capitalismo atual se abrirem mão da mão de obra expatriada num médio prazo.

Restam duas questões a serem observadas daqui em diante:

  • O que os locais estão fazendo hoje?

Tal questão traz outra consigo:

  • Sem os expatriados, o Oriente Médio será capaz de se sustentar no longo prazo?
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