Quero voltar para casa antes dos meus filhos dormirem

Gosto muito do meu trabalho, mas faço de tudo para chegar em casa cedo. (crédito da imagem: Eric Messa, o pai)

Por volta dos 3 ou 4 anos, começamos a sacar que as coisas do mundo não seguem sempre o mesmo sentido. No halloween por exemplo, nossos pais nos incentivam a colocar uma fantasia e bater de porta em porta para ganhar doces. Mas depois quando voltamos pra casa, eles se assustam com a quantidade de doces. O prêmio do dia, muitas vezes é confiscado. Não faz sentido.

Incoerências semelhantes (na verdade, ainda mais sérias), seguem pela vida toda. Eu cheguei numa fase particular da minha vida em que um dilema da paternidade tem ocupado meus momentos de reflexão.

Não há dúvidas de que temas relacionados à maternidade e paternidade alcançaram um momento particular no mundo, principalmente por conta da preocupação da sociedade com a formação de um indivíduo que tenha uma forte participação da mãe e do pai em sua criação. Há inclusive, um possível ressentimento de uma geração anterior que sofreu com pais ausentes.

Bom, mas na contramão disso tudo, vem a pressão do trabalho. A mesma que fez a geração anterior não ter tempo suficiente para seus filhos. Não sei dizer se a situação melhorou ou piorou, mas sei que hoje é comum ver pessoas que trabalham praticamente 3 turnos. Mães e pais que saem muito cedo de casa para trabalhar e retornam só depois das 10 horas da noite, quando seus filhos já estão dormindo.

No meu caso, isso acontece duas ou três vezes por semana. Me sinto até no lucro, pois nos demais dias dias da semana, consigo chegar em casa para estar com meus filhos no jantar, depois dar banho e por fim, colocá-los na cama para dormir.

Nem todo mundo tem essa benesse. Conheço pais que passam a semana toda chegando só depois das 22 horas. É visível no rosto desses pais a angústia de não poderem conviver diariamente com seus filhos afinal, era essa a expectativa deles e da sociedade na qual estão inseridos.

Essa pressão profissional, como citei acima, não é de hoje. Nos anos 90 estava na moda algo que ficou conhecido como “reengenharia” e que na prática, fez muita empresa diminuir o quadro de funcionários em busca de uma estrutura mais enxuta e eficaz. Quem não foi demitido, acabou assumindo mais trabalho.

As empresas nunca deixaram de buscar equilíbrio financeiro diminuindo o número de funcionários. Se somarmos a isso o movimento de juniorização das equipes, chegamos aos dias de hoje em que vemos profissionais tendo que trabalhar muitas horas por semana, pois chegam a desempenhar o trabalho que antes era realizado por dois profissionais. E muitas vezes, também acabam ficando até tarde pois precisam corrigir erros cometidos por gente da sua equipe que é ainda muito jovem e inexperiente.

E finalmente, trago para consideração outro fator do qual posso falar com mais propriedade: o avanço da tecnologia de comunicação. O meio digital e as redes sociais só complicaram esse cenário todo que eu apresentei até aqui, já que pessoas do trabalho podem por exemplo, acionar outra pessoa da equipe pelo celular, sem saber se ela está no trabalho ou em casa (na verdade, muitas vezes isso pouco importa). É comum ver pessoas recebendo no celular, mensagens relacionadas ao trabalho, mesmo quando elas já estão em casa, tarde da noite.

O mesmo acontece com mensagens de familiares e amigos, que exigem atenção para resolver algum assunto, mesmo quando a pessoa está em seu ambiente de trabalho, em meio a uma reunião, por exemplo.

Claro, é preciso fazer um contraponto afinal, o trabalho também é importante e quem me conhece, sabe que o trabalho também é uma das minhas prioridades.

Você pode responder mensagens de amigos e familiares no meio do trabalho bem como trocar mensagens com colegas de trabalho no fim de semana, basta ser objetivo e pontual nessas comunicações.

Afinal, nem todos os dias você poderá voltar para casa na hora do jantar. E nesse momento, vale lembrar que as frustrações também são importantes, tanto para os pais como para os filhos.

Elas não são só importantes, mas necessárias para o amadurecimento. Basta garantir que elas sejam trabalhadas e interpretadas da melhor maneira.

A falta de um pai pode frustrar, mas também pode indicar o esforço e valor que ele dá para a família. Afinal, dedicação, esforço e empenho não se ensina nos livros.

Se você chegou até aqui, provavelmente se reconhece nesse cenário ou ao menos, tem interesse em entender como viver (ou sobreviver) nesse mundo dialético (no seu sentido genérico). Para isso, simplifico essa reflexão trazendo algumas recomendações:

Tome as rédeas da sua agenda profissional

Não deixe que compromissos apareçam desenfreadamente em sua agenda. Saiba argumentar com os proponentes, a fim de ter mais controle da sua agenda. Delimite um número de reuniões que você se dispõe a fazer por dia. Determine qual período do dia você vai reservar para efetivamente trabalhar e produzir. Sei que é difícil, mas é preciso aos poucos, implantar a cultura na sua empresa de que reunião às nove da noite não faz sentido. Em alguns casos, é preciso chegar ao limite e refletir se sua empresa realmente oferece um ambiente saudável e se você deve permanecer ali.

Otimize seu tempo

Às vezes é preciso fazer uma mea culpa. Ter que ficar até tarde no trabalho pode não ser culpa de outros, mas sua. Organização faz toda diferença. Chegar cedo no trabalho, ter foco e clareza em quais são as prioridades do dia são fatores essenciais para garantir que você possa encerrar seus compromissos no prazo e voltar cedo para casa.

Manere nas redes sociais

Silenciar grupos de WhatsApp pode salvar sua produtividade.
Outra dica: cancele as notificações dos apps que não são essenciais e passe a designar momentos do seu dia para checar as novas mensagens de cada app. Essa pequena mudança fará uma diferença incrível no seu bem estar. Acredite ou não, boa parte da nossa ansiedade contemporânea vem dessa relação compulsiva com o celular e suas notificações intermináveis.

Em casa, deixe o celular de lado

Quando estiver com seus filhos, deixe o celular de lado. Afinal, você já sabe: para eles, mais do que quantidade de tempo, o que importa é a qualidade de tempo.

Esteja, de verdade, presente e junto de seus filhos quando estiver em casa. Brinque com eles. Dance. Invente histórias, ou apenas sente ao lado para assistir um filme e comer pipoca.

Não faça como alguns, que passam o dia com um olho no filho e outro no celular. Além da falta da sua presença efetiva, você cria em seu filho um desejo e uma ansiedade enorme por aquele aparelho o qual seu pai e/ou sua mãe não desgrudam.