Reflexões sobre as repercussões da lamentável exposição da intimidade de um homem político

(Miguel Schincariol/AFP)

Deixo aqui registradas algumas reflexões sobre o lamentável caso Dória, que era a última coisa sobre a qual queria me debruçar nestes dias tão tensos, mas eu simplesmente não suporto assistir, passivamente, sem recorrer à escrita, a tantas pessoas usando tanta energia para repreender, criticar e atacar mulheres.

Vou jogar umas ideias no mundo, para ver se dá uma neutralizada:

Uma premissa precisa estar absolutamente clara: a dignidade é inerente a todos nós e a do outro deve ser respeitada.

Esse nível de invasão de privacidade, ainda mais como forma de fazer política, é absolutamente lamentável, tanto na esfera individual, quanto coletivamente. Não há outra palavra.

Lamentável.

Igualmente lamentáveis são algumas repercussões sobre o episódio, que, a meu ver, partem de uma compreensão equivocada da realidade material, desprovida de sensibilidade e de responsabilidade social.

Vejamos.

Os valores que nos regem enquanto corpo social, que limitam a existência plena, livre, somente de uma parte de nós, fazem com que, na mesma situação enfrentada pelo Dória, vidas de mulheres sejam arruinadas em desproporção descomunal às repercussões sentidas por homens.

Porque esses valores estruturais e estruturantes têm raízes machistas. Esses valores moralistas estão intrinsecamente ligados ao funcionamento da sociedade do patriarcado.

Essa moral não se preocupa com o que fazem as pessoas com seus corpos, simplesmente. Essa moral se preocupa com o controle de corpos femininos, de corpos que fogem à heterossexualidade.

Essa moral não limita nossas existências, enquanto homens e mulheres, por igual, mas atuam de maneira sistêmica, estrutural. Atuam contra nós, mulheres, e contra as pessoas lgbt, ao mesmo tempo que beneficiam os homens, enquanto coletividade.

Na esfera individual, não dá para desconsiderar que existem repercussões negativas para o Dória e para os seus. E também não dá pra fazer falsa simetria. Justamente, porque, de novo, se trata de uma questão estrutural, que funciona de forma potente, e organizada e inescapável contra as mulheres. Contra nós. O tempo todo.

Gostaria que os que ocupam lugares não minoritários compreendessem que, do lado de cá, não é fácil não se revoltar com uma estrutura e com os atores que nos violentam e incrementam as violências que nos atingem enquanto coletividade, o tempo todo; que a comunicação não-violenta é um processo e uma conquista, e que a vingança nos é ensinada como resposta única desde que nascemos, bombardeados por essa sociedade punitivista, e seu desaprender é um processo também.

Nem todas chegamos lá.

E isso não quer dizer que a primeira frase que escrevi aqui, do dever de respeito à dignidade de todos, indistintamente, não continue a valer, com todas as suas consequências em caso de desrespeito, para todas e todos nós.

Nós, mulheres, revivemos nossas cotidianas microviolências enquanto coletividade, a cada episódio desse tipo que vem à tona, ainda que não seja conosco, diretamente, quando o mundo esfrega na nossa cara que com a gente sempre vai ser pior. Sempre.

Cobrar um perdão apressado, ou a pronta atuação em defesa de quem age contra a nossa existência, de quem acaba de sentir isso, mais uma vez, na pele, para restaurar uma aparente harmonia social, que, em verdade, só beneficia uma parte de nós, também é violência.

Deem um tempo para digerirmos, enquanto coletividade, que esses defensores da moral e dos bons costumes (sic), que tanto ajudam a incitar as violências cotidianas que sofremos, gozam de privilégio mesmo numa situação dessas.

É uma atitude empática compreender a raiz de nossas reações, diante da crueldade das estruturas, ainda que discordando das nossas atitudes, da nossa forma de lidar com isso.

Eu sei que o esforço no sentido de tentar controlar corpos e atitudes femininas e de grupos subalternizados é tentador, porque sempre tido como legítimo, mas deixar de se autointitular detentor da liberalidade de repreender nossas reações, sejam elas quais forem, é ajudar a nossa causa. Dizer como seria melhor lutar a nossa luta não é. Não me canso em repetir.

Se você continua pensando “Ah, mas ninguém tem o direito de tripudiar, de xingar, de ridicularizar”. Você está coberto de razão e eu concordo plenamente. Quando disser isso, diga também, sempre, sobre a disparidade das estruturas, use o seu espaço e o seu lugar de privilégio para reforçar que os efeitos não são os mesmos, fosse a vítima uma mulher. Já tem gente demais pronta para sempre fazer falsa simetria. Não contribua. A cada vez que você critica uma mulher que reage ao machismo, sem também verbalizar essa disparidade, você contribui para a falsa simetria que rege os nossos dias, as nossas vivências.

O esforço da imposição da cordialidade como assunto principal, que sequestra a pauta quando se discute tensões entre oprimidos e opressores, deixando a desigualdade em segundo plano, sempre tem tons silenciadores para quem sofre a opressão.

Nós precisamos refletir sobre a desigualdade de gênero, honestamente, considerando as repercussões individuais diante da potência das estruturas. E exercitar o silêncio em relação a alguns desdobramentos dessas tensões que existem entre nós faz parte do processo de reflexão e desconstrução da desigualdade.

A conversa entre nós nunca vai ser fácil. E fica ainda mais difícil quando as exigências de nós são tão grandes quanto ou maiores ainda que o amontoado das desvantagens que nós temos.

O exercício do respeito ao outro é mais fácil para quem, por ser quem é, é sempre respeitado, sem qualquer questionamento. Agir de acordo com essa compreensão, ao invés de relativizar a potência das estruturas, enquanto lança luz sobre a ira de mulheres feministas que se manifestam raivosamente quando atingidas em suas essências, nos contempla, nos abraça.

Precisamos construir, juntos, uma ética coletiva que reaja, coletivamente, aos assuntos de maneira mais justa, de maneira que considere mais fielmente a desigualdade material entre nós. E a forma como cada um se manifesta publicamente ajuda a moldar novos valores que irão incrementar ou diminuir estigmatizações históricas.

Eu encorajo os homens, pelo menos os que sempre dizem estar ao nosso lado, a criticarem menos as mulheres, publicamente. Por mais que nos reprovem. Por mais que, assim, silenciando, sintam-se tolhidos em seu direito de fazer juízo de valor sobre tudo que existe e que acontece. Ainda que sintam que há um grito entalado em suas gargantas. Ainda que sintam que, assim, foram injustos, que cuidaram do assunto de maneira incompleta, diante da manifestação agressiva de uma ou mais mulheres, fato que vocês sentiam que era tão importante pontuar. Ainda que vocês queiram ser recompensados por serem tão sábios como vocês acham que são, quando comentam manifestações pontuais de maneira formalmente igual, um assunto que, coletivamente impacta as coletividades envolvidas de forma materialmente desigual. Ainda que vocês tenham os olhos no aplauso, por parecerem tão ponderados, tão observadores dos “dois lados”.

Esse silêncio também faz parte do exercício da empatia. Porque um grito contra nós alcança uma potência que aqueles tantos que tanto gritamos em nosso favor ainda não são, nem de longe, capazes de alcançar.

Estamos gritando, há séculos, e ninguém ouve.

Vocês gritam, e nós sangramos.

Ainda mais.