Quero ser livre para comprar um escravo

Queremos um novo governante ou nova forma de se fazer governo?

“A qualidade de uma sociedade pode ser percebida pelo número de vítimas que ela produz.” — Pe. Jose Comblin

Uma das primeiras atitudes de um liberto no Brasil escravagista era comprar um escravo. Assim, o alforriado estava quite com a sociedade e o sistema vitimário da época, sendo uma vítima e produzindo outra.

Este comportamento é descrito pelo historiador Manolo Florentino, professor de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, junto com vários outros que dedicam sua linha de pesquisa a entender a escravidão que vigorou no Brasil Colônia e Império.

Na mesma linha, o pesquisador argentino Walter Mignolo aborda o antagonismo entre "libertação" versus "emancipação". A libertação só é possível quando há uma troca de sistema, é uma pessoa lutando por ela e por todos. A emancipação é quando a vítima ascende na escala de poder deixando de ser vítima, mas ocupa o poder nos mesmos moldes de quem a fazia vítima.

Para exemplificar, quando o escravo torna-se liberto e compra outro escravo, ele possui emancipação, pois usa as regras do sistema em vigor a seu favor e não possui nenhum interesse em mudá-las (ou consciência para tal). Ao fazer isso ele se tornava parte da sociedade vigente, um igual, exibindo os signos de status existentes na hierárquica sociedade portuguesa, mesmo que emulado e tolerado; como explica a Doutora em História da Federal do Espírito Santo, Adriana Campos. Foi o caso de Xica da Silva, uma ex-escrava que tinha escravos.

Já a libertação requer uma mudança por completo. Quando Martin Luther King lutava pelos seus direitos de igualdade na sociedade americana, ele os considerava para si e também para os demais negros. Em um dos seus discursos disse:

A liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido.

Corre a máxima no Planalto Central que "político só tem medo de povo nas ruas". Se o oprimido, a vítima do sistema, não lutar por mudanças, quem está no poder, o opressor, não fará nenhuma transformação. E disso cada brasileiro entende muito bem. O brado por libertação precisa ser para todos, pois o rico e o poderoso não têm interesse nas mudanças de sistema. Como diz o teólogo Ed René Kivitz:

São as vítimas que têm a esperança, o anseio e o clamor pela transformação e pela mudança.

Quem está no poder não tem empenho em promovê-las, pois está em condição favorável. Para o dono do poder, conceder mudanças é perda.

O Brasil de hoje precisa de um nova forma de pensar, de um novo sistema. E isso não tem nenhuma relação com a aberração recém proposta do semiparlamentarismo/semipresidencialismo — escolha sua perspectiva. O que vemos são pessoas querendo mudar quem governa, mas não a maneira de governar. Lutam por si ou por seu grupo de iguais, mas não por todos, apesar de usá-los, em ambos os lados. Quem optar por essa aberração ou algo que defenda somente a "dança das cadeiras", busca por uma "emancipação" do que está posto e não por uma "libertação".

Nem mesmo podemos seguir os passos daqueles que eram vítimas, mas quando alcançaram o poder, ao invés de promover mudanças sistêmicas e libertação, se corromperam e apossaram do velho sistema, como o escravo que conquistou sua alforria, mas comprou um escravo para si. Esta é a nossa realidade atual.

Os movimentos que ocorrem precisam dar poder e ferramental para as vítimas do sistema atual — por sinal, falido e protetor de uma oligarquia histórica. Precisamos de uma nova libertação, sem messianismos e aventureiros, baseados em um projeto de nação de longo prazo, algo inexistente até o momento. É a vítima quem tem capacidade de apontar os novos caminhos.

Não está apto para o tempo futuro quem pensa com a cabeça dos antigos governos e do sistema atual.

Não precisamos substituir pessoas, precisamos substituir uma mentalidade.


Inspirado na palestra dos teólogos Ed René Kivitz, Ariovaldo Ramos e Harold Segura.

Cassius Gonçalves é historiador, especialista em memória empresarial e iniciou sua vida de pesquisa estudando escravidão. Já montou vários centros de memória empresarial e escreveu outros tantos livros corporativos, no Brasil e fora.

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