Esse texto nasceu de diversas reflexões que fiz por meses

Ilustração de Lora Zombie

Eu quero terminar esse ano falando de algumas reflexões que tive sobre não monogamia, demonização da monogamia e amor romântico.

E lembrando: eu posso mudar de ideia, estamos todos em construção e eu estou sempre aberta ao diálogo. Esse texto nasceu de diversas reflexões que fiz por meses; mas eu ainda continuo, sempre, refletindo.

Sobre o mito que a Monogamia é um mito

Eu fiz um amigo esse ano que, pelo histórico de vida dele, a escolha pela monogamia foi o que mais fez sentido para ele. Eu pego de base a Phoebe de Friends. Ela teve um vida totalmente fora do sistema normativo e no final percebeu que o que ia fazer bem a ela era justamente entrar em um esquema de relacionamento normativo. Para ela, casar e morar junto era o fora da curva.

Eu refleti muito nesses últimos meses por conta desse meu amigo e dessa quebra do meu mito da demonização da monogamia. Eu cheguei a questionar a minha não monogamia, porque percebi que ela estava sendo pautada no mito anti monogamia, em um ódio para com a normatividade, e não porque fazia sentido pra mim.

Eu tive que ir fundo em mim para desfarelar esse mito anti monogamia (ou anti normatividade) para saber que a minha não monogamia faz sentido para mim, por causa de mim, e não por causa de um sistema normativo.

E foi ótimo perceber isso.

O meu olhar hoje é que o que é tóxico é a hierarquia da normatividade. Dizer que monogamia que é o certo, que ser hétero que é o certo, e qualquer outra coisa fora disso é errado. Quando na verdade não tem que existir normatividade alguma, porque de fato ela não existe.

E cada um tem que problematizar a fundo em si tanto a monogamia como a não monogamia.

A não monogamia não é solução para todos os relacionamentos. Isso é mito real e oficial. Eu ando cada dia mais sentindo menos ódio da monogamia e mais ódio da hierarquia tóxica como a normalidade. Porque também nem toda hierarquia é tóxica, mas a hierarquia da normalidade é.

Ser hétero não é tóxico, mas a heteronormatividade é.

A monogamia não é uma criação capitalista. Nem a heterossexualidade. O que o sistema em voga faz é usar daquilo para perpetuação do poder. Ele usa algo que já existia, a monogamia, mete um amor romântico (esse sim é mito e muito, mas muito tóxico) e pá, temos aí uma monogamia tóxica.

Sobre o amor romântico

Eu fiz dois comentários em um texto do Felipe Moreno sobre o amor ser abusivo. Eu realmente achei esse texto extremamente problemático, mas eu mega recomendo a leitura dele e de nossos comentários. Eu também recomendo a leitura dos outros textos dele, que são ótimos. Felipe não é só esse texto. Ele é um universo, e esse texto é uma das estrelas desse universo. Isso vale para todo mundo, mas achei importante enfatizar nele, porque criticar um texto não é criticar todos e muito menos uma crítica pessoal.

Eu falo em um dos meus comentários desse texto dele:

Eu tenho uma visão menos mitológica do amor. A estrutura social coloca o amor numa escada de sentimentos, aonde ele é o último sentimento numa escala do menor para o maior. Ele é o maior dos sentimentos, o deus de todos os sentimentos. E eu não acredito nisso. Pra mim sentimentos são fluidos e não escalados. O amor é muito supervalorizado, hierarquizado, enquanto os outros sentimentos são diminuídos nessa escalada e menos aproveitados.

Por exemplo, por que o que sinto por você é menos importante e ou valioso do que o que eu sinto pela Mar? E por que o que eu sinto pela Mar tem que ser hierarquizado para mais do que o que eu sinto pelo Rodrigo? Porque se formos pensar em uma hierarquia de sentimentos que a sociedade diz que é a certa, a escada do menor para o maior seria Rodrigo, você e Mar. Eu não concordo com isso. Não é assim que entendo sentimentos.

Você pode dizer que amor é colocado em maior nessa escala por que ele demora mais para acontecer. Demanda mais tempo de relacionamentos, que é uma construção de uma relação. E eu também não concordo com essa versão. Eu já amei pessoas com pouquíssimo tempo de relacionamento. Eu conheço pessoas que também já sentiram o mesmo em menos tempo. E não rola deslegitimar sentimentos alheios. Ninguém pode dizer que o que eu sentia não era amor só porque ele não performou como o esperado socialmente.

Então, provavelmente nesse rolê todo da monogamia,

o que é tóxico é o amor romântico e não a monogamia em si.

Eu conheço casais monogâmicos que não performam a toxidade de um amor romântico, são pouquíssimos, isso é fato. Mas eles existem, e isso me fez pensar que o que de fato é tóxico não é a monogamia, mas o amor romântico.

Outros textos para reflexão sobre esse tema:

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Thanks to New Order - Redação

Ana Paula Fernandes

Written by

🙄

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade