Recriar o escritório de Hitler: sensacionalismo, imprudência ou necessidade?

Ao mesmo tempo em que na Áustria a casa natal do líder nazista está para ser demolida, em Berlim uma réplica do cômodo em que o chanceler passou seus últimos dias é inaugurada. A polêmica exibição do Berlin Story Museum abre um dos maiores bunkers da Segunda Guerra Mundial para visitantes e expõe o escritório em que o Führer teve seus derradeiros momentos. O público e a crítica se dividiram, fomentando discussões variadas: alguns afirmam se tratar de sensacionalismo, outros se preocupam com os neonazistas e, por fim, existem aqueles que apontam a importância histórica e didática de tal exposição. Estou propício a concordar com os terceiros, mas este texto não é só sobre a minha opinião - é sobre diferentes pontos de vista.

De fato, a Alemanha vê, há décadas, o crescimento dos movimentos de extrema-direita e o consequente aumento da xenofobia. Problemas estes que preocupam ainda mais se somados à recente crise dos refugiados e imigrantes. O país recebeu meio milhão e o ódio cego dos nacionalistas tem a mira ferrenha neles da mesma maneira que tinham os seguidores de Hitler nos judeus. Sob a velha bandeira de que alemães perderiam seus empregos, a economia seria inflacionada e outros clichês do tipo, os neonazistas conseguem adicionar em suas fileiras novos seguidores. É justamente neste cenário que Enno Lenze, organizador da exposição, se apoia para defender a necessidade da mostra. Segundo ele, a atração não serviria de chamariz para neonazistas justamente por expor o fracasso do Terceiro Reich. Nos mais de 6 mil metros quadrados e 100 cômodos do bunker, cerca de 12 mil nazistas se refugiavam perto do fim da guerra - quando soviéticos e americanos estavam à porta.

A criticada reconstrução do escritório de Hitler - localizado no esconderijo -também tem propósito maior que o sensacionalismo segundo Lenze. O local onde o monstro teria se acovardado e cometido suicídio serve para alertar sobre a eminente volta da ideologia que matou milhões (um cálculo aponta mais de 20 mil neonazistas em solo alemão). Apesar de ser uma releitura complicada de se fazer de primeira - ainda mais desconhecendo a visão do organizador - o cômodo não deixa de cumprir sua função.

Chegar ali, onde o genocida escrevia e planejava suas decisões, com apoio de documentos, fotografias e relatos da barbárie, pode ser de grande valia para os visitantes. Como afirma Peter Hoffmann, porta-voz de outro museu relacionado à guerra: “preservar a história é essencial para não repeti-la”. Por isso, monumentos como esse seriam de extrema necessidade e relevância.

A função didática da atração é posta em cheque por jornais e críticos à medida que, para eles, muitos dos espectadores irão procurar apenas por entretenimento puro. Nesse ponto, a divulgação do museu não ajuda muito: “Venha conhecer o quarto onde morreu o maior assassino em massa da história.” — comunica um anúncio da exposição. Em tempos de banalização do mal, quem não seria atraído? Me coloco neste bolo. Em 2010, tive a oportunidade de visitar o Salão do Congresso, em Nuremberg, um dos berços do nazismo, e hoje, importante centro de documentação. O local chamou minha atenção com uma exposição intitulada Fascínio e Terror. Entrei como um turista qualquer empolgado, saí humanamente envergonhado por ter entrado assim. Discursos de ódio, fotos indigestas, lista de famílias judias exterminadas e outros artefatos que com certeza não são “entretenimento puro” preenchiam as paredes do lugar.

O Salão do Congresso: os famosos Desfiles Nazistas passavam por ali.

A proposta do Berlin Story Museum é justamente essa, a visita é guiada, passa por diversos cômodos decrépitos (exatamente como estavam em maio de 1945), apresenta crimes de guerra e, por fim, culmina no infamado escritório do Führer. Assim como os museus dos campos de concentração Auschwitz e Dachau, o Centro Anne Frank de Berlim e o Museu do Nazismo, em Munique, o bunker mostra abertamente a luta alemã para se “retratar” e evitar que os erros do passado não aconteçam novamente. Se até 1970 o país tinha extrema dificuldade em lidar com o assunto, a ponto de livros de escola omitirem fatos, crimes de guerra serem arquivados (como narrado no excelente filme Labirinto de Mentiras) e ainda serem hostilizados aqueles que buscavam a verdade, hoje o panorama é outro.

Se é preciso usar sensacionalismo para revelar para nossa geração — que já demonstrou cegueira inúmeras vezes — os males de ditaduras, guerras e seus genocidas, que seja usado. De mau gosto ou não, a exposição é história, e história não pode ser apagada, por mais dolorida que seja.

Ah, e demolir a casa natal de Hitler para combater o neonazismo é tão eficiente quanto proibir propaganda de cerveja para acabar com o alcoolismo.