Nos matando de tanto reclamar

Estamos nos tornando verdadeiros repelentes sociais. E isso está ferrando a minha e a sua vida

O novo governo. O velho governo. A chuva. O frio. O calor. O marido que ronca. O cara que te deu uma fechada no trânsito. O filho que nunca acorda na hora. Acordar cedo. O vizinho que leva o cachorro pra fazer cocô na sua calçada. O chuveiro que pinga. A economia. O Brasil. O mundo. Um asteróide que bateu num pobre satélite de Júpiter.

A gente tem tanto motivo para reclamar.

A cada nova interação do dia, como se fosse uma boneca russa infinita, novas coisas irritantes surgem, uma dentro da outra, e magicamente crescem na nossa frente, e ficam tão grande que tapam até o sol.

O cansaço que domina nossas vidas deixa tudo corrido. Os dias, mesmo os mais quentes, ficam cinzas. As comidas ficam sem gosto. O tempo passa rápido demais quando olhamos pra trás. E lento demais quando olhamos pra frente.

Parece que estamos todos à espera do grande meteoro que vai cair, e nos livrar coletivamente dessa existência. E nos agarramos à ilusão de que, talvez, com o planeta inteiro subitamente reencarnado em outra dimensão, a gente finalmente vá tomar decisões diferentes, e começar a viver a vida.

O que parece ficar claro, em toda rodinha de conversa, em todo editorial de revista, em cada grupo de Whatsapp, é que a humanidade finalmente se alinhou em torno de um ideal: a reclamação.

De uns tempos para cá, recebemos o Cavalo de Troia definitivo: redes sociais eletrônicas, que deram a cada um de nós, um palanque para que externemos nossas derrotas e irritâncias uns para os outros. E é exatamente o que estamos fazendo. A gente acorda, liga o Face, o Twitter ou seja lá a rede da sua preferência, descarrega a bílis do dia, e parte para a jornada rotineira.

O que não deixa de ser um contrassenso, porque continuamos a compartilhar fotos de restaurantes, pores de sol e animais de estimação. Todo mundo quer reclamar, mas não quer ser visto como um zumbi macambúzio. Talvez por isso o Instagram seja a rede mais aguentável e a que mais cresce.

Reclamar ferra com a sua vida

Tem uma coisa que digo pro meu filho com freqüência, e que eu mesmo deveria ouvir mais: “reclamar é uma coceira”. Como aquela boa e velha frieira entre os dedos do pé (atire a primeira pedra aquele que não a teve), que você sabe que não deveria, mas não consegue evitar meter a unha.

Na verdade, estudos mostram que minha analogia não está muito longe da realidade. Cientistas perceberam que a reclamação cria pontes neurais. Nosso cérebro é uma máquina que ama eficiência. E quando percebe que o ato da reclamação é uma coisa contínua, já cria uma passagem direta entre neurônios para que essa ação se torne mais rápida. E quanto mais simples, mais a gente faz. Em outras palavras, quanto mais a gente reclama, mais fácil fica. Até que não dá mais pra não fazer.

Não pára por aí. Pesquisadores de Stanford chegaram à conclusão de que reclamar faz mal de verdade, fisicamente. Nossas queixas constantes diminuem o tamanho do nosso hipocampo. E é justamente nessa área do cérebro que reside nossa capacidade de resolução de problemas. Do pensamento inteligente, mais elevado. Quer ficar realmente preocupado? O mal de Alzheimer destrói exatamente o hipocampo. Reclamar nos deixa literalmente mais burros.

Mas, como nenhum problema é grande o bastante, tem mais. Quando reclamamos, nossos corpos liberam o hormônio do stress, o cortisol. Esse hormônio tem uma função verdadeira em nossa biologia. Ele nos prepara para a batalha. Nos deixa mais reativos, alertas. Só que no processo, ele aumenta nossa pressão sanguínea e os níveis de açúcar no sangue, afim de que tenhamos respostas imediatas para fugirmos ou nos defendermos.

Ou seja, se não estamos no meio de uma guerra, ou fugindo de um dentes-de-sabre, cortisol faz muito mal. De fato, ele nos deixa mais propensos ao diabetes, doenças cardíacas, obesidade e até na iminência de um derrame. É um verdadeiro veneno.

Sua reclamação fode a minha vida

O ser humano é um bicho social.

E para conseguir viver em sociedade, em clãs, ou em famílias, fomos obrigados a desenvolver alguns tipos de empatia com os que nos cercam. Alguns tipos de empatia são muito bons, e permitem que a pessoa tenha um sentido de relação e solidariedade com o próximo. Outros, no entanto, são simplesmente respostas de adequação ao grupo social em que o indivíduo vive.

A ciência chama isso de Espelho Neural. Nós nos adequamos para poder conviver. Mas vem com um preço: acabamos adquirindo, sofrendo e repetindo os mesmos sintomas daqueles que nos cercam. Pensou em fumante passivo? A ideia realmente é essa.

Quando colocamos na cesta o fato de que estamos coletivamente nos transformando em reclamões contumazes, fica difícil não relacionar a isso aos alarmantes níveis de depressão atingindo a humanidade.

Apesar de estarmos muito longe do ideal, nunca em nossa história tivemos tanta abundância. Nunca tivemos a expectativa de vida tão alta. Nunca tivemos tamanho acesso à tecnologia, remédios e à bens de consumo. E ainda assim, nunca estivemos tão deprimidos e insatisfeitos.

Parece que estamos num processo contínuo, onde afetamos nosso próximo com nossa negatividade, ao mesmo tempo que somos afetados. Não é totalmente maluco afirmar que a humanidade inventou a primeira doença transmitida pelo computador.

Calma, tem jeito

Não há mal que não se cure. Se reclamar é uma doença, ela tem cura. O que não quer dizer que seja fácil.

1- Pare, apenas pare

A primeira forma de combater o mal da reclamação é parar de reclamar. Ou pelo menos diminuir. Qualquer um vai lançar uma praga eterna aos construtores de sofá quando topa com o dedinho no canto de um deles. Ninguém está pedindo para que alguém pague imposto com um sorriso nos lábios. Ninguém acha que dá pra viver uma vida de Poliana.

Mas dá para conter o palavrão no momento em que se coloca o pé fora da cama. Dá pra tentar segurar a negatividade quando se bebe um café mais frio do que deveria. Dá pra não ser o trombeteiro do apocalipse da internet quando se descobre que tem um cara, numa pequena cidade do Reino Unido, que está lutando na justiça para se autodeclarar um Pônei.

Dá pra não foder com a paciência da sua própria família com demandas que, no mínimo, podem ficar somente na sua cabeça.

Esse primeiro passo consiste em tentar ver vida como ela é, e não como gostaríamos que fosse. E perceber que ela poderia ser bem pior. Tenha certeza, se você acorda numa casa limpa, e toma uma água transparente, você já é um sortudo. Se você não perdeu membros da família em alguma guerra nos últimos anos, tem motivos para comemorar. Se tem um computador pra ler isso que estou escrevendo agora, já é um privilegiado.

A expectativa exagerada é a mãe da frustração.

2 -Mude o foco

Ninguém está sugerindo acomodação. Mas apresentar o problema não adianta nada. Qualquer um faz isso. Qualquer cachorro late quando você prende uma coleira no pescoço dele. A diferença entre um ser humano e um cachorro, é que o primeiro sabe como resolver a questão.

Portanto, quando perceber algum problema, pense numa solução. Apresente uma via alternativa. Contribua.

Toda pessoa do mundo que ficou rica resolveu um problema. Problemas são oportunidades de crescimento. São pequenos defeitos nas engrenagens. Muitas vezes, o mercado já oferece peças de reposição para essas engrenagens. Quando não oferece, é exatamente ali que as grandes ideias, as que mudam o mundo e criam bilionários, existem.

Trocando em miúdos: o ser humano nunca se beneficiou com grandes especialistas em identificar problemas. Foram justamente os solucionadores que nos colocaram pra frente.

3- Você não é o juiz do mundo.

Talvez a atividade mais antiga do mundo seja a de julgar.

O julgamento, quando vinha travestido em discernimento, já nos foi muito útil. Ele é quase como um sexto sentido, que capta sinais fracos advindos de tudo que é lugar, para nos avisar que “fulano é meio estranho”, “cicrano é violento”, “tem algo errado com essa parada”.

Até aí, tudo bem. Nossos problemas começam quando a gente julga todo mundo como uma forma de amenizar as nossas próprias mazelas. Não é por outro motivo que notícias das tretas entre pessoas famosas dão tanto ibope. É reconfortante para nossos egos descobrir que alguém mais bonito, talentoso e rico tem problemas iguais ou maiores do que nós.

E aí, meu irmão, vira uma loucura. A gente incorpora o próprio Kid Cavaquinho, e começa a adorar encontrar os esqueletos nos armários alheios. O filho daquele ali usa droga. Aquele casal treta todo dia. Aqueles dois ali? fiquei sabendo que já foram presos. Aquela ali tem uma pinta peluda no umbigo. E por aí vai.

O julgamento é o propofol da autoanálise. Enquanto existe um ser mais zoado que nós, nosso problema não é tão grave. Postergamos a mudança. E pior, quando damos por nós, estamos pensando em problemas dos outros. É mais problema no seu sistema.

O que não adianta nada. Nem para nós. Nem para o mundo. E nem para aqueles que julgamos. No fundo, é simplesmente mesquinho. Cada pessoa passa por uma família, uma trajetória e uma vida que nós não fazemos ideia.

Ou seja, se a pessoa não está por aí cometendo crimes, não é problema nosso. E mesmo se estiver, em 90% das vezes o problema é da justiça.

Livre-se dessa carga. Essa é fácil.

4- Agradeça

Essa ação é diretamente ligada com a primeira.

Uma vez que seguramos a reclamação, e conseguimos enxergar o mundo sob outra luz, sejamos gratos por estarmos debaixo dela.

Novamente, é preciso apelar para a ciência na argumentação. Pesquisa da Universidade da California descobriu que pessoas que tem o hábito de encontrar gratidão na vida reduzem a produção do danado do cortisol em até 23%. E em decorrência disso, tem melhor humor, menos doenças, mais energia e menos ansiedade. Resumindo: vivem melhor.

Essa sensação de agradecimento pode não vir naturalmente para nossa vida. É preciso parar, observar, contemplar, perceber. Como quase toda atividade que nos faz bem, é um exercício. Qualquer um que frequentou uma academia ou deu os primeiros passos para uma corrida, sabe que é duro no começo. O prazer e o benefício vêm depois. A maioria desiste no começo. Poucos realmente chegam a aproveitar as consequências.

Ver alguém feliz e pleno talvez seja como ver alguém malhado. A gente culpa a genética, mas não sabe o sacrifício que o cara passou para ter aquele ganho.

Nada do que estou falando é novo. As religiões já haviam decodificado esses fatores milênios atrás. Apesar das distorções e dogmas, não conheço crença baseada em ódio ao próximo e rancor. A base de quase toda fé em algo maior se dá geralmente em torno do perdão, da gratidão e do reconhecimento da sua própria insignificância perante o universo.

Para quem é cético: as preces, os cânticos, os mantras, as novenas, são formas disfarçadas de meditação, que por sua vez nada mais é do que uma forma de acalmar nossas mentes do ato de julgar o mundo o tempo todo.

Quando se é uma máquina de gerar chorume, se tem a impressão de que o mundo está contra você. Não conheço forma de egocentrismo maior do que achar que a chuva que cai sobre todas as cabeças é uma forma da natureza de irritar a uma pessoa em específico.

Hora de mudar a chave. Prender o fôlego, mergulhar dentro de si, encontrar o tesouro, e voltar à tona com ele nas mãos. Mas se você for ficar esperando seu vizinho fazer o mesmo, vai continuar sendo infectado por ele, enquanto deixa outros doentes.